Presidente da Câmara de Espinho assume rutura com o PS e será candidata independente

Maria Manuel Cruz faz muitas críticas ao PS e à sua liderança nacional
Foto: Tony Dias
A presidente da Câmara de Espinho vai recandidatar-se ao cargo, mas como independente, depois do PS ter escolhido outro nome para encabeçar a lista do partido às próximas autárquicas.
A candidatura de Maria Manuel Cruz surge num momento de incerteza interna nos dois principais partidos no concelho: o candidato socialista, Luís Canelas, aguarda o desfecho de um recurso que contesta a anulação da sua candidatura; e o PSD trava uma disputa interna quanto à definição do seu cabeça de lista.
A decisão de Maria Manuel Cruz está tomada e, segundo a própria revelou ao JN, assenta num "sentido de responsabilidade" e na convicção de que “Espinho não pode ficar refém de jogos internos, agendas partidárias ou decisões tomadas à margem da realidade local”. A autarca lembra que assumiu a presidência num contexto de crise profunda – depois da renúncia de Miguel Reis, detido no âmbito da operação Vortex – e que encontrou o município “à beira do colapso, com serviços paralisados, sem liderança e sem planeamento”. Desde então, garante, deu prioridade à reorganização interna, com a recuperação de serviços, a estruturação de projetos e ao equilíbrio das contas públicas. “Agora é o tempo de executar”, sublinha.
Sobre a relação atual com o PS, a autarca é perentória: “É de independência total.” Maria Manuel Cruz critica a direção nacional do partido, que considera “alheada da realidade, afastada do território e das pessoas”, e aponta “escolhas erradas” com impactos negativos, tanto local como nacionalmente. A forma como foi afastada da corrida autárquica pelo PS gerou revolta: “Nunca recebi uma mensagem ou um telefonema de Pedro Nuno Santos. Apenas um email de uma assessora a convocar uma reunião onde nem sequer esteve presente. A decisão chegou sem aviso, sem transparência e sem respeito institucional”.
Apesar da rutura, Maria Manuel Cruz insiste que a sua candidatura independente não representa um afastamento dos princípios de serviço público: “É a continuação de um trabalho que devolveu dignidade à câmara e confiança aos espinhenses. Mas agora sem amarras. Com liberdade e com um compromisso total com o futuro da cidade”.
Reconhecendo que há ainda muito por fazer, admite que as críticas ao estado das infraestruturas urbanas são legítimas, mas explica que foram consequência de uma estratégia definida: “Começámos pela base — pela estabilização financeira, reorganização dos serviços e preparação técnica de projetos. Se fizéssemos o contrário, estaríamos hoje a pintar paredes com as fundações a ceder.” Garante que o próximo mandato será totalmente dedicado à execução de obras e à melhoria concreta da qualidade de vida dos espinhenses. “Agora que a estrutura está sólida, é tempo de atacar de frente os problemas do dia a dia”, afirma.
Entre as prioridades para os próximos quatro anos, Maria Manuel Cruz destaca a habitação acessível, a requalificação urbana, a mobilidade sustentável, os investimentos em saúde, cultura, desporto e juventude, bem como o reforço da limpeza urbana e da segurança. Vários projetos estruturantes estão já desenhados e financiados, como a reabilitação das piscinas, do Multimeios e do estádio municipal, além de obras em centros de saúde, escolas e na zona costeira. Está também prevista a implementação de novas soluções de policiamento de proximidade.
“Atravessámos uma tempestade. Estabilizámos o barco. Reconstruímos a confiança. Agora, é tempo de navegar com força e clareza para o futuro. É por Espinho — com independência, com verdade e com todos os que querem fazer parte desta mudança”, conclui.
Situação no PS e PSD ainda indefinida
A candidatura independente de Maria Manuel Cruz surge numa altura em que o candidato oficial do PS, Luís Canelas, já está no terreno, apesar de continuar pendente a decisão sobre o recurso apresentado à Comissão Nacional de Jurisdição do PS, que contesta a anulação da sua candidatura, decretada pela Comissão Federativa de Jurisdição de Aveiro.
Luís Canelas afirmou publicamente que manterá a candidatura, anunciou que o programa eleitoral está em elaboração e já inaugurou a sua sede de campanha. Numa conferência de imprensa, reconheceu que o PS “falhou nos últimos anos” em Espinho e pediu “desculpa” à população.
No PSD, o processo está igualmente longe de ser pacífico. Em 2024, a Comissão Política Concelhia aprovou o nome de Ricardo Sousa, atual presidente da estrutura local, como candidato à Câmara. No entanto, essa escolha não recolhe consenso junto da direção nacional. O nome não é bem aceite entre os apoiantes de Luís Montenegro, e têm surgido outros nomes apontados como potenciais candidatos. Entre eles, destaca-se Salvador Malheiro, ex-presidente da Câmara de Ovar, que foi convidado a encabeçar a lista social-democrata em Espinho, tendo recusado.
Pormenores
Sem confiança
Quando foi conhecida a escolha de Luís Canelas como candidato do PS, Maria Manuel Cruz retirou os pelouros e a confiança política ao seu vice, acusando-o de deslealdade. A Concelhia manifestou o seu apoio a Luís Canelas e a Federação de Aveiro retirou a confiança política a Maria Manuel Cruz.
Resultados em 2021
Nas autárquicas de 2021, PS e PSD discutiram taco a taco a vitória. Os socialistas conseguiram 40,23% dos votos (quatro lugares) e o PSD 37,57% (três lugares). Uma lista independente deverá ter interferência decisiva nas próximas eleições autárquicas.
Percurso
Maria Manuel Cruz nasceu em Espinho há 64 anos e é professora de física e química, com mais de 36 anos ao serviço da escola pública. Foi vereadora na Câmara Municipal de Espinho, eleita pelo Partido Socialista. Ocupou cargos nas áreas da educação, ação social e cultura. É presidente da Câmara Municipal de Espinho desde 2022, tendo assumido funções em contexto de profunda instabilidade autárquica e após a renúncia do então presidente.
