Os comerciantes da Praça da República, no centro de Condeixa-a-Nova, queixam-se de quebras entre 30 a 50% e apontam os dedos às obras de requalificação iniciadas, pela Câmara, há cerca de um mês. A descoberta de ossadas seculares veio atrasar o processo.
"As vendas caíram para metade e as obras ainda nem chegaram aqui à porta. As pessoas já não passam, não compram o jornal, não vão ao café". As palavras são de José Carlos Figueira, da Papelaria Romana, crítico feroz da decisão de restringir a circulação rodoviária a um sentido. Mas, por ali, todos os comerciantes ouvidos pelo JN partilham da ideia.
"Se houvesse dois sentidos, as pessoas continuavam a circular. Grande parte dos nossos clientes está de passagem. Agora, as pessoas que vêm de fora quase têm de ir dar a volta à vila", diz Manuel Claro, talhante, a braços com quebras na ordem dos 40%. No caso da padaria-pastelaria Alidoce, o negócio caiu cerca de 30%. "Já nem fazemos as quantidades que fazíamos, porque, para estragar, não vale a pena", conta o responsável, Manuel Santos.
Maria Albertina Guiné, à frente de uma loja de decoração, fala ainda no barulho e no pó: "Todos os dias, à noite, tenho de lavar tudo". E a descoberta recente de cinco indivíduos enterrados em frente à Igreja Matriz, no trajecto seguido pelas máquinas, a seu ver, só veio alongar a intervenção.
Ossadas com 300 a 400 anos
O primeiro de cinco esqueletos enterrados em frente à Igreja Matriz foi descoberto pela arqueóloga Andréa Oliveira, que acompanha as obras: "Vi um fragmento de uma tíbia". Calcula que as ossadas tenham entre 300 e 400 anos, mas certezas só haverá quando a antropóloga responsável acabar o estudo. O achado não surpreendeu o arqueólogo: "Antes, enterravam-se as pessoas com os pés virados para as igrejas, porque se acreditava que, no dia do Juízo Final - ou da Ressurreição -, levantavam-se e ficavam de frente para o altar".
O presidente da Câmara, Jorge Bento, terá sido das pouca pessoas a não fazerem questão de ver os restos mortais, que estiveram dias a descoberto. Sobre a obra (um investimento de cerca de 850 mil euros), não tem dúvidas: "É óbvio que, ao condicionar o trânsito automóvel, incomoda. Eu respondo que a confusão - carros estacionados em segunda e terceira filas - repele os clientes. Queremos disciplinar o trânsito".
"O pior que podia acontecer era ficar tudo como estava", diz, ainda, Jorge Bento, lembrando que o projecto é antigo e esteve em discussão pública. "Não foi feito de costas viradas para as pessoas", remata.
