
Obras de requalificação do antigo edifício de Alcoologia deverão estar prontas em abril de 2022
Pedro Correia/Global Imagens
Para solucionar ocupação de 130%, pressionado pelo apoio à Urgência de Psiquiatria, hospital reconverte espaço para aumentar camas e cuidados.
Para resolver um crónico problema de sobreocupação, na casa dos 130%, o Hospital de Magalhães Lemos (HML) tem em curso uma empreitada de 1,8 milhões de euros para reforçar o internamento, nomeadamente de doentes vindos da Urgência Metropolitana de Psiquiatria do Porto (UMPP) e melhorar os cuidados. A obra deverá estar pronta em abril do próximo ano e permitirá um ganho de até 24 camas.
O projeto de "requalificação de edifício para internamento de retaguarda à UMPP", conforme se lê nas informações do Norte 2020, que o financia em mais de 1,5 milhões, é já de 2019. Contudo, veio à tona na sequência das demissões em bloco na UMPP, noticiadas pelo JN. Com missivas à ARS Norte a pedir esclarecimentos sobre o investimento e sobre o facto de a coordenadora demissionária, Márcia Mota, com quem o JN não conseguiu falar, não ter sido informada da obra.
Numa entrevista conjunta, a diretora clínica Rosa Encarnação e o enfermeiro diretor João Teles, dois dos três elementos do Conselho de Administração do hospital psiquiátrico, falaram ao JN sobre a obra e a polémica em torno do apoio à UMPP. Com João Teles, previamente, a vincar que sendo o HML uma "empresa pública com autonomia técnica e administrativa", não tem que falar com a UMPP sobre os investimentos que faz.
O projeto nasceu em 2019, tendo sido aprovado e adjudicado em 2020, quando o HML "tinha uma ocupação de 130%, surgindo uma janela de oportunidade" de concorrer a fundos comunitários para "requalificar o antigo edifício de Alcoologia, devoluto", explica João Teles.
Sendo que, frisa a diretora clínica, a sobrelotação - agora na casa dos 90% - decorria dos "doentes que vinham da UMPP". Obrigando a soluções de reorganização diárias, com doentes "a pernoitarem na área de dia e a serem mobilizados de noite", prossegue o enfermeiro diretor.
Melhorar a resposta
O objetivo é claro, reiteram: "Melhores instalações, melhores cuidados, melhorar as camas e aumentar até mais 24", diz João Teles. Refutando informações de que o investimento em causa serviria para outros serviços, como sejam a ala de inimputáveis.
No campo da psiquiatria forense, revela o enfermeiro diretor, está em curso um projeto no Plano de Recuperação e Resiliência, orçado em 2,2 milhões, e que permitirá aumentar aquela ala.
Por outro lado, sublinha João Teles, o hospital é auditado e presta contas ao Norte 2020. Na sequência da sobrelotação, explica, perderam, em maio de 2019, a acreditação de qualidade. "Neste momento, o HML tem uma auditoria a correr para retomar o processo de reacreditação de qualidade", revela.
Aumento da procura
Sobre as críticas de limitações nas transferências da UMPP para o serviço de retaguarda do HML, a diretora clínica recorda que o hospital responde por mais de um milhão de utentes e que a pandemia obrigou a regras de distanciamento e testagem. Garantindo João Teles que "o HML não deixou de receber doentes, pode é haver um delay porque não têm vaga imediata".
Quanto às 16 camas daquela unidade, explica que as mesmas não são estanques. "Neste fim de semana entraram 18 doentes, mais os que já cá estavam". O que obriga a "reajustar o hospital, o que leva tempo", nomeadamente passando doentes para a unidade de agudos para que outros possam entrar, explica Rosa Encarnação. "Pode haver mais de 20 movimentações de doentes", diz João Teles.
Alertam ambos os responsáveis para o aumento da procura: "Desde agosto passou-se de uma média de cinco doentes para internamento via UMPP para sete". Num hospital em que quase metade dos internados são casos sociais. A resposta, diz o enfermeiro diretor, está "na consulta de crise aberta" que os hospitais com serviço de psiquiatria deveriam ter, libertando assim a UMPP.
Investimento
Forense com 2,2 milhões do PRR
Em linha com o preconizado no Programa Nacional para a Saúde Mental, o hospital apresentou um projeto de 2,2 milhões ao PRR no âmbito da psiquiatria forense. Visa construir "uma residência de treino para doentes que saem em liberdade de prova" e aumentar até mais 40 camas a unidade de inimputáveis. As primeiras 40 camas foram inauguradas em dezembro de 2019, num investimento de 650 mil euros via orçamento do hospital.
À lupa
Tempos máximo
No internamento de retaguarda à UMPP existe um tempo máximo de permanência de cinco dias, exceto os compulsivos (24 horas). Mas, por vezes, ficam mais tempo por falta de vaga no hospital da área de residência.
Libertar camas
Os casos sociais são um problema crónico e o Magalhães Lemos não é exceção. Ali, a alta só é dada quando o doente é recolhido por um familiar. O que muitas vezes não acontece.
Reorganização
Os serviços foram reorganizados dia 11, "laborando à capacidade máxima". Regressar aos 130% está posto de parte.
