
Laurinda Araújo, vendedora do Bolhão
Artur Machado / Global Imagens
Mercado no La Vie faz este domingo três anos. Vendedoras admitem que "nem foi assim tão mau". Mas anseiam pelo regresso ao histórico mercado do Porto.
Quando foram transferidos para o mercado temporário, no piso -1 do Centro Comercial La Vie, faz hoje três anos, as expectativas eram baixas. Foi com choros e muita angústia que deixaram para trás o "velho Bolhão" e nem a presença do presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, alterou os "sentimentos mais negros". Hoje afirmam que, afinal, o tempo passado na galeria subterrânea "nem foi assim tão mau". De maio de 2018, quando foi inaugurado, até março deste ano, passaram pelo mercado temporário do Bolhão 4,6 milhões de visitantes, correspondente a uma média de cerca de 5500 pessoas por dia.
Após meses de confinamento, muitos comerciantes voltam a abrir as bancas. Há animação e o rebuliço característico desta área comercial. Contam-se os dias "para o regresso a casa" - a inauguração do renovado Bolhão está prevista para o último trimestre deste ano.
Nem foi assim tão mau
Amélia Babo não pára, sai da padaria para falar com fornecedores e volta ao balcão para atender os clientes. "Pensei que ia ser bem pior, mas analisando bem as coisas, nem foi assim tão mau", afirma a vendedora de pão, conhecida pelas "malandrices" de forma fálica e em pão de regueifa que voltou a vender para festas de despedida de solteira. Em tempos, nas montras da barraca de madeira do velho mercado, deliciavam as objetivas das máquinas fotográficas.
Amélia sabe que não voltará para a barraca que herdou da mãe Madalena que dá nome à padaria e que foi demolida na requalificação do mercado. "Mas vamos ficar em boas condições. O mercado como estava não oferecia condições de segurança e higiene", defende. Tem é pena dos muitos clientes que entretanto perdeu. "Uma comandita de velhinhos que a covid levou!", explica. Mas outros novos foram aparecendo.
Essa também é a opinião da peixeira Sara: "O negócio esteve sempre ótimo, só estamos agora a vender menos por causa do desconfinamento. Há mais oferta lá fora e já não aparece tanta gente". A vizinha de banca que vende peixe congelado, Lúcia Fernandes, confirma. "Quando viemos para aqui fiquei tão triste! Isto era um cativeiro para mim, que sou um pássaro do ar livre!", diz Sara Araújo, enquanto amanha sardinha pequena.
Mulheres em maioria
"Mas tem sido bom", acrescenta Lúcia. E as peixeiras recordam o facto de não pagarem água nem luz e de ainda receberem da Autarquia 520 euros/mês por terem sido deslocadas e perderem clientes habituais. Sabem que as peixeiras no renovado Bolhão vão ficar todas juntas, logo abaixo das escadas, após a entrada da Rua de Fernandes Tomás.
Também as vendedoras de frutas e hortaliças ficarão no rés do chão, ao contrário do que acontecia. "Parece que vamos ficar no meio, em bancas em forma de U", esclarece Laurinda Araújo. As mulheres estão em maioria nas bancas e quase todas nasceram no Bolhão. "Fazíamos a escola e vínhamos para aqui", diz Laurinda, que com a irmã Arminda veio ainda criança de Barcelos para o Porto para servir em casa de uma vendedora no mercado. Quando ela faleceu, ficaram com a banca. Isto há mais de 50 anos.
Mas nem todos retornarão ao Bolhão assim que ele reabrir após as obras.
Ernestina Barros, agora com 85 anos, é a cara da manteigaria do Bolhão desde 1955. Explica que sabe que com a intervenção "o mercado está muito bonito", mas considera que "são muitos os anos de trabalho e que esta é a altura de descansar".
