
Fotos: Ivete Carneiro
É do trenó puxado por 11 cães, voando sobre gelo que enclausura bolhas de ar, que se apreende a liberdade de um povo. Os gronelandeses são orgulhosamente donos da Gronelândia, porque vivem nela e na sua inclemência desde tempos imemoriais e contra todas as probabilidades. Celebram a luz, celebram o café, caçam porque precisam de comer. E dispensam a loucura alheia.
Aputsiaq Gabrielsen sai do carro com as faces já rosadas ainda o frio da viagem não se fez sentir. Apenas aquele gelo cortante de um meio de tarde gronelandês num cais de um porto onde se misturam traineiras e pequenos barcos de pesca encalhados no mar congelado, algumas embarcações adaptadas ao turismo e o gigante vermelho da Royal Arctic Line que trouxe as bananas por que todos ansiavam em Ilulissat.
O ar transporta o omnipresente odor a alabote, aqui é halibut, saído da fábrica de peixe vizinha, de onde, àquela hora, despegam operárias risonhas, locais e imigrantes das Filipinas. Seguem por um trilho invisível encosta acima, ignorando heroicamente a estrada por onde descêramos - agora percebo por que me estendi gloriosamente no alcatrão gelado, não era suposto caminhar por ele...
O jovem de 26 anos é o capitão do barco de 12 lugares que nos vai conduzir até Oqaatsut, um vilarejo que soma umas 30 almas 20 km a norte de Ilulissat, um lugar onde a água se vai buscar a balde, onde a luz é de gerador, onde a casa de madeira escura é igreja e escola e centro social. Um lugar onde se morre e se fica à espera que a família desbrave o gelo e as intempéries para haver um enterro, pode ficar-se uma semana inteira na pequena capela vermelha erguida em cima de uma rocha altaneira, a alma a olhar a encosta do outro lado da aldeia, onde o descanso é eterno, tomara que o chão descongele para o corpo não ser, também ele, perene. Mas isso é o que veremos daqui a 20 km.
Por enquanto, estamos junto à Halibut Greenland a cogitar sobre a disposição do rapaz de sorriso tardio. Já devíamos saber que a doçura dos gronelandeses, sejam inuítes puros ou descendentes de algum sangue "pirata" europeu, está para lá da robustez séria dos seus rostos. Está para lá dessa timidez feita defesa, mais a mais agora que a ilha está a ser acossada pela ganância supremacista de uma superpotência, já não lhe bastava ser parte de um reino europeu herdado do colonialismo.

Aputsiaq é toda essa rejeição a qualquer ímpeto colonizador. Filho de um gronelandês empreendedor e voz ativa na política e neto de um "ricaço" francês que passou o Círculo Polar Ártico com o famoso explorador Paul-Émile Victor para vir aqui engravidar a avó do rapaz, Apustiak lá acaba por se rir, largando o leme para conversar com as mãos.
Mas então, que é feito deles? "Tentámos encontrá-lo há uns anos, em Paris, mas ele não quis saber, é um tipo rico", ia lá querer novas da descendência inuíte, esse povo que come animais. Regressa ao leme e olha o horizonte gelado - o barco vai acelerando e parando, medindo forças com as placas de gelo em que o vento transformou o mar. "E a minha avó... era louca. Álcool, etc., enfim. Morreu no mês passado em Nuuk", a capital onde decidira viver na sua desesperança.
Aceita os pêsames com um encolher de ombros, não tinha ligação com ela. Independência será a palavra que o define. Tem uma filha, também ele, vive em Nuuk com a mãe que não entendeu que Ilulissat era a vida de Aputsiaq, quando se nasce num lugar simples fica-se preso para sempre. E "ilu" significa "casa" - é, de resto, daí que nasce a palavra "igloo".
À Dinamarca, despreza-a como ela despreza a Gronelândia. Ou desprezou. Há histórias do passado que não são histórias passadas e há o presente de quem se sente espoliado. "Os dinamarqueses vêm para aqui fazer dinheiro e levá-lo para a Dinamarca. Eles sabem todos que aqui há riqueza, eles e os americanos. O peixe é pescado, depois tem de ir todo para a Dinamarca e é exportado de lá, como se a Dinamarca fosse produtora de peixe. Nada. Somos nós!"
Caçador como todos num canto do Mundo onde se caça por sobrevivência, explica a lei mais simples da vida: "Os animais olham para uma presa para comer; os homens olham para uma presa e só veem dinheiro". E as ameaças de Donald Trump? "É louco. Não vai acontecer. Ou então... não sei."

