Mês de festa na Afurada: “Começamos com o S. João mas o ponto alto é o S. Pedro”

Carrosséis, doces tradicionais e farturas estão garantidos
Foto: André Rolo
Na Afurada, cruzam-se os dois santos e o resultado é um mês de festa rija.
Ao pé do rio, a Afurada, em Gaia, terra de pescadores, prepara as sardinhas e aquece as pernas para os dias de festa, que só terminam no fim do mês. Ali, nas ruas estreitas e ladeadas por casinhas que mais parecem de bonecas, os santos cruzam-se e seguem de mãos dadas pelas noites dentro. Na Afurada, festeja-se o São João e o São Pedro, mas o santo da casa “pesa muito mais”.
As ruas transformam-se em pátios e as mesas saltam lá para fora. Os assadores tornam-se parte da comunidade e, “em família”, os vizinhos celebram os santos populares. “É uma azáfama tremenda, pouca gente dorme e quase toda a população tira férias nesta altura para poder viver as festas. Aqui celebramos os dois santos”, conta Laura Gomes, sentada à porta de casa, onde vive há 47 anos.
A festa começou no dia 19, mas ainda nem a meio vai. O São João é o primeiro a ser celebrado, mas, segue-se o padroeiro da terra, o São Pedro, no dia 29. “Começamos com o São João, mas o ponto alto é o São Pedro. É maravilhoso”, afirma Pedro Remelgado, de 22 anos. Nascido e criado na Afurada, o jovem garante que, entre os dois santos, “o São Pedro pesa muito mais”. “Temos muito mais vaidade e mantemos muito viva a tradição do São Pedro”, afirma Pedro, filho e neto de pescadores, e cujo nome é uma homenagem ao padroeiro.
Para os afuradenses, festejar o São Pedro tem “muito mais valor” do que celebrar até o Natal, garante Laura Gomes. “Além de se festejar o santo padroeiro e de ser o nome da nossa freguesia, vivemos com muito empenho e com muita tradição o santo dos nossos pescadores”, explica. Na casa de Laura, como em praticamente todas as casas da Afurada, o prato principal são sardinhas, que têm um sabor especial: são pescadas pelo pai, tio, marido, filho…
Bairristas e acolhedores
No mercado, na “Banca da Júlia”, a filha Teresa Lopes conta que têm vendido 100 quilos de sardinhas por dia. “Anda todo o mundo à procura das sardinhas, mas é uma coisa natural porque faz parte da tradição”, diz a afuradense de 57 anos. De touca na cabeça e de peixe na mão, garante que “é a maior festa do país”. A verdade é que, seja São João ou São Pedro, “quem passa na rua, não passa sem levar uma sardinha ou comer um bocado de broa”, diz.
O bairrismo é sentido por quem é da terra e por quem não é. Francisco Lameira e a família vendem farturas pelas festas populares há 33 anos, mas a Afurada é um caso à parte. “Faço festas em que as pessoas da terra não gostam tanto da festa, mas aqui sente-se o amor que as pessoas têm. Tem um ambiente familiar e divertido”, garante Francisco, de 24 anos.
Quem anda pela marginal, e percorre as ruas circundantes, esbarra em tendinhas, carrosséis e tudo aquilo que uma festa pede. Na banquinha de doces tradicionais, entre docinhos de amor e caladinhos, outra Laura tem o coração dividido entre Gaia e o Porto. A família de Laura Pessoa, natural de Miragaia, no Porto, já vai na quinta geração a vender doces. Com 71 anos, sempre vendeu nas ruas do Porto, mas as obras da Metro e as licenças caras levaram-na até à Afurada. “O São Pedro é importante para a comunidade piscatória, como o povo da Afurada não há igual”, diz.

