
População deslocou-se hoje de barco em Vale da Pedra, no Cartaxo
Foto: André Kosters/Lusa
Um comboio de tempestades está a passar por Portugal, sem parar (n)as eleições que vão escolher o sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa, com algumas buzinadelas ao descarrilar do Governo e um rasto de destruição antes do fumo branco. A Câmara do Cartaxo disponibilizou hoje uma automotora para assegurar o transporte de bens essenciais às populações isoladas entre a Ponte do Reguengo e o Morgado.
O principal objetivo da operação é garantir o transporte de bens fundamentais para residentes que permanecem isolados, podendo o transporte ser igualmente utilizado por pessoas que necessitem de deslocação urgente, nomeadamente para irem votar.
O Câmara do Cartaxo, no distrito de Santarém, justifica a mobilização deste meio devido ao corte de várias vias rodoviárias e ao isolamento de diversas localidades. Na nota, a Autarquia agradece "a todas as pessoas, bombeiros municipais, voluntários, forças de segurança, proteção civil, empresas e instituições locais, regionais e nacionais" que têm assegurado apoio permanente às populações afetadas.

Foto: André Kosters/Lusa
"Os mais velhos estão preparados"
Na freguesia de Vale da Pedra, no Cartaxo, o rio Tejo subiu, condicionando vários acessos e deixando casas parcialmente submersas, mas as cheias não são estranhas àquelas gentes, que recordam tempos mais difíceis.
José Rato vive em Vale da Pedra há mais de quatro décadas, e conta à Lusa que, apesar de assustadores, os últimos dias, marcados pelas cheias, não foram nada em comparação com o que se passou na freguesia em 1969 ou 1989.
"Não é nada a que o pessoal não esteja habituado. São coisas que acontecem quase todos os anos. É natural, o pânico não é assim tão grande. Os mais velhos estão preparados, os filhos é que já estão um bocadinho mais assustados", afirmou. José conhece bem o Tejo e assim que começaram as cheias conseguiu prever que as águas não iam chegar ao outro lado da rua - e não falhou.
"Em 1989 andei em casa com água pelo joelho e de barco em frente à minha porta. Todas as pessoas vivem aqui estão preparadas e já têm formas de levantar os móveis, televisões e frigoríficos", relatou, enaltecendo a atuação dos bombeiros, proteção civil e da autarquia.

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Já no que se refere aos apoios do Governo: "Aqui não chegou nada em 46 anos". Mas José Rato desdramatiza e diz que a população está tão habituada, que acredita que as ajudas não passam de "notícias".
Ainda assim, não se mostra desiludido com a política e defende que as eleições prosseguem, e bem, porque só quem está isolado é que não pode votar. "Ir votar foi das primeiras coisas que fiz assim que me levantei", precisou, mostrando-se orgulhoso.
Maria Luís, habitante de Vale da Pedra desde que nasceu, há 78 anos, disse que desta vez não vai votar, porque está ocupada a limpar os estragos da depressão Marta.
O vento forte e as cheias partiram as janelas da garagem de Maria, onde guarda móveis e a salamandra, inundando por completo o espaço, que agora serve de "abrigo" para as ratazanas que se aproximam e que sobem ao pátio do rés-do-chão para comer as tangerinas da árvore da septuagenária.
Só sobram as cascas, que Maria tem de limpar todos os dias, juntamente com o verdete dos muros, após a subida das águas. Do recheio da garagem nada se deve aproveitar. "Agora vai tudo fora", insistiu. Filha de pescadores, Maria Luís diz que só pode contar com a ajuda do filho. "Cá não chega nada. Ninguém cá vem. Somos ricos", ironizou, quanto ao descarrilar do Governo, perante as tormentas.
"Não pensei muito nas eleições. Temos de ajudar as pessoas"
Maria Luís volta a comentar o tema das eleições e diz que, "se o filho lá quiser passar", ainda vai votar porque "é perto", mas, por agora, fica em Vale da Pedra "entretida" até ao final do dia.
A pouco mais de 10 quilómetros (km), na zona da Azambuja, a chuva também deu tréguas até ao início da tarde e levou muitos eleitores ao Centro Escolar da Boavida, ainda assim, provavelmente menos do que o habitual. "Acho que estão menos pessoas a esta hora [do que no ano passado]. Também deve haver muita gente a tentar reconstruir ou a salvaguardar os seus bens", justificou Cláudia Cardoso.

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Cláudia é mulher de um bombeiro, que não para em casa há quase uma semana para tentar resolver os problemas causados pela sucessão de tempestades que está a atravessar o país.
Na Azambuja, a situação não foi pacífica. Cláudia Cardoso fala de dias "um bocadinho complicados", com a população a fazer piscinas com as sacas de areia para tapar o "essencial" e proteger os seus bens. Contudo, acredita que este é o novo normal e que as pessoas já começam a ficar preparadas. "Não pensei muito nas eleições. Temos de ajudar as pessoas que mais precisam, mas se eles [Governo] assim decidem, eles é que sabem", vincou.
Carlos Melão também votou no refeitório desta escola, onde se encontra grande parte das urnas, e, apesar de não registar prejuízos na sua casa, também tem uma habitação na zona de Leiria que ficou sem telhado e sem a chaminé. Arranjar mão-de-obra é um dos principais problemas.

Foto: André Kosters/Lusa
"O meu filho mora lá perto e conseguiu arranjar umas lonas. A mão-de-obra em Leiria é difícil. A minha nora é de Aveiras e conseguiu, através de uns amigos, arranjar uns pedreiros. Em Leiria é impossível", descreveu à Lusa Carlos Melão, que tinha acabado de colocar o voto na urna e estava à espera da mulher, que admite "não ler notícias".
O azambujense alerta que o país "não foi todo abrangido por catástrofes" e que, por isso, adiar as eleições não faria sentido.
Na Azambuja a vida segue normal, mas a dois passos, no Porto da Palha - Lezirão, o mau tempo deixou um rasto de destruição. Os habitantes foram deslocados e as construções rurais estão parcialmente submersas, tal como acontece com as árvores que têm apenas o cume à superfície. Por lá, além de um ou outro curioso, ficam as vacas, que esperam que o pasto volte a rebentar.