A liberdade dos icebergues é o caminho para a morte
Em paz, a embarcação, preparada para quebrar gelo como a maioria delas, contorna uma colina nevada depois de passar entre icebergues. Estamos na Baía de Disko, Qeqertarsuup em gronelandês, no raio onde se despeja a fúria gelada do glaciar mais ativo do Hemisfério Norte, o Sermeq Kujalleq. Só se lhe sobrepõe um glaciar no polo oposto do Planeta. Aqui, as contas são brutais: haverá em média 70 milhões de toneladas de gelo a navegar diariamente por este fiorde, o Kangia, lógica e internacionalmente batizado de Icefjord.
Vistos na calma de um mar parcialmente gelado, não deixam aperceber o gigantismo de que são feitos, na vida e na morte. Um icebergue nasce com um floco de neve e constrói-se ao longo de milhares de anos na calote glaciar, iniciando a sua caminhada de vida nos glaciares, a caminho da água, presos até ao dia em que se soltam e ganham a almejada liberdade. Uma liberdade que é sinónimo de morte. Ao fim de milénios, restam-lhe uns três a quatro anos de vida, três a quatro anos até serem água.
Os mais altos podem atingir os 100 metros de altura visível - sabemos que terão mais 800 escondidos debaixo de água. Números frios. São 15 km cúbicos de volume, a navegar impercetivelmente, a mudar de aspeto todos os dias, muitas vezes a dar cambalhotas na erosão da sua raiz. Há registos de dois icebergues do Sermeq Kujalleq avistados ao largo dos Açores, em 1921 e em 1948. E há a história da morte: crê-se que saiu daqui o icebergue que afundou o Titanic ao largo de Newfoundland, Canadá, na noite de 14 para 15 de abril de 1912.

O absoluto silêncio da paisagem não condiz com toda essa enormidade. O glaciar, de aparência estática quando o apercebemos do pequeno Dash-8 que nos pousou em Ilulissat, outrora referida como Jakobshavn, estica-se por mais de 50 km, com sete quilómetros de largura e mil metros de espessura, avança 40 metros por dia e cospe anualmente 40 a 50 km cúbicos de gelo no fiorde. Nos últimos anos, duplicou a sua velocidade e recuou, primeiro num momento de choque, 12 km num ano, 2002, depois mais 10 km até hoje. Há fontes que lhe atribuem 3% da subida do nível do mar.
Vista de cima, toda esta tragédia é apenas de uma beleza estonteante. Um chão alvo à exaustão, rasgado de veios, glaciares engelhados, a banquisa a brincar aos puzzles e eles, os icebergues que agora contornamos no barco de Aputsiaq.
O fundo do mar fica de repente próximo, pedra lixiviada pelo frio que não permite vegetação, o gelo submerso de um azul perfeito e, lá ao fundo da enseada branca, casas coloridas, poucas, esparsas. Navegámos 20 km à velocidade que o gelo permitiu, pouco mais de 30 minutos. Vinte quilómetros que, há 35 anos, se faziam de trenó puxado por cães, de mota de neve. De carro, pois então, dir-nos-ia Anna, a nossa anfitriã em Ilulissat, que tem 45 anos e lembra-se. Pip, nome pequeno de Pipanuk, jovem nascida na ilha de Disko, lá ao fundo da Baía, a uns 60 km, também nos disse que era memória dos pais vir até Jakobshavn de carro. Sobre o mar.

Oqaatsut, o lugar do silêncio
Aputsiaq atraca a embarcação junto a outra, encostada à banquisa. Oqaatsut, outrora Rodebay, está a uns bons 500 metros, no fim do mar, no princípio da terra. Caminhamos sem medo sobre o gelo, atrás dele. Apesar de termos comprado esta viagem como quem compra um (caríssimo) bilhete de autocarro, a falta de clientes fá-lo ficar para nos levar de volta. E conta-nos a aldeia.
É o silêncio mais surpreendente que já ouvi - não há árvores, nem passarinhos, à falta de movimento os cães também estão calados. Não há vento, não há um som motorizado distante, não há ondas. Os habitantes estão recolhidos nas casas, o hostel (existe) só abre se algum hóspede ligar (há rede móvel), o único restaurante também está fechado, tal como a casa vermelha com o gabinete médico muito raramente aberto. É final de março, os turistas só aparecem no verão, quando a aldeia se enche dos seus emigrantes e chega ao transcendente número de 50 habitantes.
Uma rede de baliza de futebol enterrada na neve marca um campo de jogos para o verão, um triciclo meio descoberto resume os dias das sete crianças que Aputsiaq conta por aqui e a quem sobra neve para escorregar das pequenas colinas feitas de pedra. Não se brinca com os cães. Aqui não é assim e será preciso despir-me de conceitos, não permitir que sejam preconceitos, e assumir que os outros não são melhores nem piores do que nós por terem tradições e hábitos nas antípodas dos meus.
Os cães, aliás, olham-nos indiferentes, não temos gordura de foca nem alabote fresco para lhes dar. O que existe está nos estendais, ao ar frio e seco do Ártico, baleia, bacalhau e alabote prontos a comer. Um homem, o único que vimos, oferece-nos um peixe ressequido. Arranca-se uma lasca de carne amarelada da pele rija e mastiga-se, assim, sem mais aporte. O sal é o que lhe sobra da vida no mar e aqui não temos essa modernidade do molho de soja com que os gronelandeses gostam de o temperar. Mistérios da vida. Talvez tivéssemos se o minimercado estivesse aberto.
Pela janela vejo gelados e roupa colorida de criança. Contrariada, sigo Aputsiaq para a banquisa, a caminho do regresso a Ilulissat. Não quero largar este silêncio que nenhuma fotografia conseguirá alguma vez transmitir. Mas está na hora do shuttle de regresso, o dele, até porque tem de ir assistir ao discurso do pai no Conselho Municipal. Aposto que as notícias da América serão tema, mas nunca chegarei a saber. O gelo adensou-se, o barco progride lentamente e encalha muitas vezes, o ar gelado morde-nos a face e Aputsiaq rende-se à evidência, vai chegar atrasado.

