
Artur Machado / Global Imagens
Conhecer todos os idosos que vivem sozinhos na parte mais antiga da cidade é o objetivo do programa "Com esta Junta, Só, Não!", da responsabilidade da União de Freguesias do Centro Histórico do Porto que arrancou ontem na zona de Miragaia e do Carregal.
A intervenção surge na sequência de incêndios que vitimaram idosos sozinhos, de casos de pessoas que foram encontradas sem vida após vários dias e das situações de ameaças devido à pressão imobiliária.
O trabalho é feito porta a porta. Albina Selgrais tem 84 anos e vive há 52 num 2.º andar junto à capela de São José das Taipas. Está sozinha desde janeiro, altura em que perdeu o marido que contava 96 anos. Passa os dias sozinha, mas "fala com as vizinhas". Não tem família e reside a escassos metros da casa onde nasceu Almeida Garrett, que ardeu no passado sábado. "Foi uma coisa pavorosa! Um horror!", recorda. Nessa noite ligou para uma pessoa amiga da família que morava numa habitação contígua e só ficou "descansada quando soube que ela estava bem".
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"Cortina de proteção"
"Queremos criar uma cortina de proteção destes idosos. Sinalizá-los e acompanhá-los de forma permanente, ver as suas necessidades e as suas preocupações", explica António Fonseca, presidente da União de Freguesias do Centro Histórico. A equipa da Autarquia é formada por duas técnicas.
"Algumas situações já conhecemos. O que pretendemos agora é chegar àqueles casos sobre os quais não temos qualquer registo e que podem ser a maioria. Pessoas isoladas e por vezes com problemas de saúde", afirma Anabela Santos, assistente social.
Por isso, neste levantamento, após o primeiro contacto segue-se sempre uma visita da psicóloga da União de Freguesias.
Numa primeira fase, a prioridade será dada a pessoas que vivem "no casco histórico" em condições precárias. É o caso de Maria de Fátima Soares, de 86 anos, que reside na ilha do Beco do Paço. Mora ali há 50 anos. As casas foram todas vendidas. "Se eventualmente receber alguma carta do senhorio avise-nos!", disse-lhe António Fonseca. O autarca explica que muitas destas "ilhas" funcionam como "incubadoras" e que, por isso, o fim deste problema habitacional está longe de terminar. "As pessoas vão para a Câmara pedir casa, acabam por ser realojadas e o senhorio volta a alugar estes espaços sem qualquer condições de habitabilidade", diz o autarca.
O programa começou em Miragaia e no Carregal e será alargado. Esta equipa vai beneficiar da informação recolhida no cadastro dos edifícios do Centro Histórico que está a ser feito há um mês.
PROGRAMA
Apoio domiciliário
Uma grande parte da população sénior da cidade recebe apoio domiciliário por parte das juntas de freguesias mas também da Misericórdia do Porto, da Diocese do Porto e das IPSS que prestam apoio alimentar, limpeza das habitações e de higienização.
Domus Social
A Câmara do Porto tem em curso também um programa para conhecer as condições em que vivem os idosos nas 13 mil casas da Domus Social. O objetivo é criar respostas para as situações de vulnerabilidade e fragilidade encontradas.
DADOS
2500 idosos sozinhos em bairros camarários do Porto. A Autarquia implementou um projeto de apoio a esta população. Não há um levantamento atualizado desta realidade em todo o concelho.
Edifícios vão ser vistos a pente fino e sinalizados
Há um mês que um grupo de técnicos da União de Freguesias do Centro Histórico do Porto está a realizar um cadastro dos edifícios naquele território. O trabalho vai ser entregue à Câmara do Porto assim que estiver concluído. No documento constarão elementos como o tipo de ocupação do prédio, bem como o seu estado de conservação.
"Pusemos, há cerca de um mês, um grupo de funcionárias a sinalizar e a fazer o cadastro de cada edifício com a fotografia e a ocupação que tem", afirmou António Fonseca na sessão da Assembleia Municipal.
Na reunião, o autarca estranhou aquilo que considera ser um aumento do número de fogos ao fim de semana. "Durante 30 anos, havia muitos edifícios do Centro Histórico completamente degradados, alguns devolutos, com instalações elétricas sem segurança nenhuma e não havia incêndios. Curiosamente, de um momento para o outro, em alguns edifícios, alguns deles em melhores condições do que outros que já foram intervencionados, passou a haver incêndios", alertou o autarca, acrescentando que este problema exige reflexão.
