Refugiados

Catarina Furtado: "O voluntariado traz-me paz e inquietação"

Catarina Furtado: "O voluntariado traz-me paz e inquietação"

A série "Príncipes do Nada" está de regresso para a quinta temporada na RTP e a apresentadora conta, em entrevista, as histórias mais dramáticas que vivenciou perto dos refugiados.

É na associação Corações com Coroa, em Belém, com vista sobre o Tejo, que Catarina Furtado se sente em casa para falar sobre a quinta temporada do "Príncipes do Nada", a série sobre refugiados da RTP que já a levou a dar a volta ao mundo e que, agora, nos transporta à Grécia, Líbano, Bangladesh, Uganda e Colômbia.

O programa da também Embaixadora da Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População tem dez episódios e estreia-se já no dia 9 de junho, às 21 horas, na RTP1. Os "Príncipes do Nada" nasceram há 14 anos para mostrar a realidade dos países em desenvolvimento e daqueles que tiveram catástrofes naturais, como a Indonésia com o tsunami ou o Haiti com o terramoto.

O foco está na realidade e na denúncia das violações dos direitos humanos e das más condições em que as pessoas vivem, mas, ao mesmo tempo, naquilo que está a ser feito no terreno quer por voluntários individuais, quer por Organizações Não Governamentais (ONG's) ou das Nações Unidas.

"A minha vontade e a do Ricardo, que é co-autor do formato, foi mostrar o que está a acontecer, mas que seria muito pior se estas ONG's não estivessem no terreno e se não houvesse um investimento sério nestas áreas da saúde, educação, igualdade de género ou desenvolvimento. Não é só mostrar o que está mal. É fazê-lo, mas mostrar que há maneiras, se existir vontade política e financeira, para resolver muitas das situações que se perpetuam ao longo dos anos e que fazem com que sejam sempre os mais vulneráveis a ficar no fosso de todas as desigualdades", começa por referir a comunicadora da RTP.

"Sentimos a necessidade que esta série fosse sobre uma temática que devia envergonhar toda a gente e houve um falhanço coletivo, também da Europa. A série é dedicada às pessoas que estão a ser deixadas para trás, nomeadamente os refugiados: são 70 milhões, metade são crianças, é terrível", acrescenta Catarina Furtado. "A grande maioria não tem neste momento acesso a escolaridade, porque estão em campos onde não têm estatuto de refugiado que lhes permita depois entrar na escola pública de cada país. Os processos de requerimento de asilo são morosos, os de recolocação também, são anos de vida que se perdem nos adultos mas, sobretudo, nas crianças".

A apresentadora da RTP reforça, em seguida, que há uma perceção errada que os refugiados são terroristas. "As pessoas não ficam diferentes só porque são budistas, muçulmanas ou católicas. Ficam diferentes se são terroristas, e não estamos a falar deles. Estes milhares de pessoas não são terroristas. Encontram-se, provavelmente, alguns, mas não são estes refugiados que atravessaram o Mediterrâneo e viram morrer as suas famílias. Tive pessoas que me contaram que viram os filhos morrerem afogados em alto mar. Estes não são terroristas. Os terroristas têm recursos para não se meterem num bote de borracha. Uns eram professores, outros arquitetos, outros homens do campo. Jovens que estavam na universidade na Síria e que tiveram de fugir..."

Nesta nova série, Catarina Furtado destaca o modelo de integração do Uganda. "É tido como grande modelo de acolhimento porque os refugiados que vêm do Sudão do Sul e da República Democrática do Congo são integrados na sociedade, os miúdos podem ir para a escola e os refugiados trabalhar, porque lhes é dado um pedaço de terra".

Mas nem tudo são bons exemplos: "Na Colômbia estamos a falar da problemática dos venezuelanos, que é uma vergonha! Vi pessoas que não têm capacidade com o seu ordenado para dar um pacote de arroz aos seus filhos. No Líbano vi os refugiados da Síria e vi um país que tem o maior número de refugiados 'per capita', está atolado pelas costuras e tem Governo que não quer fazer inclusão efetiva".

