Visita de ministros e comissário europeu na Marinha Grande não chegou à devastada Praia da Vieira

Foto: Carlos Barroso/Lusa
Três ministros, uma ex-ministra e um comissário europeu estiveram, esta sexta-feira, na Marinha Grande a ver os danos causados pela depressão Kristin, numa visita que acabou centrada nos danos das indústrias e deixou de fora a devastada Praia da Vieira.
A visita de António Leitão Amaro, ministro da Presidência, de Maria da Graça Carvalho, ministra do Ambiente e Energia, e do comissário europeu da Energia e Habitação, Dan Jørgensen, ao concelho da Marinha Grande incluía passagens pelo Centro Empresarial, na Zona Industrial, pelo Parque Municipal de Exposições, pela Praia da Vieira e por uma zona próxima de um cabo de alta tensão.
E tensão foi o que se sentiu logo à chegada do ministro que, assim que saiu do carro, ouvir o grito de um morador: "Vai mas é limpar estradas". Leitão Amaro ouviu e seguiu para uma reunião na Câmara, à porta da qual dezenas de pessoas faziam fila para pedir informações, apoios ou carregar os telemóveis por períodos de dez minutos.
À comitiva inicial foi acrescentada a presença da ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, natural da Marinha Grande, que "fez questão de juntar-se à visita", guiada pelo presidente da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, José Manuel Moura.

Na zona industrial, onde são bem patentes os danos sofridos por praticamente todas as empresas, António Leitão Amaro e Maria da Graça Carvalho explicaram ao comissário europeu como a depressão Kristin 'entrou' no distrito de Leiria e, durante três horas de fortes ventos, deixou um rasto de destruição no concelho onde destroços de empresas, telhas levantadas de casas, vidros, sinais de trânsito, painéis publicitários e arvores arrancadas e ramos partidos são visíveis por toda a parte.
Junto ao Parque Municipal de Exposições, completamente destruído, Leitão Amaro reconheceu que "a dimensão dos prejuízos é brutal" e Maria da Graça Carvalho sublinhou que "já foi feito um trabalho grande".
Mas, entre os populares que se concentravam em frente à Câmara, sedentos de "um risquinho de rede" que lhes permita comunicar com os familiares, o sentimento era de que "é ainda muito mais aquilo que há para fazer".
Na fila para informações, perguntava-se de tudo: "chove-me em casa, onde arranjo telhas?", "já não tenho água, como faço?", "tenho uma criança pequena, onde a deixo para trabalhar?".
As respostas eram dadas lá dentro, onde hoje os jornalistas não tiveram direito de entrar.

Mas, como diz o povo, "uma desgraça nunca vem só" e logo ali ao lado havia também hoje quem varresse destroços de vidros partidos, não pelo vento, mas porque "durante a noite, o café foi assaltado para roubarem a máquina do tabaco", como contou a responsável pelo estabelecimento.
Entretanto, à comitiva ministerial a ministra Maria da Graça Carvalho lembrava que já foram distribuídos 200 geradores e garantia que ainda há mais disponíveis.
Por sua vez, responsáveis pela E-Redes asseguravam que tudo está a ser feito por pôr de pé os postes de média e alta tensão que a tempestade deitou abaixo e para repor a energia no distrito de Leiria, onde há cerca de 260 mil clientes afetados.
Contudo, apesar do esforço para que "pelo menos os centros das cidades" tenham eletricidade, como já acontece na Marinha Grande, repor o abastecimento a toda a população "vai demorar", admitiram.

A visita dos ministros à Marinha Grande demorou também mais do que o previsto e a passagem pela Praia da Vieira, uma das localidades mais afetadas pela passagem da depressão Kristin, acabou por cair, com a comitiva a seguir apressada para o Hospital de Leiria e o comissário europeu a regressar a Lisboa.
Sem luz, nem água, com casas, escolas, lojas, restaurantes e bares destruídos, na quinta-feira a população da Praia da Vieira tinha também outra queixa: o isolamento que sentia, sem meios para comunicar com o exterior e sem saber o que se passava fora da localidade.
À Lusa, nesse dia, moradores e comerciantes lamentaram principalmente não verem na localidade "ninguém da Câmara, da proteção Civil ou do Governo".
A passagem da depressão Kristin por Portugal continental, na quarta-feira, deixou um rasto de destruição, causando pelo menos cinco mortos, segundo a Proteção Civil, vários feridos e desalojados. A Câmara da Marinha Grande contabiliza ainda uma outra vítima mortal no concelho. Quedas de árvores e de estruturas, corte ou o condicionamento de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações foram as principais consequências materiais do temporal. Leiria, por onde a depressão entrou no território, Coimbra e Santarém são os distritos que registam mais estragos. O Governo decretou situação de calamidade entre as 0 horas de quarta-feira até às 23.59 horas de dia 1 de fevereiro para cerca de 60 municípios, número que pode aumentar.
