
Testes de exposição solar, submetendo o material a radiações térmicas, permitem prever as alterações que poderá sofrer quando estiver em órbita
David Tiago / Global Imagens
Avaliação do comportamento do equipamento no espaço está a ser feita por engenheiros do Inegi. Estrutura desdobrável mede seis metros e custa meio milhão de euros.
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Está nas mãos de engenheiros portugueses a testagem do protótipo de um dos dois elementos que vão integrar o primeiro satélite 100% europeu. Chama-se LEA (Large European Antenna) e é a primeira vez que um equipamento do género, desde os materiais à engenharia, não precisa de subcontratar serviços a países fora da Europa. O lançamento está previsto para 2026.
É no Porto, no Instituto de Ciência e Inovação em Engenharia Mecânica e Engenharia Industrial (Inegi), que está a ser avaliado o comportamento em órbita do braço do satélite. Os testes começaram há uma semana e vão prolongar-se até sexta-feira.
A estrutura é desdobrável, custa meio milhão de euros, pesa 42 quilos e mede cerca de seis metros. O satélite, no total, pesará 100 quilos. "Nós testamos o hardware antes de ele voar, com questões de precisão e exposição solar", explica Ricardo Lopes, um dos engenheiros mecânicos que fazem parte da equipa do Inegi.
O objetivo é perceber se o equipamento dobra de acordo com o expectável. Isto porque o satélite, quando é lançado para o espaço, viaja acomodado numa espécie de caixa e só depois de entrar no espaço é que a estrutura se organiza como o pretendido. Prevê-se que o processo de abertura demore cerca de 40 minutos, depois de o satélite ter entrado em órbita e localizar-se nas coordenadas previstas.
Independência europeia
O projeto poderá dar total independência à Europa no que toca à observação da Terra, telecomunicações e até defesa. "Este conjunto permite obter dados científicos para observação de marés e de glaciares, por exemplo. Permite obter todos os dados que a Terra emite", esclarece Ricardo Lopes, explicando que essa análise permitiria "prever e monitorizar eventos no nosso clima".
Mas não só. A estrutura que está a ser testada pelo Inegi poderia, noutras circunstâncias, servir antenas ou refletores para telecomunicações. Ou seja, "se funcionar tudo bem, abre todas as portas da Europa para se tornar independente nas telecomunicações e defesa, não precisando de subcontratar serviços aos Estados Unidos", sublinha o engenheiro mecânico.
"Sentimos a pressão, sem dúvida alguma. Cada vez que avançamos para mais perto da missão, o rigor escala exponencialmente. Nem nós estávamos à espera de tanta documentação, verificações, inspeções e testes", reconhece.
As primeiras provas, de abertura e repetibilidade, serviram para perceber se o braço "bate sempre no mesmo ponto". Decorrem agora os testes de exposição solar - distorção termoelástica.
Em órbita, as temperaturas tornam-se muito mais intensas, tanto ao sol como em sombra, o que vai provocar, inevitavelmente, alterações no material.
"Estas contrações e expansões entre os 100 graus negativos e os 160 graus criam certos desvios no material, que encolhe ou expande. Estes gradientes térmicos criam desvios no metal e no carbono - que compõem o equipamento -, que têm de ser contabilizados para medir a possibilidade de correção", explica Ricardo Lopes. Estas possíveis deformações são previstas através de emissores térmicos que criam a exposição solar que o equipamento vai receber no espaço.
A participação do Inegi neste projeto é feita ao lado de 21 parceiros, de seis países europeus, que formam o consórcio WeLEA. A iniciativa é do programa de investigação e inovação da União Europeia, Horizonte 2020, com uma verba de 100 milhões de euros.
Diâmetro
A arquitetura do satélite permite ao refletor atingir um diâmetro de entre cinco e 20 metros. O objetivo é, através das radiações emitidas pela Terra, obter dados de observação do planeta.
Países parceiros
O consórcio europeu WeLEA, responsável pelo desenvolvimento do satélite, reúne seis países: Alemanha, Portugal, Espanha, Dinamarca e Suécia.
Empresas
O líder do consórcio, que reúne 21 empresas e instituições, é a empresa alemã HPS-High Performance Space Structure Systems GmbH. Foi fundada em 1990.
