Freguesia em Figueiró dos Vinhos continua sem televisão, internet e comunicações

Foto: Estela Silva/Lusa
A maioria da população da freguesia de Arega, no concelho de Figueiró dos Vinhos, ainda não tem acesso à televisão e Internet e, pelo menos, uma aldeia ainda não tem energia elétrica.
Duas semanas e quase dois dias após a passagem da depressão Kristin, que deixou um rasto de destruição naquela freguesia do interior do distrito de Leiria, a população ainda não recuperou do susto dos ventos ciclónicos, bem visíveis a quem circula por aquela zona, com muitas casas destelhadas e milhares de árvores derrubadas, algumas de grande porte.
"Não temos televisão nem Internet, mas nem nos lembramos disso, com tanta destruição que temos nas casas", desabafou à agência Lusa Maria Dias, de Casais da Arega, que ficou com a casa inabitável e está a residir na casa de uma filha.
Ali perto, no outro lado da rua, Fernando Pinto faz contas aos enormes prejuízos que tem na sua casa, comprada há sete meses e que passou por um processo de requalificação que o vento e a chuva não pouparam.
"Tenho móveis que ainda não estreei e estão todos destruídos. A casa mete água por todo o lado", lamentou este homem, que ficou praticamente sem telhado, numa localidade que "só há 24 horas" teve eletricidade.
Salientando que os prejuízos "são muitos milhares de euros", Fernando Pinto diz ter de se esquecer do que aconteceu "para não chorar" e partilha a dor daqueles que estão a dormir "em casas sem telhado".
A menos de um quilómetro de distância, a povoação de Casalinho, com cerca de duas dezenas de habitações, ainda não recebeu eletricidade, o que motivou críticas de Fernando de Jesus, de 67 anos, que tem recorrido a um gerador próprio para se abastecer.
"Casalinho foi a aldeia mais castigada pela tempestade na freguesia e no concelho de Figueiró dos Vinhos e é a última a ser atendida", queixou-se o sexagenário, zangado com o tratamento de "quem manda".
No caminho para esta aldeia, a destruição no arvoredo é impressionante, com áreas de eucalipto totalmente derrubadas e partidas.
No café-minimercado Dinis, na Portela de Arega, várias pessoas queixaram-se da falta de acesso à televisão e à Internet, com a proprietária, Maria Antunes, de luto pela morte do marido há cerca de dois meses, a falar de "muita tristeza e escuridão".
A eletricidade chegou na terça-feira e até esse dia usou um gerador próprio para abastecer o estabelecimento, no qual gastou mais de 900 euros em combustível "que ninguém reembolsa".
A cunhada Adília Carvalho nem quer recordar o dia em que "pensava que morria", tal a força do vento que lhe destruiu parcialmente o telhado da casa e obrigou a família a refugiar-se no rés-do-chão.
Para o marido, Carlos Carvalho, "é inadmissível" que mais de duas semanas depois da depressão Kristin, a povoação de Arega, sede de freguesia, onde reside, não tenha ainda televisão, Internet e comunicações a funcionar normalmente.
"Tenho os meus pais idosos na Portela de Arega e para saber deles tenho de lá ir, porque não tenho como comunicar com eles", lamentou.
Dezasseis pessoas morreram em Portugal na sequência da passagem das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que provocaram também muitas centenas de feridos e desalojados.
A décima sexta vítima é um homem de 72 anos que caiu no dia 28 de janeiro quando ia reparar o telhado da casa de uma familiar, no concelho de Pombal, e que morreu a 10 de fevereiro, nos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC).
A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o fecho de estradas, escolas e serviços de transporte, e o corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias são as principais consequências materiais do temporal.
As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo são as mais afetadas.
O Governo prolongou a situação de calamidade até dia 15 para 68 concelhos e anunciou medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.
