O ex-ministro da Saúde Arlindo de Carvalho apela às "forças vivas" do Porto para que dêem "um grito de alerta" no sentido da concretização do Centro Materno-Infantil do Norte. E critica a "falta de vontade" política e as "sucessivas hesitações" em torno do projecto.
Já passaram 22 anos, mas Arlindo de Carvalho ainda se lembra de todos os pormenores sobre Centro Materno-Infantil do Norte (CMIN), que ganhou forma, pela primeira vez, quando era ministro da Saúde de Cavaco Silva.
"Até 1994, quando saí do Ministério, esse assunto foi, de facto, muito tratado e com grande intensidade", garante, ao JN, revelando que o projecto para a construção do CMIN junto à Maternidade Júlio Dinis chegou a ter uma dotação orçamental de cinco milhões de euros para o início da obra. "A obra estava inscrita no PIDDAC e estava previsto que começasse em 1993. Iria custar cinco milhões de contos (25 milhões de euros). Tínhamos tudo programado", assegura o ex-ministro.
Por isso, o "pai" do CMIN sente "uma enorme tristeza" por ver que o arrastar do processo. "Não se percebe o porquê das sucessivas hesitações dos ministérios e das mudanças sistemáticas de políticas. É uma grande falta de vontade", critica, considerando que, após 30 anos de avanços e recuos, a localização já é um assunto secundário. "A questão é fazer-se a obra. O Porto precisa do CMIN", diz Arlindo de Carvalho.
Para fazer pressão no sentido da concretização do projecto, o ex-ministro social-democrata deixa um apelo: "É preciso que as forças sociais e cívicas do Porto façam um grito de alerta!".
A localização é, contudo, o assunto mais falado, desde que, no passado dia 29 de Julho, a Câmara inviabilizou, pela segunda vez, a construção do CMIN junto à Maternidade Júlio Dinis, por violar o Plano Director Municipal.
Numa semana, já apareceram duas localizações alternativas: Maia e Gaia. Os defensores do projecto dividem-se, porém, em torno das duas localizações de sempre, no Porto: Maternidade Júlio Dinis ou Hospital de S. João.
"O S. João tem uma vocação pediátrica muito grande", sublinha o ex-director clínico daquele hospital, José Eduardo Guimarães. "É um hospital universitário, reúne a vertente da investigação e tem excelentes acessibilidades", reforça o presidente da Escola Superior de Tecnologia da Saúde do Porto, Jorge Ribas, convencido de que a construção do CMIN "é compatível" com o projecto "Joãozinho".
Por isso, ambos acreditam que se devia recuperar o projecto no S. João, suspenso pelo ex-ministro da Saúde Correia de Campos, devido ao seu elevado custo. Cinco anos depois, o actual eurodeputado socialista recusa falar sobre o assunto, alegando não se recordar nem ter por hábito comentar questões que tratou no Governo.
Foi a decisão de Correia de Campos que levou ao regresso do CMIN para a Maternidade Júlio Dinis. Ao JN, a ex-ministra da Saúde Maria de Belém Roseira, que encomendou um estudo prévio, diz que só se lembra que "o terreno disponível obrigava ao realojamento de pessoas". Mais nada.
Paulo Sarmento, director da Maternidade Júlio Dinis, ainda acredita que é possível concretizar o actual projecto, até porque o Hospital Maria Pia precisa de ser substituído rapidamente. "Estamos a falar de uma obra emblemática para o Norte, tem que ser feita", vinca, considerando que os problemas colocados pela Câmara "não são inultrapassáveis".
