Peritos em comunicação detetam falta de sintonia e de sentido de equipa no Governo

Vários especialistas de comunicação diagnosticaram as falhas do Governo da maioria PSD/CDS-PP em fazer passar a sua mensagem: não há "sintonia", nem "sincronia", nem sentido de "equipa", faltando ainda "estratégia" e "coordenação" nesta área, nestes dois anos de vida.
Em declarações à Lusa, António Cunha Vaz, João Tocha e Salvador da Cunha - responsáveis de três conhecidas agências de consultoria - mostraram-se unânimes na avaliação negativa da comunicação do Governo, condenando a contratação de ex-jornalistas para assessores em vez de profissionais formados e com perfil específico.
"O ministro Poiares Maduro (Adjunto e do Desenvolvimento Regional) disse a frase mais acertada em matéria de comunicação: 'Falta saber passar a mensagem'. Tem 100 por cento de razão. Quem faz cartazes, não sabe fazer passar mensagens e quem sabe fazer passar mensagens não tem de saber, necessariamente, fazer cartazes", disse Cunha Vaz.
O presidente da Cunha Vaz e Associados, empresa que tem em carteira 10 candidaturas às próximas autárquicas, é responsável por seis das grandes empresas do PSI-20 e tem experiência de atos eleitorais em Portugal, Angola, Cabo Verde e Guiné-Bissau, considerou que "o Governo tem feito mais coisas positivas do que aquelas que tem conseguido fazer passar", exemplificando com o supercrédito fiscal, ao qual faltou "explicação cabal, com gráficos e exemplos", para mostrar "a bondade da medida".
"Não há nem sintonia nem sincronia. Não podemos ter uma coligação a dizer que está coesa e depois responsáveis de um dos partidos a dizer que se tal medida for adotada sai do Governo", condenou.
João Tocha, diretor-geral da F5C - outra empresa de consultoria de comunicação que trabalhou com os Governos de Sócrates, o Governo Regional dos Açores de Carlos César, mas também com Passos Coelho e na ascensão a líder do PS de António José Seguro - afirmou que não há "um eixo de comunicação".
"Nem há neste, nem no anterior Governo. Nem sei se houve algum que tivesse uma política de comunicação articulada. Quando as coisas estão bem, vão indo, mas quando há tensões ou roturas vê-se logo que as coisas não batem certo. Este Governo não tem uma política de comunicação de equipa, coletiva", criticou.
Para Tocha, "o problema não é haver uma ou muitas vozes" e "o grande desafio é quando começa um Governo, quando há clima para juntar as pessoas, traçar princípios e regras".
"Quando não é feito este enquadramento corremos o risco de haver vozes dissonantes", continuou.
Elogiando o facto de Passos Coelho não se ter "plastificado" e de manter "capital de confiança" por se conservar "simples e genuíno", o especialista defende uma "mudança de mentalidade no recrutamento nos assessores, além da sensibilidade dos políticos" porque "muitas vezes são jornalistas que saem detrás de um computador, onde fazem notícias e até se esquecem do que precisavam e tratam mal colegas".
"A primeira coisa que o Governo fez foi contratar um conjunto de ex-jornalistas para assessores de comunicação, que é uma coisa completamente anacrónica, que acontecia nos anos de 1970/80 e que deixou de acontecer porque a comunicação se profissionalizou.", concordou Salvador da Cunha, diretor-executivo do Grupo Lift.
O responsável por uma das três maiores agências de comunicação portuguesas, que dá consultoria a diversas multinacionais, desde a informática à aviação, adianta que o Executivo PSD/CDS-PP está "muito preocupado em governar o país e muito pouco preocupado em comunicar essa governação".
"O que tem faltado é estratégia de comunicação e integração de ferramentas de comunicação. Falta estratégia, integração e coordenação", afirmou.
Salvador da Cunha aprova "o espaço para a dualidade (na coligação), mas ao nível dos partidos", pois "o Governo tem de comunicar a uma só voz e de forma coordenada", pôr de lado o "spinning" (manipulação da opinião pública) e ter uma comunicação "orgânica, para as pessoas perceberem o que está a ser feito".
