
Filipa Gonçalves desabafou que não tem "vergonha" de ser peixeira
André Rolo/Global Imagens
Aos 20 anos, Filipa Gonçalves é a mais jovem peixeira a trabalhar no mercado de Angeiras, Matosinhos, onde a maioria das vendedoras tem entre 60 e 70 anos.
Mal se entra no mercado é o olhar cativante de Filipa, que se nota que está a rir, mesmo estando a usar máscara, que atrai quem ali chega.
Filipa está no topo da banca de Sónia Braga, 46 anos, sua patroa e "madrinha adotiva". Mas ali "não há parentescos", são todas "equipa". Com elas trabalham Tânia, de 29 anos, e Susana, de 40.
São a "Banca Jovem", assim Sónia batizou a empresa, quando há 13 anos seguiu as pisadas da sua tia Esperança. Nessa altura, Filipa era ainda uma criança, mas foi aos 15/16 anos que começou a gostar de ir ajudar a madrinha, sobretudo ao sábado, quando há mais clientela "e o mercado fica a bombar".
Quando andava na escola, a jovem era "trabalhadora/estudante", porque, como contou ao JN, gosta "muito de ser independente". Filipa tirou um curso técnico de Desporto, estando apta para dar aulas de Educação Física ao 1º ciclo. Mas essa oportunidade nunca chegou.
Foi quando perdeu o trabalho numa pastelaria, também em Angeiras, que Sónia fez-lhe a proposta de ir trabalhar consigo para a banca. "Aceitei toda contente, porque adoro isto", contou Filipa, desabafando que não tem "vergonha de dizer" que é peixeira.
A Sónia não faltam os elogios para a "menina/mulher que nunca baixa os braços". Tanto que a empresária não tem dúvidas que Filipa "vai ser um do seus braços" no negócio. Tal como já acontece com a tia da jovem, Susana.
Da profissão, Filipa garante que já sabe "amanhar quase todos os peixes, faltado só aprender a fazer filetes". "Mas lá chegarei", diz convicta. E elege o robalo "como o peixe que mais gosta de arranjar e comer". Já o pior não tem dúvidas: "É a raia, porque precisa de ser esfolada e muitas vezes acabo por magoar-me".
Ao olhar cativante de quem trata os clientes pelo nome, Filipa junta o despacho de quem "pega na carrinha" de Sónia e vai fazer entregas ao domicílio sempre que é preciso. "Às vezes, o mais difícil é saber como tocar a certas campainhas chiques, mas arranjo sempre alguém para me ajudar", contou, entre gargalhadas.
Ainda que assuma que "gostava muito de trabalhar na área do Desporto", Filipa não tem dúvidas que esta será a sua profissão também no futuro. E ir ao mar? A resposta saiu pronta: "Não me importava! É coisa que não me mete medo".
"Até vídeochamadas fazemos para mostrar o peixe ao cliente"
Sónia Braga (a primeira a contar da esquerda, na foto) abriu a "Banca Jovem" há 13 anos no Mercado de Angeiras, Matosinhos, depois de a fábrica onde trabalhava como costureira ter fechado. Tal como Filipa, a empresária em criança também chegou a ir ao fim de semana para o mercado ajudar a tia Esperança. Sónia confessou ao JN que nos primeiros tempos do negócio chegou a ir trabalhar "contrariada" .
Mas hoje reconhece que ser peixeira "é o sol" dos seus dias. Ainda para mais quando se viu "sozinha", após ter ficado viúva, não podendo baixar os braços. "Com dois filhos, não podia dar-me ao luxo de ser viúva", desabafou, emocionada. E a cada dia Sónia reinventa-se. No início da pandemia, por exemplo, começou com o serviço de entregas ao domicílio, que ainda hoje mantém, "sem levar mais por isso". "Até videochamadas fazemos para mostrar o peixe ao cliente", contou.
