Uma vida que foi sinónimo de uma carreira impoluta ao serviço da causa pública e dos cidadãos. A síntese do tom das palavras de pesar pela morte de Nascimento Rodrigues, aos 69 anos. De Balsemão ao PCP e ao BE, todos realçaram a integridade do jurista.
O presidente da República, Cavaco Silva, destacou a "elevada estatura moral", a "dedicação à causa pública e os "relevantes serviços" prestados ao país pelo "eminente jurista" "designadamente em defesa dos valores da democracia e dos direitos fundamentais dos cidadãos".
Henrique Nascimento Rodrigues, que morreu na noite de domingo, nasceu em Angola a 3 de Agosto de 1940 e licenciou-se em Direito, em Lisboa. Deixa viúva, cinco filhos e treze netos. Era militante do PSD, conotado com a ala esquerda, e foi deputado e ministro do Trabalho do Governo de Pinto Balsemão, em 1981.
As questões das relações laborais e da concertação social estiveram sempre presentes no percurso profissional de Nascimento Rodrigues, que começou por prestar assessoria jurídica a sindicatos e empresas públicas e privadas, tendo vindo a tornar-se o primeiro português a ser eleito para a presidência da Conferência Internacional do Trabalho.
Exerceu cargos de administração em empresas públicas e privadas e em 1992 foi eleito pelo Parlamento para presidente do recém criado Conselho Económico e Social, onde permaneceu até 1996. Além de ter sido conselheiro de Estado, recebeu a Ordem de Mérito (Grande Oficial) em 1994, a Légion d´Honneur (Officier) em 1995 e a Grã Cruz da Ordem Militar de Cristo em 2008.
A espera antes da renúncia
Em 2000 foi pela primeira eleito provedor de Justiça. Cessou funções por renúncia ao cargo, a 3 de Junho de 2009, quase um ano depois de ter terminado o seu segundo mandato e sem que tivesse ainda sido substituído devido à falta de acordo entre o PS e PSD em relação à escolha do nome do seu sucessor. Uma longa espera, quase em silêncio.
O único sinal de impaciência foi dado a 19 de Março, quando, já doente, concedeu uma entrevista à revista Visão. Desagradado por não poder abandonar o cargo, Nascimento Rodrigues invocou Os Vampiros, de Zeca Afonso para dizer: "O PS já ocupa todos os altos cargos públicos, faz lembrar o Zeca: 'eles comem tudo'".
Ontem, os socialistas Francisco Assis eVítor Ramalho fizeram questão de elogiar "o exemplo de rigor e rectidão" e a competência e seriedade do jurista.
Pelo PCP, José Neto destacou o "elevado sentido de serviço aos cidadãos" manifestado pelo ex-provedor de Justiça. Helena Pinto, do BE, elogiou o "democrata empenhado" e o "assinalável desempenho" como provedor.
O CDS-PP recordou o empenhamento de Nascimento Rodrigues "na protecção dos cidadãos e em especial dos mais desfavorecidos".
Em nome do PSD, o novo líder Pedro Passos Coelho garantiu que o partido "não esquecerá o legado humanista que deixou". Também os TSD recordaram o "pai do sindicalismo social-democrata".
O funeral realiza-se, hoje, às 11 horas, após a celebração de missa de corpo presente, na Igreja de Santa Isabel, em Lisboa.
