"Mesmo em contingência, situação em alguns hospitais continua complicada", diz diretor do SNS

Diretor executivo do SNS, Álvaro Almeida, visitou o Hospital de Gaia e falou aos jornalistas
Foto: Artur Machado
Na visita, esta quarta-feira, ao Hospital de Gaia, o diretor executivo do Serviço Nacional de Saúde (SNS), Álvaro Almeida, admitiu que mesmo com "planos de contingência", a situação em alguns hospitais "continua complicada". E citou os casos do Tâmega e Sousa, Douro e Vouga e Amadora/Sintra.
"Quisemos vir cá hoje, a Gaia, por ser dia de tolerância de ponto e acompanharmos o funcionamento, e também como é véspera de Natal queríamos agradecer pessoalmente aos profissionais do SNS todo o esforço e dedicação", começou dizer o diretor executivo aos jornalistas.
Acerca dos efeitos da tolerância de ponto, explicou: "Como qualquer tolerância de ponto, significa que a atividade é reduzida. Na Saúde há um despacho da ministra que para além dos serviços urgentes, que nunca param, houvesse atividade para as altas hospitalares, mas não só. O que levará a várias unidades do SNS, na sexta-feira, a trabalhar a 50%. Não estão totalmente em tolerância de ponto, metade dos profissionais faz tolerância de ponto no dia 26 e outra metade noutro dia. O que assegura consultas, cirurgias mais prioritárias e consultas agudas. Temos uma atividade hoje e no dia 26 que não é uma atividade de fim de semana, é mais do que se faz aos fins de semana. As unidades estão a responder para ter níveis mínimos de funcionamento durante estes cinco dias seguidos".
Ainda assim, no Amadora/Sintra há uma espera superior a nove horas, tal como no Francisco Xavier (Lisboa). "Infelizmente, isso é uma realidade que náo é só de hoje, dia de tolerância de ponto. O Hospital Fernando da Fonseca (Amadora/Sintra) tem problemas sérios por várias razões. Tem uma população com mais de um terço sem médico de família, o próprio hospital foi concebido para servir uma população muito inferior à que atualmente serve, hã uma grande sobrecarga que leva a que as urgências não consigam responder da forma que gostaríamos, a que acresce um período de gripe", justificou.
Cirurgias adiadas
"O que existe desde o início por parte das unidades são planos de contingência, para responder aos picos de procura, variam de unidade para unidade e esse é o instrumento que temos", adiantou.
Nesta fase, há cirurgias que são adiadas. "Há duas coisas que temos que distinguir: em dias de tolerância de ponto, feriados e fins de semana, a primeira atividade que é reduzida é a atividade programada não prioritária, há uma série de cirurgias não prioritárias que não vão ser realizadas, a maior parte das unidades já não tinha programadas cirurgias para o dia 26, isso já era normal; uma segunda coisa é haver unidades que jã estão no nível 3 do plano de contingência [são 10 unidades no país], que pressupõe a suspensão da atividade cirúrgica, primeiro a adicional e depois a base, isso acontece para libertar camas decorrentes da maior procura à urgência", referiu.
"Para estar no nível 3 não hã padrão geográfico, são os casos do Támega e Sousa, Douro e Vouga, Braga e Amadora/Sintra, Não sei dizer de cor as 10, mas são as que mais nos preocupam, mesmo estando em nível 3 a situação continua complicada e estamos a pensar adotar medidas adicionais. Não hã muito mais que se passa fazer, é encontrar solução para o internamento das pessoas", completou.
2800 pessoas não deviam estar internadas
Acerca das pessoas que não desviam estar internadas, calculou em cerca de 2800. "Sabemos que é uma realidade no SNS, cerca de 2800 casos, de pessoas que não deviam estar internadas, seja porque já deviam ter camas na rede de cuidados continuados, seja porque deviam ter sido referenciados para respostas de natureza social, se conseguirmos resolver teremos mais camas para acolher nessas unidades", conferiu.
Álvaro Almeida anunciou o reforço da oferta nos cuidados continuados: "Na rede de cuidados continuados hã cerca de 1500 camas para abrir nos próximos meses, só por aí virá uma resposta muito significativa às necessidades; na área social o governo está a tentar encontrar soluções para os 800 a 1000 casos que temos de internamentos puramente sociais. Mas essa solução não virá a tempo do final do ano ou das próximas semanas".
Sobre o alargamento dos horários nos centros de saúde, o diretor executivo também se pronunciou: "O alargamento de horários é só para as unidades que têm esta possibilidade contemplada no plano de contingência. Não é geral. Podem tomar essa opção, as unidades que têm recursos para o fazer em função da pressão sentida".
Urgências encerradas
Na linha SNS24, este mês houve um aumento de 17% na procura. Mesmo assim, Álvaro Almeida confia que o sistema dará resposta: "A linha SNS 24 é um elemento essencial de resposta em situações de doença aguda. Sabemos que há constrangimentos, mas também sabemos que o operador privado está a trabalhar para os utrapassar. Tenho a esperança que os constrangimentos sejam ultrapassados, a informação que tenho nos últimos dias é que a situação está mais ou menos controlada".
O diretor executivo confirmou que "o contrato com o operador privado está a terminar e tem naturalmente que ser revisto", mas ressalvou que "a linha não está na dependência da direção executiva", preferindo, por isso, "não comentar os detalhes do funcionamento".
"Acredito que a linha continuará a responder às necessidades da população. Comecem por ligar, mas se não conseguirem, recorram aos centros de saúde, sobretudo quem tem médico de família para obter resposta em caso de doença aguda", aconselhou.
A terminar, opinou que a falta de recursos humanos é um problema sem solução à vista. "Há um défice estrutural de recursos humanos. Só para terem uma ideia: se o SNS pudesse contratar todos os médicos inscritos na Ordem dos Médicos, mesmo assim só conseguia assegurar 70% das escalas, continuava a estar dependente em 30% do trabalho voluntário, e nesta época do ano é muito mais difícil encontrar quem esteja disponível voluntariamente a cumprir essas escalas. O resultado acaba por ser todos os anos algumas urgências encerradas, de ginecologia e obstetrícia, como acontecerá este ano", concluiu.

