
Deiby Lima (à esquerda), Uisma Lima (ao centro) e Celestino Lima (à direita) são pugilistas
Igor Martins / Global Imagens
Irmãos pugilistas vivem em Portugal há 19 anos. Lutam pelo título de residência para representar o país.
O boxe corre-lhes no sangue, misturado com a vontade de representar Portugal além-fronteiras. Deiby e Uisma nasceram em Angola. Chegaram ao Porto há quase duas décadas. Vieram com a mãe, grávida, em busca de uma vida melhor. O irmão Celestino veio ao Mundo em Gaia. Ainda assim, é estrangeiro na terra que o viu nascer. São três jovens com um sonho. Têm 29, 27 e 18 anos.
As propostas vindas do estrangeiro para lutar alimentam o sonho de construir uma carreira no boxe. Falta-lhes o título de residência e a nacionalidade portuguesa para progredirem. Todos têm processos pendentes para obter documentação. Da família, só a mãe conseguiu nacionalizar-se.
O JN contactou o Ministério da Administração Interna, que tutela o SEF, bem como o Ministério da Justiça, responsável pelo Instituto dos Registos e Notariado que analisa os pedidos de nacionalidade. Ambos não prestam "informações sobre casos particulares".
"O meu maior sonho é representar Portugal lá fora, mas não é possível porque não posso sair do país", disse Deiby Lima, apelidado de "ShowMan".
Para conhecer o percurso da família, é necessário retroceder 19 anos. "Quando chegámos a Portugal, tivemos de comprar roupa. Estávamos sempre cheios de frio", recordou Deiby, que cresceu em Luanda e estava habituado a brincar na rua.
Ficaram em Gaia, na casa casa de familiares até se mudarem para o centro do Porto. A mãe trabalhava por turnos, os filhos estudavam e frequentavam uma sala de estudo no Instituto Profissional do Terço. "A diretora simpatizou com a minha mãe e perguntou-lhe se achava apropriado ficarmos na instituição, de segunda a sexta-feira, para termos um maior apoio", contou.
Dificuldades
Assim foi. Quando atingiu a maioridade, a idade definida para sair da instituição, Deiby Lima diz que começaram os problemas para obter o título de residência. "Precisava de voltar a fazer parte do agregado familiar da minha mãe, mas o rendimento dela era insuficiente para os três filhos. Tinha de arranjar trabalho", referiu.
Entrou numa bola de neve: a falta de documentos impedia-o de assinar um contrato e sem trabalho não conseguia regularizar a sua situação. Só aos 24 anos, com a entrada para o Instituto Profissional do Terço, onde ainda exerce funções enquanto assistente de educação, conseguiu obter o título de residência. Expirou no ano passado. É pai de duas crianças e vive em união de facto com uma portuguesa há nove anos. "São processos demorados", lamentou.
Uisma Lima está na luta pelo título de residência desde os 17 anos. Já lá vai uma década e milhares de euros gastos em advogados. Em causa, explicou o jovem, está a troca da letra inicial do seu nome na certidão de nascimento. "Em vez de Wisma, está Uisma. Tive de renovar tudo com a letra U para depois tratar da residência. Sempre que mando os documentos [passaporte e bilhete de identificação angolano] com U, no SEF, vêm que a última residência está com W. É um problema", confessou o jovem, conhecido como o "Monstro", que aguarda pela entrevista para obter o visto.
O mais novo, Celestino Lima, nasceu em Portugal. Aos olhos da lei, é angolano. Tino, como é chamado, herdou a nacionalidade dos progenitores. "Nunca fui a Angola. É estranho ser conhecido como um cidadão angolano se nunca lá fui", lamentou Celestino Lima, sublinhando que tentou várias vezes nacionalizar-se.
"Havia sempre uma regra qualquer que me impedia de ter a nacionalidade", desvendou o jovem.
"Os melhores"
O título de residência de Celestino expirou em janeiro. Vai tentar novamente nacionalizar-se. "Já tenho os documentos todos reunidos. Não perco a fé". Até porque o pugilista, atualmente a frequentar um curso profissional de Gestão Desportiva, aspira entrar na faculdade. Se o pedido não for aprovado a tempo, não poderá candidatar-se.
O treinador Fernando Kinguell, 45 anos, atesta as capacidades dos pugilistas e crê que podem alcançar uma carreira de sucesso, conquistando títulos para Portugal: "São os melhores no que fazem e têm muitas portas abertas para combates onde se podem afirmar", disse o pugilista.