"A Gronelândia pertence aos gronelandeses"
O jovem serve-nos café e chocolate de um termos e fala da filha, mostra fotografias de uma menina linda, fruto da miscigenação que faz dos gronelandeses um povo único, fala do ânimo que lhe tira o sono porque vai vê-la dali a três dias, na Avannaata Qimussersua, a corrida nacional de cães de trenó, em Sisimiut.
É o maior evento cultural da Gronelândia e está nas notícias quanto baste, porque a mulher do vice-presidente dos EUA decidiu repentinamente assistir ao evento, que tem todo o ar de ser a praia dela. Pena é afinal trazer o marido, o conselheiro de segurança nacional e o secretário da Energia atrelados, uma comitiva oficial que não foi convidada nem é desejada pelos gronelandeses - a viagem acabaria cancelada dois dias depois e desviada para a base espacial americana de Pituffik, no norte do norte da ilha.
O topete da administração de Trump está a fazer pela ilha aquilo que décadas de semiautonomia não conseguiram: unir um povo atrás de uma determinação comum, "a Gronelândia pertence aos gronelandeses". A independência até pode esperar, a nação não está pronta, todos o admitem (aliás, livres de referendar a separação da Dinamarca, ainda não o quiseram fazer...), mas a rejeição liminar da troca de um colonizador por outro é comum.
Foi, aliás, a primeira mensagem forte que recebemos à chegada: estava emoldurada na parede da sala de casa de Birita, que foi o nosso lar na capital, Nuuk. Um gigantesco STOP na mão erguida de uma inuíte em traje tradicional e a dita frase do então ainda primeiro-ministro, Múte Bourup Egede, que seria bastas vezes ouvida por estes dias, aqui e lá na capital do Reino da Dinamarca...
Derrotado nas eleições de março, o líder do Inuit Ataqatigiit, uma formação de esquerda pró-independência defensora da competitividade económica e da sustentabilidade ambiental (e, portanto, de uma independência muito a prazo), acabou por juntar-se, mais outro partido, num governo de unidade com o vencedor, Jens-Frederik Nielsen, do partido centrista Demokraatit, tradicionalmente pró-Dinamarca mas em lenta viragem para a independência desejada por todos, como tão bem explicou Aputsiaq.
"Se pudermos fazer negócios diretamente com os EUA, por que motivo havemos de passar por Copenhaga?" Fazer negócios, ter uma relação comercial, entenda-se. De fora da nova gestão gronelandesa ficou apenas o partido populista mais ferozmente pró-independência e defensor, lá está, de uma maior aproximação aos EUA, o Naleraq.

