
O primeiro dia do mestre do "Virgem do Sameiro" em casa, nas Caxinas, Vila do Conde - depois da tripulação de seis pescadores ter sido resgatada, anteontem, pelo helicóptero da Força Aérea, numa balsa, dois dias e meio após o naufrágio - , começou bem cedo. Veja o vídeo.
"Não resisti e liguei-lhe, às nove da manhã, a pedir-lhe para tomar o pequeno-almoço com ele", contou, ao JN, Alfredo Coentrão, irmão mais velho de José Manuel. "Encontrei-o bem-disposto, depois de um sono profundo".
Também a mulher do mestre, Lina Coentrão, que saiu da casa dos pais, onde passou a noite, para ir buscar "roupa para o marido", desabafou que José Manuel, "na medida do possível, estava bem". Difícil foi Lina conseguir deslocar-se a pé pelas ruas das Caxinas, tantas eram as pessoas que queriam felicitá-la. "Deus é grande!", desabafou uma vizinha.
"O pior foi o frio"
Por estes dias, a Rua da Praia foi alvo de um corrupio de gente. Ontem, não foi excepção e alguns familiares aproveitaram a manhã para visitar o mestre. Tal como, de resto, fez José Festas, presidente da Associação Pró-Maior Segurança dos Homens do Mar, e José Maria Postiga, presidente da Junta de Vila do Conde.
Por isso mesmo, quando José Manuel Coentrão apareceu à porta de casa já era perto da uma da tarde. Ainda combalido, o mestre do "Virgem do Sameiro" contou que o pior de ter passado 57 horas dentro da balsa salva-vidas "não foi tanto a fome, mas sobretudo o mar e o frio".
Já a maior dificuldade do mestre "foi segurar António Fernando Maravalhas". "Entrou em desespero e a única solução foi amarrá-lo. Custou-me muito, mas fui obrigado a dar-lhe dois socos, a amordaçá-lo e a amarrar-lhe mãos e pés. Caso contrário, ainda saltava da balsa", descreveu.
Do acidente, José Manuel Coentrão referiu que "não faz a mínima ideia de como aconteceu". "O pessoal tinha acabado o trabalho duas horas antes e estava a dormir. Quando fui chamar o vigia, já o barco estava todo alagado", recordou. De acordo com o mestre, o primeiro 'very light' a pedir socorro foi lançado "ainda na primeira noite, por volta das cinco da manhã".
Na balsa apenas existia "água potável, umas pastilhas energéticas e um terço", com que José Manuel Coentrão "rezava a toda a hora, em voz alta". "Nessa altura, passou muita coisa pela cabeça. É inexplicável! Nos primeiros dois dias, não perdi a esperança que seríamos encontrados, mas no último dia pensei que ia morrer", contou, comovido, o mestre.
Mas "o pior já passou graças à Nossa Senhora de Fátima", concluiu.