E chegamos ao Velho Continente: "Na Europa vive-se a maior das vergonhas, porque com estes acordos quer com a Turquia ou a Líbia as pessoas pagam a traficantes para sair dos seus países e chegam ali e se os guardas costeiros os apanham em alto mal, toca a levá-los para a Líbia, onde há tráfico humano. Isto tem a ver com burocracias que não são resolvidas por falta de vontade política e económica".

Portugal não está incluído na "vergonha": "Somos um país com inclusão e é preocupante perdermos valores que nos demarcam e orgulham. Podíamos ter acolhido muito mais pessoas, vamos agora receber crianças desacompanhadas. Mas os refugiados não têm noção que Portugal não é um país que acolhe, lembram-se mais da Alemanha. A nossa política devia ser mais compassiva, não temos comunidades sírias nem afegãs e eles querem ser colocados numa comunidade com a qual se identificam. Não pretendem ser parasitas nem viver de apoios sociais, só querem oportunidades. Os migrantes contribuíram para que em 2007, por exemplo, as repartições sociais tenham sido inéditas em termos de saldo financeiro, contribuíram com 515 milhões de euros para os cofres do Estado. Diz-se que abusam das nossas respostas sociais e não é verdade. São essas "fake news" que prejudicam a inclusão."

Catarina entende que a solução para a crise humanitária pode estar mais perto do que se imagina: "Temos espaço para mais refugiados, se forem espalhados por mais países, que podiam ter uma quota. Não estamos assim tão longe para uma resposta a esta crise humanitária"..

Durante a gravação desta nova série, a Covid-19 ainda não estava espalhada pelo mundo. "Tenho relatos que mais uma vez estas pessoas vão sofrer, porque são as mais vulneráveis. Em Lesbos, na Grécia, pede-se higiene, mas como se há uma fonte de água para 1500 pessoas e uma casa de banho para 200? Felizmente as coisas estão mais ou menos controladas porque as pessoas não saíram dali. Mas se chega um voluntário humanitário infetado, aquilo pode ser um fósforo..."

Num campo de refugiados "não se tem um teto, nem comida", mas "há um telemóvel": "É o que os liga ao mundo. Todos os poucos recursos que têm é para ter um telemóvel: porque o seu processo vem por sms, depois querem saber se os pais morreram e, finalmente, conhecer a atualidade, portanto eles sabem muito bem o que é a Covid-19".

A profissional recorda as histórias mais violentas. "Tive maridos a dizer que viram as mulheres a serem violadas à frente deles pelas tropas de Myanmar, cortaram-lhes os pescoço e atiraram-lhe os filhos para as fogueiras. Não tenho descrição para isto..."

Na rua, há quem pergunte sobre "os nossos": "Dizem-me: "Catarina está a lutar por essas pessoas e nós também temos pobres". Mas o nosso coração tem de esticar e a promoção dos direitos humanos deve ser extensível a todas as pessoas. Aqui na Corações com Coroa demos 28 bolsas de estudo e damos atendimento gratuito todos os dias na área da psicologia, assistência social e apoio jurídico. Damos refeições a famílias monoparentais. Quando voltarem às escolas continuaremos com o projeto contra a violência no namoro".

A consciência cívica de Catarina Furtado vem "de miúda". "Sempre fui muito preocupada com os outros e o meu pai (o jornalista Joaquim Furtado) sempre me trouxe as histórias das desigualdades no mundo inteiro. A minha mãe é professora no ensino social e mostrou-me que a diferença não existe e que pode ser uma oportunidade. Comecei a fazer voluntário aos nove anos e é o que me dá paz, ainda que inquietação. Foi para isso que nasci figura pública. Enquanto comunicadora não tenho dúvida nenhuma que esta é a razão pela qual estou na comunicação.".

Em casa, o marido, o ator João Reis, os dois filhos e os dois enteados já estão habituados às viagens solidárias de Catarina Furtado... que até já tem sucessão: "A Maria tem 23 anos e é uma voluntária profissional na área dos refugiados. É uma ativista dos direitos humanos. Está garantido que tenho ali uma continuidade, não que isso seja uma pressão para ela! Lá em casa não há como eles não estarem informados destas coisas. Os meus filhos não têm que seguir a área social, mas têm de ter noção da pegada e da responsabilidade", remata.

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