Mas o que há, afinal, neste topo do Mundo tão cobiçado?
Há a maior ilha do Mundo, 2 175 600 km quadrados, mas também o território menos povoado do Planeta, com cerca de 56 mil habitantes. Talvez pelas duras condições de vida, talvez porque só sobre 20% da ilha para viver, à volta da calote glaciar. A Gronelândia é, literalmente, gelo: 1,7 milhões de km quadrados dele, ou, medido de outra forma, 2,9 milhões de km cúbicos ou ainda 2,7 milhões de gigatoneladas e uma altura máxima de 3500 metros.
Debaixo de todos esses números escondem-se 25 dos 34 minérios considerados matérias-primas críticas pela Comissão Europeia, alvo do interesse de todos. A China tentou explorar alguns, sem êxito, quer por obstáculos colocados pelos governos de Nuuk e Copenhaga, quer porque, convenhamos, não é fácil dar conta de semelhante gelo (e do solo gelado por baixo dele).
E a Gronelândia tem, também, uma posição estratégica - tornou-se, sem querer, um pouco "guardiã" da segurança do Ártico, libertado para o trânsito marítimo com o degelo, seja ele tráfego comercial ou militar, sobretudo russo (a China também usa a região como local de treino, mas não junto da ilha). Uma "ameaça", segundo o presidente americano, que até já propôs "comprar" cada gronelandês por dez mil dólares.
O que Trump esquece é que o hino nacional é intitulado "Nunarput", "O nosso país", e que o nome gronelandês desse país é Kalaallit Nunaat, "Terra dos Gronelandeses" (Gronelândia era a "Terra Verde" que o viking Eric, o Vermelho viu quando chegou ao sul desta ilha, fugido da Islândia, certamente por ser bom rapaz, em 982). E que num apego ao chão como este não se mexe.

A Gronelândia votou contra a integração na União Europeia em 1982, insiste Pip, a jovem de Disko de que já falámos, tem feições mais inuítes do que Aputsiaq. Mas a pele é clara e os olhos são verdes. Herança de um avô dinamarquês e de outro alemão. É a história dos genes gronelandeses.
Depois dos vikings, vieram os novos inuítes do norte frio da América - o território fora habitado por paleo-esquimós de várias procedências desde tempos imemoriais, de que as pedras de Semermiut, à distância de uma curta e bela caminhada de Ilulissat, são testemunhas. E depois vieram os europeus à caça da baleia e do abundante peixe.
A sedentarização foi o passo óbvio, bem como a multiplicação de trocas comerciais e, naturalmente, amorosas, enquanto o comércio com o estado dano-norueguês cristianizava a ilha e a transformava na colónia que foi até 1953. Desde então, é uma semiautonomia destratada por Copenhaga, dizem os de cá.
Pip conduz-nos num passeio entre os icebergues da baía de Disko, numa manhã de sol perfeito. "Se eu ligar para o hospital e disser em gronelandês que me dói a barriga, dizem-me: toma isto ou aquilo e se não passar numa semana diz qualquer coisa. Se falar em dinamarquês, sou logo atendida". Mas também é verdade que a Dinamarca subsidia a Gronelândia - e até reforçou esse subsídio desde que Trump se lembrou da ilha. Como é verdade que há dinamarqueses a achar que é demasiado. Vivessem eles aqui e veriam.

Mergulho até ao hospital
Falemos precisamente do hospital. Ilulissat tem provavelmente a unidade de saúde com a vista mais bela do Mundo, uma baía azul e a marcha lenta dos icebergues. "Se tiveres uma doença grave tens de voar para Nuuk", diz ela. "Ou para Copenhaga." Se o tempo deixar.
Ali, naquele elegante edifício vermelho sobranceiro ao mar, há escassos médicos e enfermeiros vindos da Dinamarca por períodos curtos, que até podem ter especialidades mas só praticam medicina geral, como Mette, a enfermeira dinamarquesa que encontramos junto à casa-museu do explorador dano-norueguês Knud Rasmussen e que admite que o mais difícil é perceber que, aqui, a falta de cuidados diferenciados exigíveis na Europa não incomoda - porque é a vida.
O que há são análises básicas e uma máquina de raio-x cuja eficácia é questionável - tivemos a rara oportunidade de a experimentar e isso recorda-me um conselho a deixar aqui: nunca viajem para a Gronelândia sem seguro, porque o cartão de saúde europeu não é aceite e os valores cobrados são pornográficos. O preço a pagar pela vida no paraíso é ele ser, muitas vezes, um inferno.
E vale que o gelo não faz só escorregar. Também se parte em cubos imperfeitos para refrescar um gin Isfjord com xarope de angelica como aquele que Pip nos oferece, depois de nos ter dado café e chá quente no barco da Disko Line Explorer, enquanto nos conta a vida dos icebergues, enquanto o quebra-gelo quebra a banquisa, provocando fendas que se antecipam à proa, numa viagem sem paralelo e com alguns valentes tropeções.

