
Sem-abrigo utiliza ramos de árvore como guarda-fatos
Igor Martins / Global Imagens
João foi despejado há dois anos. Segurança Social e Câmara dizem que recusa alternativas ao alojamento.
De improviso, João montou um abrigo com tendas, carpetes e guarda-sóis. O homem, de 62 anos, vive há dois anos na rua e atualmente ocupa um descampado no parque de estacionamento em frente ao Pavilhão das Pedras, em Gaia. O aparato não deixa ninguém indiferente, designadamente os condutores que se dirigem ao espaço para receber a vacina contra a covid-19. A Segurança Social e a Câmara de Gaia garantem ter apresentado várias soluções de alojamento, mas nenhuma delas foi aceite. A Autarquia acrescenta que "o munícipe em questão não tem pedido de habitação [social] ativo".
O homem diz que escolheu aquele local por ter sido despejado, em 2019, do apartamento onde vivia com a mãe, a poucos metros dali, para onde foi depois do divórcio. Com a morte da mãe, a dificuldade em encontrar emprego a seguir ao fecho da empresa têxtil onde trabalhava e o fim do subsídio de desemprego, resta-lhe o rendimento social de inserção: 189 euros.
João diz ter feito, perante a falta de rendimentos, um acordo com o senhorio, que lhe terá perdoado a renda (de 50 euros) até conseguir encontrar emprego. "Quando me disseram que [o senhorio] tinha morrido, levei as mãos à cabeça", acrescenta.
Com a morte do proprietário, em 2014, o prédio foi entregue a um sobrinho. Pedro Afonso confirmou ao JN o entendimento entre os dois, mas notou que João acabou por "não cumprir o acordo nem o contrato", que estava em nome da mãe, e que esteve "anos sem pagar" a renda. Por sua vez, João afirma que o despejo, decidido pelo tribunal, "é inconstitucional".
Cinco anos e processo
Pedro Afonso explicou ainda que o processo de despejo "demorou cinco anos" e que, ao longo desse tempo, "foram dadas todas as hipóteses" ao inquilino. O atual proprietário disse ainda que "só para limpar o lixo" que estava no apartamento T3 - e que precisa de obras -, gastou dois mil euros.
O sem-abrigo, que partilha o espaço com uma companheira, diz não conseguir suportar os custos das rendas atuais. A Segurança Social assegura que encaminhou o casal para "a procura de uma alternativa habitacional com apoio económico", que não foi aceite.
Propostas
Segurança Social
A "habitação institucional" proposta pela Segurança Social não foi aceite, diz quela instituição, referindo que o casal desistiu do apoio de "refeições, serviço de banhos e tratamento de roupa".
Câmara de Gaia
A Autarquia diz que "já disponibilizou um conjunto de respostas, nomeadamente quartos para alugar (dentro do rendimento disponível)", mas que foram recusadas.
