
“A linha do mar”, em Leça da Palmeira, que foi vandalizada, orçou em 300 mil
André Rolo / Global Imagens
Vandalização de peça na marginal de Leça da Palmeira reacende debate sobre arte pública. Escultores dizem que se as pessoas gostarem e perceberem, "estão seguras toda a vida".
A vandalização da peça "A linha do mar", que Pedro Cabrita Reis concebeu para a marginal de Leça da Palmeira, em Matosinhos - e que até já foi comparada a um "gráfico de barras" -, reacendeu o debate sobre arte pública, em que se incluem aspetos como os custos, estética e integração dos trabalhos no espaço público. O tema, que sempre despertou polémica, sobretudo quando são instaladas obras de grandes dimensões em locais sensíveis - como foi o caso da Praça da Ribeira, no Porto, que, no início da década de 1980, recebeu o "Cubo", de José Rodrigues, com grande contestação popular -, não é, porém, motivador de reações aguerridas em todo o lado.
Uma das exceções é Santo Tirso, onde mora "o maior parque de arte pública contemporânea", composto por 56 esculturas oferecidas por artistas nacionais e internacionais consagrados, como testemunha Álvaro Moreira, que dirige o Museu Internacional de Escultura Contemporânea (MIEC) e não regista casos de vandalização.
O exemplo de Santo Tirso
E nem o buraco que surgiu em meados de 2018 na peça "Uma escultura para Santo Tirso", que Pedro Cabrita Reis fez com tijolos e ofereceu à cidade em 200, tendo executado uma intervenção partindo tijolos a martelo dias antes de aparecer a abertura na peça, é exceção que não confirme a regra: "Não houve intenção de vandalismo, porque tudo o resto ficou intocado. Houve curiosidade de alguém que mexeu, e a estrutura, que tinha ficado fragilizada, cedeu", explica o diretor. A população haveria de apelidá-la de "casa das máquinas", por ficar junto à queda de água do parque D. Maria.
Idealizado pelo escultor Alberto Carneiro, o projeto do MIEC iniciou-se em 1991, com a instalação na cidade das primeiras peças, resultantes do 1.º Simpósio Internacional de Escultura de Santo Tirso. "Hoje, está perfeitamente assimilado, interiorizado e apropriado pela população, que o entende como um grande ativo patrimonial, um fator de distinção, notoriedade e atração da cidade", considera Álvaro Moreira.
"Se as pessoas gostarem [da escultura], ela está segura toda a vida, até a protegem", afirma o escultor Carlos Barreira, autor da série Pedras Bulideiras, aludindo à própria experiência. Incluindo a que teve em Vila do Conde, com a peça alusiva ao desporto que está instalada perto do Estádio dos Arcos. "As pessoas tomaram posse dela", diz, salientando que, "em princípio, a arte pública tem de ser aceite".
"Nos sítios onde existe maior qualidade do espaço público, os habitantes acolhem melhor os projetos dos artistas", sustenta Fernanda Fragateiro, que tal como Barreira, nunca viu uma peça de arte pública da sua autoria vandalizada. "Quanto mais diálogo existir, mais fácil é entenderem e tomarem as obras como suas e protegerem-nas", acrescenta. "De um modo geral, as pessoas rejeitam o que não se percebe. Se forem esclarecidas, até são capazes de aderir", concorda o escultor Carlos Nogueira. "Quando as obras são polémicas, é porque não são indiferentes", vinca, por outro lado, Zulmiro de Carvalho.