É um festival de diamantes em pleno mar, a olhar a margem por onde percorremos o maior dos trilhos de Ilulissat no dia anterior, uma caminhada sobre neve e gelo, que começa na povoação e termina na povoação, passa pelo lugar onde, a cada 13 de janeiro, se celebra o regresso do Sol, ainda que os desequilíbrios resultantes do mal que o homem inflige ao Planeta estejam a antecipar o fim da noite polar, admitiria Anna: o Sol vislumbra-se uns quatro ou cinco dias antes, como a ponta a crescer de uma unha bem cortada.
Do quebra-gelo olho, também, o lugar alto de onde, reza a história, os velhos se atiravam ao mar para aliviar as famílias famintas desta terra que se alimenta de lendas de xamãs e mulheres que são mães do mar e põem os rios a correr para montante quando se zangam com os homens, esgotando a pesca, ou que são espírito do vento e afastam a chuva. Vejo Semermiut, o lugar dos esquimós de há 4500 anos, dos que trouxeram a caça antes de os de há 800 anos trazerem a caça de animais marinhos.
E recordo as palavras de Pip, justificando a rejeição da União Europeia: "Queriam que deixássemos de ser o que somos porque não gostam daquilo que somos? Somos caçadores e pescadores. Comemos baleia e foca e rena. Vamos mudar isso porque a Europa definiu-os como animais protegidos? Nós não caçamos por caçar. Nós caçamos para viver. Somos caçadores e pescadores".
Porque num lugar inóspito para a agricultura, onde se tem de esperar pelo navio vermelho da Royal Arctic Line para ter legumes de frescura muito pouco razoável nos mercados, deixar este modo de vida seria uma condenação à fome. Há armas em casa de Anna. Há armas em casa de Aputsiaq, há armas em todas as casas. Mas não há criminalidade para lá de rixas de bêbados à saída de algum bar, que acabam por ser a maioria dos clientes do hospital.

A simplicidade dos conceitos
A simplicidade dos conceitos está, por exemplo, no bacalhoeiro de Tuk, um velho pescador que transformou a casa do leme em pedaço de vida, com copos descartáveis espalhados e um saco de gomas semicomido, ao lado de um computador desarrumado, um pacote de leite e uma garrafa de sumo, toda a tristeza dos dias de solidão. Não nos quer levar pescar com ele, mas vende-nos alabote seco por euros, porque nesta era de modernidade nem uma coroa temos no bolso.
A simplicidade dos conceitos está no rádio de pilhas a debitar "Love is in the air" enquanto outro pescador prepara isco para as redes num armazém ali ao lado, neste porto que se lança para uma das áreas de maior concentração de pesca do Hemisfério Norte.
A simplicidade dos conceitos está nas futilidades da vida cobertas de neve, indiferentes ao desgaste do tempo, carros, bicicletas, scooters, bolas de futebol ou bonecas esquecidas com o verão.
Está na insultuosa beleza de tudo, mesmo do que é feio, a central elétrica, a zona industrial feita de contentores, o preço de um café no Arctic Hotel que tem a melhor de todas as vistas, as prateleiras de fruta tocada dos supermercados, o desgaste dos velhos Ladas, o odor a osso queimado na oficina de artesanato, as hastes de rena nas varandas, os cadeados que prendem os cães ao chão gelado, o seu latido persistente, doloroso.

A banda sonora de Ilulissat
Os cães são a banda sonora de Ilulissat e de todo o nordeste da Gronelândia, território de caçadores e pescadores, território de gelo invencível, território sem estradas. São mais do que as pessoas. No Icefjord Center, museu interativo imperdível patrocinado pela UNESCO, o audioguia feito de histórias reais arranca mesmo assim, com o som de cães a latir, a uivar, enfim, a ser. Esse som que não larga o ar, nunca. Os cães são a Gronelândia.
Norsaq é professor na escola onde Anna também ensina. Foi ela que nos pôs em contacto. Quando nos vê aproximar, nas planuras de latidos que separam Ilulissat do Icefjord Center, chama-nos com um gesto e a primeira coisa que nos diz é para brincarmos com um cachorro preto que prendeu perto da cabana azul onde guarda o trenó e tudo o que constrói o inebriante modo de transporte inuíte. Prendeu-o para ele não nos seguir daqui a pouco, quando formos atrelados a 11 dos seus cães, montanha acima, atrás de adrenalina e de uma vista surpreendente - mais uma.
Mbappé - chama-se assim porque o filho de Norsaq é fã do Real Madrid - costuma andar em liberdade: ainda não tem idade para ser trabalhador e passar os tempos de descanso preso a uma corrente com o comprimento exato para não chegar ao cão mais próximo. Estão todos assim, nas pradarias a que chamam de estações de cães de trenó e que se espalham por vários pontos de ilulissat, contornando-a e enclausurando-a no seu som constante.

