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Este ano conta já mais 17 dias com excesso de óbitos do que em 2021

Este ano conta já mais 17 dias com excesso de óbitos do que em 2021 Artur Machado / Global Imagens

Até segunda-feira houve 121 dias acima da média contra 104 em 2021. Só agosto, setembro e outubro com menos de 10 mil óbitos.

O presente ano conta já mais dias com excesso de óbitos do que o total verificado em 2021, ano em que morreram quase 125 mil pessoas. Os dados do eVM - sistema de vigilância da mortalidade em tempo real - contabilizam, até à passada segunda-feira, 121 dias em que o número de óbitos registado ficou acima do esperado (mais 17 face ao ano passado, com 104). Num ano em que apenas os meses de agosto, setembro e outubro fecharam com menos de 10 mil óbitos. Em 2021, janeiro, fevereiro, novembro e dezembro ficaram acima daquela cifra. Envelhecimento da população, ondas de calor ou impactos da pandemia são hipóteses em cima da mesa, num fenómeno que requer investigação. E que o Ministério da Saúde tem em curso.

Em termos acumulados, a vigilância da mortalidade do eVM - os dados são provisórios, porque são constantemente atualizados os certificados de óbito - contabilizava, até segunda-feira, 114 353 mortes, menos 1308 face a período homólogo do ano passado e mais 1570 face a 2020. Os dois últimos anos, recorde-se, fecharam, cada um, com mais de 120 mil óbitos. Respondendo 2022, à data, pelo terceiro valor mais elevado desde 1950, de acordo com as estatísticas do INE. Analisando os dados da Direção-Geral da Saúde, até ao dia 4 registavam-se 6573 mortes por covid, contra 11 551 em período idêntico do ano passado.

Janeiro de 2021, em plena onda pandémica, recorde-se, fechou com um excesso de mais de 6500 mortes, com o dia 20 de janeiro a registar 748 óbitos por todas as causas. Neste ano, o máximo de mortes diárias registou-se a 14 de julho, com 459 óbitos. Altura em que se registou um dos maiores picos de mortalidade do ano, com 31 dias consecutivos em excesso. Pior, só o período de 15 de janeiro a 19 de fevereiro.

Refira-se que em maio e em junho Portugal registou a mais alta taxa de excesso de mortalidade da União Europeia. Analisando os dados do EuroMOMO, que monitoriza a mortalidade na Europa, na última semana de novembro o nosso país registava um baixo excesso de mortalidade.

Envelhecimento da população

Dados que levaram o Ministério da Saúde a anunciar, em agosto, um "estudo aprofundado" sobre a mortalidade em Portugal. Explicando na altura ao "Público" que o padrão "sofreu uma alteração após o início da pandemia, com o aumento da mortalidade anual, que poderá resultar de relações sinérgicas entre vários fatores".

Ao JN, Carlos Antunes põe a tónica no envelhecimento da população, notando que o aumento da mortalidade, que se verifica nas faixas etárias superiores, acompanha o acréscimo de pessoas com 65 ou mais anos. Numa análise estática, "na média 2015-2019 há claramente um excesso". Contudo, introduzindo nos cálculos a variabilidade do envelhecimento, "que aumenta a morbilidade", o "excesso não é assim tão significativo". Segundo o professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, "o envelhecimento está a explicar mil óbitos a mais por ano". Pelo que é preciso "perceber as causas de morte e o impacto da covid longa".

Vasco Ricoca Peixoto, da Escola Nacional de Saúde Pública, levanta, juntamente com três investigadores num artigo publicado na Ata Médica Portuguesa, "algumas causas possíveis", não relevando o impacto do envelhecimento da população. Desde a "covid e sequelas pós-covid, aumentando o risco, sobretudo nos mais velhos, de enfarte e de AVC". Ou "a descompensação de doenças crónicas", bem como "alterações socioeconómicas e comportamentais". Hipóteses para investigação, sendo certo, vinca, que "em 2022 o que vemos é que estamos, sistematicamente, desde janeiro, acima do esperado [linha de base] no ano inteiro" (ver infografia). "Há alguma coisa de diferente na sociedade, porque mesmo sem grandes picos as pessoas estão a morrer mais na mesma", diz Vasco Ricoca Peixoto.

Excesso
Na manhã de terça-feira (os dados são constantemente atualizados, sendo por isso provisórios), o eVM registava 298 óbitos em excesso nos últimos sete dias.

Várias causas
Fatores como o frio, o calor a gripe ou a covid estão associados a períodos de excesso de mortalidade. Outras causas são monitorizadas pela DGS e pelo INSA. Questionada, a DGS não respondeu.

Joana Amorim