Capas de honra mirandesas viraram moda mas faltam artesãos para as fazer

Capas são destaque hoje na cerimónia que junta transmontanos e zamoranos
Foto: Facebook/Município de Miranda do Douro
Só restam quatro costureiras a produzir a icónica peça que hoje dará brilho ao desfile pelas ruas de Miranda do Douro na Cerimónia de Exaltação.
Considerada o ex-líbris do artesanato mirandês, a capa de honra mostra-se hoje em todo o seu esplendor durante o desfile pelas ruas de Miranda do Douro na Cerimónia de Exaltação, que junta transmontanos e zamoranos, vindos da vizinha Espanha.
Cada vez mais usada em cerimónias e atos públicos no concelho de Miranda do Douro, o futuro da sua confeção não está assegurado, pois atualmente só quatro mulheres se dedicam a costurar esta vestimenta, três delas a tempo inteiro.
A confeção da capa de honra, feita em burel e ricamente adornada com bordados, não é barata, custando entre os mil e os 1200 euros. “Cada vez mais gente quer comprar, mesmo os mais novos, que têm orgulho nesta peça de artesanato, única desta zona da fronteira”, explicou Maria Suzana de Castro, uma das poucas que ainda restam, mas que já ensinou a arte às duas filhas.
Até para o Papa
A capa não tem segredos para Maria Suzana e para Palmira Falcão, as costureiras há mais tempo em atividade no concelho e que as fazem e vendem na vila de Sendim, no concelho de Miranda do Douro. “Tenho 73 anos e desde os 15 que costuro. Comecei a fazer capas de honra porque fui desafiada pelo falecido padre Manuel Maria Mourinho, que era diretor do Museu da Terras de Miranda, e queria que a tradição se mantivesse porque na altura eram só os alfaiates que as faziam e eles eram cada vez menos”, explicou Maria Suzana. Em quase meio século a fazer capas de honra, a artesã revela que das suas mãos já saíram capas para o Papa Francisco, para ministros e ex-ministros, para o presidente da República.
“Já fiz centenas. Dão tanto trabalho que me arruinaram as costas”, contou a artesã. Antigamente era uma peça de vestuário a que nem todos podiam aceder, por não ser barata e agora também não. “Poucos podiam comprar estas capas com tanto bordado, já na altura ficavam caras e eram um símbolo de estatuto social”, recordou a artesã.
Palmira Falcão já leva mais de 30 anos a fazer capas e até ganhou o primeiro prémio nacional de artesanato em 2006. Confecionar uma capa leva-lhe duas semanas com ajuda de outra costureira. “Depende do trabalho dos bordados. A capa pobre demora menos tempo a fazer do que a rica que tem mais bordados”, revela, salientando que “agora todos querem ter uma” e que por isso começou a fazer capas para mulheres.
Tirar da naftalina
“Eram só os homens que as usavam e eu achava isso injusto”, recordou a artesã que costurou uma nova para usar no desfile deste ano. “A exaltação das capas de honra é uma boa ocasião para as tirar da naftalina e mostrá-las, porque são demasiado bonitas para estarem guardadas”, conclui Palmira Falcão.