São cães da Gronelândia, uma raça única, ainda que parente de outras que se lhe assemelham, listados entre os cães mais fortes e resilientes do Planeta e uma das razões pelas quais o Homem consegue sobreviver nas duras condições do Ártico. Cães de carga, de trabalho, pouco menos que selvagens no comportamento, de olhar doce.
Só os cachorros brincam. Os outros dependem da ordem dos criadores e a regra maior que todos os estrangeiros ouvem à chegada ao seu território é a proibição absoluta de tocar neles. Pesam até 40 kg, puxam até 100 kg cada, vivem até aos 10/12 anos, são treinados a partir dos seis meses, lutam, uivam e, de acordo com uma lei que não sabemos se está escrita, não podem estar ao pé das habitações.
Atrelados os cães, Norsaq coloca os pertences de todos na algibeira junto às pegas, convida-nos a sentar sobre peles de rena e mostra-nos como nos devemos segurar. Mal tenho tempo de experimentar e já vamos ensandecidos colinas abaixo, atravessamos a povoação por esta autoestrada de trenós e seguimos a toda a velocidade em direção à montanha, que subimos mais tranquilamente, havendo até um momento em que apeamos e empurramos o trenó para aliviar os cães.
Vistos do banco, são uma massa de pelo branco e preto ondulante, penteada pelo vento e pela velocidade, atirando salpicos de neve e gelo para trás, tornando mais frio ainda este final de tarde. Norsaq tem o ar tranquilo de um sonhador. Contempla a paisagem que tão bem conhece, olha-a como se estivesse perdido, apaixonado por aquela paz. A dada altura, vira-se: "Quando venho para aqui com os cães, sinto "A liberdade"..." E volta à condução dos animais, em silêncio.
Atravessamos um lago gelado com bolhas de ar congeladas, passamos incertos sobre pedras alisadas pelos trenós, o chicote é apenas vento ruidoso para redirecionar algum cão mais tresmalhado, subimos mais uma encosta, descemos outra, vertiginosa, a olhar as patas dos bichos numa cavalgada sonora, até que chegamos a um promontório.
Norsaq entrega-nos um termos com café e bolachas de chocolate e diz-nos para olharmos como ele olha tudo. Fica a conversar com os seus cães, a desenlear cordas, a dominar um macho mais atrevido - o mais novo tem um ano, o mais velho cinco, hoje correram a 20 km/h, porque levavam estranhos.
Regressamos com o pôr do sol a dourar-lhes o pelo e Norsaq, ora atrás agarrado ao leme, ora à frente a descansar sentado de lado, ora a correr e a saltar dentro e fora do trenó, suado e sorridente, pensativo e entregue. Se pudesse, largava o ensino e vinha para aqui só com os cães. Porque é para isso que os tem - para poder vir para aqui com eles.
A relação deles é de amor, um amor controlado por uma tradição que, para nós, é dura, mas para eles é ponto assente há mais de 800 anos e não vai assim tão longe o tempo em que os bichos eram, até, comidos. São animais quase selvagens. Podem morder. Podem até matar. Podem, acima de tudo, apaixonar, porque são, de facto, a alma deste território.

Kaffemik, a tradição nascida do frio
Os cães e o "kaffemik", essa tradição de ter as casas abertas para dar café a quem entre. Anna desafia-nos: a irmã, Hansinannguaq, faz anos e há comida em barda em casa dos pais delas, Amalie e Arkalunnguaq. À frente da casa virada à baía, uma bandeira hasteada avisa que é dia de kaffemik. Percebemos que outras bandeiras ondulam ao vento, junto de casas em festa.
Nesta onde entramos e, como em todas, nos descalçamos, há duas mesas fartas. Na sala, a comprida mesa dos bolos que são especialidade de Hansinannguaq, que tem na mesa de apoio aos sofás o rei da festa: "o melhor bolo do Mundo", diz Anna, feito das bagas escuras que todos por cá vão colher à tundra nos meses menos frios.
Na cozinha, outra mesa, esta com comida de substância que Amalie insiste que provemos. Foca, rena, baleia e coisas mais comuns que não se caçam por cá. E sopa de peixe. Provamos tudo, como já tínhamos provado o famoso "mattak" (pele, gordura e cartilagem de baleia) que Aputsiaq nos ofereceu um dia destes ao jantar.
Da janela vejo, entre as molduras de fotografias de família, a encosta branca pontuada das cores das casas vizinhas, enquadradas pela marcha dos icebergues. Provavelmente a perfeição, como a mão de Amalie pousada sobre a de Arkalunnguaq, sorridentes, inglês quase nulo, felicidade entre netos, filhos, sobrinhos, primos, vizinhos, toda a gente. Vários partilham o sufixo "guaq" nos nomes. Significa "doce". Anna encolhe os ombros. É a única filha que não o tem.
Pergunto-lhe pela fama repentina da ilha, responde que as notícias da América são uma loucura e volta a encolher os ombros resignados em relação à Dinamarca. Vive num lugar de onde os filhos têm de sair para estudar (as filhas dela estão uma em Nuuk outra em Copenhaga), vive num lugar de onde têm de sair para tratar da saúde. E vive num lugar cujo passado ainda carece de um pedido de perdão: a Dinamarca implementou uma campanha de esterilização forçada das mulheres nas décadas de 1960/70 para controlar a população local. Algumas tinham 12 ou 13 anos. (O pedido de perdão chegaria da boca da primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, já depois de feita esta reportagem)
Anna muda de assunto. Mostra-nos fotografias da última baleia que caçou com o pai, no verão passado, e do dia 13 de janeiro, lamentavelmente encoberto. E mostra-nos as serranias gronelandesas por onde gosta de se perder a caminhar. Este abraço caloroso entre grinaldas de luzes - há-as em todas as casas, serão provavelmente o conforto da alma na noite polar e ficam, ano fora, a iluminar as vidas - seria a despedida deste cantinho de uma imensidão pura que contemplo da janela das águas furtadas que me serviram de aconchego. Olho a noite, imagino os cães enroscados na neve. As casas, cujas cores vivas se esbatem na leve iluminação pública, adormecem.

