
Pedro Correia/Global Imagens
A cidade mudou e com ela a mobilidade dos portuenses. As alterações no urbanismo, nas vias de comunicação, nos estilos de vida e no poder de compra criaram um novo padrão na forma como as pessoas se deslocam no Porto. A pressão turística tem também efeitos na mobilidade e os taxistas são os principais conhecedores desta nova realidade.
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Algumas zonas onde o serviço de táxi era uma constante há 15 ou 20 anos, hoje são espaços vazios. É o caso da Rua de S. Roque da Lameira, em Campanhã, e da Foz Velha. Duas zonas muito diferentes, mas com problemas semelhantes: desertificação e perda de poder de compra.
"Eram as classes sociais menos favorecidas que mais utilizavam o táxi. Toda a gente pensa que é o contrário, que são as pessoas com mais poder de compra, mas isso é um mito", diz Agostinho Seixas, presidente da Direção da Raditáxis, cooperativa criada há 58 anos.
Muitas famílias não tinham automóvel. "Um casal com dois filhos, se tinha um carro, hoje tem dois ou três", acrescenta.
Mobilidade é liberdade
"Cada pessoa é um ser móvel e quer ser livre e autónoma. A mobilidade atingiu o seu exponencial máximo como forma inequívoca de liberdade", explica Paula Teles, especialista em transportes e consultora de várias autarquias na área da mobilidade.
Os padrões "alteraram-se imenso nos últimos tempos". Às clássicas deslocações e movimentos casa- -trabalho casa-escola juntaram-se outras que integram as compras, o lazer, as tarefas domésticas e pessoais. E, como refere Paula Teles, "se os estilos de vida mudaram, estes mudaram o pulsar da cidade, que, neste caso, se tornou mais acelerado, mais dinâmico e com uma capacidade enorme de intermodalidades".
S. Roque da Lameira - Menos pessoas e trânsito desviado
Abílio Gomes começou a ser taxista há 40 anos, numa altura em que "o táxi era utilizado por toda a gente". A Rua de S. Roque da Lameira, na zona oriental do Porto, fervilhava de pessoas. Era das artérias mais populosas da cidade e ali se encontram grande parte da indústria e o mercado abastecedor que atraía gente de outras paragens.
"A oferta de transportes públicos não era como hoje. Havia menos e os autocarros passavam aqui já cheios. As pessoas levantavam o braço e os táxis circulavam constantemente", recorda o taxista. As fábricas fecharam, rasgou-se a Via de Cintura Interna (VCI), depois a Avenida 25 de Abril e o trânsito passou a ser desviado. "Esta rua era a principal entrada de quem vinha de Gondomar, Valongo Penafiel e de Trás-os-Montes. Tinha dois sentidos e eram milhares de pessoas por aqui. A rua era uma alegria", conta Rosa Ferraz, que tem no local uma mercearia.
Ali o tema é discutido. Alexandre Gonçalves fala dos que morreram e dos que foram morar para outras bandas. Albertina Carvalho tem outro raciocínio: "Mudam-se os tempos e as coisas mudam também. O progresso traz muitas vantagens, mas também desvantagens".
Ao volante do carro 430 da Raditáxis, Abílio Gomes fala que foi a partir da década de 90 que tudo se alterou: "Os bancos começaram a conceder empréstimos e as pessoas foram comprar casa noutros locais e passaram a ter carro".
O negócio ainda andou bem nas zonas onde se encontram os bairros sociais devido ao rendimento social de inserção. "Quando recebiam a carta com o RSI, a primeira coisa que faziam era chamar um táxi para o ir levantar aos correios", diz Abílio. Depois, "com a troika vieram os cortes".
Artérias de muito serviço, além de S. Roque, como a Formosa, Bonfim e zonas como a Areosa ou Aldoar também deixaram de ser as mais procuradas pelos taxistas.
Foz Velha - Habitação cara afasta os jovens
Com 60 anos, Abílio tem a mesma perceção da falta de clientes quando circula pela Foz. Pela Praça do Império, em direção à margem do rio Douro, Abílio relembra os muitos clientes que ali tinha. "Gente com posses, que sempre teve carro, mas que utilizava muito o serviço de táxi para ir às compras, para se deslocar ao aeroporto, à estação de comboios ou uma consulta médica", exemplifica.
Com um estabelecimento de mercearia na Rua de Montebelo, Artur Carvalho concorda com o taxista. "Só na Rua do Padre Luís Cabral havia quatro padarias e mercearias havia três. Hoje não existe nada porque há pouca gente. As pessoas foram morrendo, outros saíram e as casas estão abandonadas. Os casais jovens não podem comprar aqui casa porque é tudo muito caro. Por uma ruína pedem 380 mil euros", diz o comerciante.
Baixa - Turismo veio trazer novo fôlego
"É no centro que agora temos mais serviços porque há mais hotéis e muitos turistas. Os portuenses usam mais o metro. É uma nova realidade e temos de nos adaptar", reconhece Abílio Gomes.
"No futuro próximo, a mobilidade vai mudar totalmente. A urgência de investirmos nas metas da descarbonizacão e a necessidade de humanização das cidades vão exigir novos transportes", considera Paula Teles. De acordo com a especialista e professora universitária, a aposta passará pela partilha e por "transportes mais amigos do planeta e mais inclusivos".