Viagem ao centro do gelo
Faltava-nos apenas ir ao centro do gelo. Faltava, na verdade, muito desta gigantesca nação, mas ver tudo teria custos exorbitantes. Escolhemos fazer um stop over em Kangerlussuaq, ainda acima do Círculo Polar Ártico. Foi base americana entre 1941 e 1992 e, por isso, aeroporto internacional da ilha, num lugar a 10 km do mar e, portanto, mais abrigado das agruras do clima e de humidade quase nula.
Deixou de ser o principal porto aéreo de chegada à Gronelândia porque era preciso dar esse papel a Nuuk, a capital, que inaugurou com pompa a sua pista internacional à beira-mar em novembro de 2024 para assistir com frequência ao desvio de voos por falta de condições para aterragens... (para não falar da falta de dimensão para acomodar o crescimento do tráfego aéreo - a fila de check-in é tão medonha e atada que atrasa os voos!)
Inutilizada como base, Kangerlussuaq foi vendida às autoridades locais por um dólar (ou seria uma coroa?), que ali mantiveram a infraestrutura, de onde irradiavam os voos locais para os aeroportos, aeródromos e heliportos gronelandeses.
A vida de Kangerlussuaq era agitada, porque todos ali paravam, e o aeroporto fez-se, também, hotel - aliás, o bar e o restaurante da aerogare são os do hotel. Tudo hoje meio esvaziado de sentido e isso nota-se no olhar resiliente dos habitantes. Uma inuíte de queixo tatuado conta-nos das danças tradicionais que faz na montanha enquanto nos serve o café e percebe-se-lhe a necessidade de falar, de mostrar o seu território.

Aqui é o lugar mais próximo da calote glaciar, na medida em que é daqui que parte a única estrada - na verdade é uma pista de gravilha - que permite conduzir até à imensidão do gelo. E é, atenção, a mais longa estrada da ilha, uns 30 km construídos em 1999, imagine-se, pela Volkswagen para testar carros em ambiente ártico. Serviu os propósitos durante cinco curtos anos. Agora serve o turismo e os caçadores num lugar de elevada concentração de renas e bois almiscarados, como aqueles de que sobra apenas a cabeça, troféu, que dois homens carregam num jato particular.
Henrik, 34 anos e um olho azul impossível, vai levar-nos ao Point 660. Aquele olhar herdou-o de uma história que percebemos afinal ser tragicamente comum. A mãe é de Sisimiut, o pai, pescador dinamarquês, atracou ali na faina da vieira, trazia o molusco que ela amanhava na linha da fábrica, nos intervalos fazia-lhe companhia no barco, Henrik foi feito a bordo, diz as coisas sem poesia.
Aos cinco anos dele, a mãe despachou o progenitor que era, na verdade, casado com o álcool. E ele abalou. Quando procurou o pai, Henrik encontrou-o entregue à vida embriagada que escolhera e que o matou em 2015. "Parece que era muito bom a beber", diz, desprendido.
Ele, apaixonado por uma filipina que nunca esteve na Gronelândia, apesar de aqui haver muitas centenas de imigrantes filipinos (Trump saberá disso?), fala de amor e de uma cabana. E conduz-nos, lento, no seu camião todo-o-terreno, ilha adentro.
Passamos por destroços de um avião militar americano caído em 1968. Passamos por túmulos milenares, passamos até por pinheiros, plantados em 1978 pelo cientista dinamarquês Søren Ødum, que queria testar a sobrevivência das plantas no pergelissolo (permafrost) depois de ter conseguido fazer vingar árvores no sul da ilha. O aquecimento global haveria de dar frutos. Há pinheiros minúsculos que alguém enfeitou com bolas de natal. Passamos, enfim, por renas tranquilas.
E descemos ao "segredo", a boca do glaciar Russel, em cujas paredes Henrik faz ressoar o riso eletrónico do filho de um ano, com quem fala por videochamada para as Filipinas. Vamos em equilíbrio incerto sobre as lascas erguidas da superfície do lago, levantadas pela pressão do avanço do glaciar. E tocamos no gelo.

É estranhamente seco. Olhamos para dentro dele. Olhamos, na verdade, para o interior da Gronelândia, um panorama que vai escurecendo, feito de bolhas congeladas, feito de silêncio apenas quebrado pelos estalidos dantescos da parede, feito de eternidade.
Pouco depois, estamos num plano elevado, a tomar chocolate quente sobre uma mesa nevada e a olhar, de frente, a calote. Dali em diante, são centenas de quilómetros de alvura, um nada que saltou para as bocas do Mundo porque um desbocado se sentou na Casa Branca. Henrik não esconde o desprezo. "Perguntem a qualquer pessoa por aí, vão dizer que são europeus", não americanos. "O que eles querem são os minérios, como na Ucrânia."
E a independência? "É preciso muito caminho até lá." De novo a saúde: ter acesso a ela implica voar e gerir uma infraestrutura com tantos aeroportos é caríssimo para uma população de 56 mil almas. Depois a educação. Tudo falha. E a política externa. E a defesa. E o resto, todo o resto que terá de construir um país que fica quase todo acima do Círculo Polar Ártico. Um país que se entranha em nós na sua simplicidade.
Enquanto olho o poste mais famosos da Gronelândia, com as distâncias para o Mundo, viajo mentalmente até ao barco de Aputsiaq, num momento em que estaca numa placa de gelo mais densa. Ao longe, o fim do sol pinta-nos de laranja e de sombras de icebergues. Aputsiaq vira ligeiramente o tronco para o horizonte e varre-o com o braço. Agora sei que tem sob a manga a mais bela tatuagem: uma paisagem com árvores e uma aurora. As árvores que aqui não há e uma aurora como só aqui há. "Não consigo viver sem isto. Como é que poderia largar este lugar?"

Nuuk, a capital glaciar
Aterrar em Nuuk é uma bonita introdução à Gronelândia. Esta manhã de março que largámos solarenga em Copenhaga, cinco horas antes, faz-se nevada na capital da ilha.
Mas os céus, por aqui, andam como lhes apetece e bastou o tempo muito bem gasto a mergulhar no Museu Nacional e Arquivos da Gronelândia para sermos brindados com o mais perfeito sol de fim de tarde.
Da semi-escuridão que protege dezenas de milhares de peças, entre as quais o mais antigo barco de pele de animal do Mundo, as múmias de esquimós do século XV, kamiks (botas) de pele de foca, uma referência a Portugal no capítulo da pesca e um trenó junto ao qual se alerta para o risco de extinção dos cães progressivamente trocados por motas de neve, saímos para um brilho inesperado a iluminar o Bairro Colonial da capital inuit.
No horizonte, prédios tranquilos, o shopping que se destaca na paisagem e a catedral que é uma pequena igreja vermelha não muito longe da estátua de Hans Egede, o missionário que evangelizou a ilha no princípio do século XVIII e é conhecido como "o apóstolo da Gronelândia" por ter revitalizado o interesso do reino pelo distante território ártico. É dele a fundação de Nuuk, outrora Godthab.

Dali, a vista para a baía ao pôr-do-sol é provavelmente das mais belas do Mundo. Na praia negra repousam pequenos icebergues cuja base azul cintila sob os raios do sol alaranjado. Ao largo, barcos amarelos cruzam as águas brilhantes. Na margem, casas vermelhas, amarelas, verdes, azuis.
Um postal a que não falta um passadiço costeiro e prédios de habitação social em cuja parede se lê "Free palestine" e sob os quais dormem alguns sem-abrigo. Haverá uns 500 no país (1% da população), 110 na capital, com histórias comuns de suicídios na família (aqui a taxa é das mais elevadas do Mundo, 81 por cem mil habitantes) e bebida.
A modernização forçada da Gronelândia nas décadas de 1960/70 esvaziou aldeias onde se vivia da pesca e da caça e engordou as cidades com operários. A receita é tristemente mundial.
Numa curva do mar, as cruzes do cemitério esgueiram-se acima da neve. O sol brilhante desapareceu, uma escuridão branca e gélida abate-se sobre Nuuk. Será isto a modernidade?
(Esta reportagem foi publicada em junho na revista "Volta ao Mundo")

