1938-2022

Jean-Claude Mezières ruma às estrelas

Jean-Claude Mezières ruma às estrelas

Desenhador de Valérian e Laureline faleceu aos 83 anos

O universo da banda desenhada ficou mais pobre esta madrugada com a partida de Jean-Claude Mezières. Natural de Paris, onde nasceu a 23 de Setembro de 1938, contava 83 anos.

Considerado autor de uma obra só, a fantástica saga dos agentes espacio-temporais Valérian e Laureline, Mezières percorreu um longo caminho até trazer à luz do dia as personagens que o tornaram famoso, mesmo para lá das páginas de papel aos quadradinhos.

Talento precoce, Mezières publicou os primeiros desenhos aos 13 anos, no "Journal des Jeunes", uma publicação de distribuição gratuita. Dois anos depois era admitido na Escola das Artes Aplicadas, onde durante quatro anos estudou a pintura em papel e o desenho em tecido. Mais importante, foi lá que conheceu um certo Jean Giraud, futuro co-criador de "Tenente Blueberry" e desbravador de fronteiras em BD sob o pseudónimo de Moebius.

Paralelamente aos estudos, encontramos na bibliografia de Mezières desde "Bill e o shériff", o western com que se estreou em 1955, a uma versão de "Robin dos Bosques" (1955), bem como colaborações diversas nas revistas "Coeurs Vaillants" e "Spirou".

Além disso, trabalhou como maquetista, ilustrador e publicitário até 1965, ano em que partiu para os Estados Unidos, onde exerceu diversos ofícios, vivendo mesmo algum tempo como um verdadeiro cowboy. Foi lá que reencontrou Pierre Christin, seu amigo de infância, a quem convenceu a escrever um argumento para uma BD curta, "Le Rhum du Punch", que seria publicada na revista "Pilote", em 1966.

De volta à Europa, prosseguiu a sua colaboração naquela publicação dirigida por René Goscinny, desenhando argumentos deste último e também de Reiser, Lob ou Fred.

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Em 1967, com o regresso de Christin a França, os dois unem-se para criar aquela que viria a ser uma das mais importantes e inovadoras séries de ficção-científica da História da banda desenhada: "Valérian".

Sem heróis, na acepção tradicional do termo, com o protagonista, um agente espacio-temporal do futuro, em pé de igualdade - quando não subalternizado - com Laureline, uma jovem da época medieval resgatada por ele, esta série aproveitou mundos maravilhosos para abordar questões do quotidiano, da luta de classes à tirania, da igualdade dos sexos ao perigo das descobertas da ciência sem controle.

Depois, numa segunda fase, mergulhou os protagonistas em sucessivas viagens no tempo, numa tentativa desesperada de evitarem a aniquilação da Terra do futuro (2720) em que residem.

Se é quase impossível aquilatar da importância individual de cada um dos autores para o sucesso de "Valérian", é indiscutível que a arte de Mezières aplicada na criação visual dos mundos imaginados pela dupla foi fundamental para fazer sonhar gerações de leitores e valeu-lhe o Grande Prémio de Angoulême pelo conjunto da sua obra em 1984.

Entre 1967 e 2013 foram 23 os álbuns publicados em França, para além de diversas obras derivadas, nomeadamente os guias sobre a fauna, a flora e os planetas mostrados na série, ou o díptico "L"Avenir est avancé", colectânea de histórias curtas sobre a origem de algumas personagens e reflexões autorais sobre a criação dos diversos mundos.

Em Portugal, a série estreou em 1971, no terceiro ano da revista "Tintin", tendo posteriormente passado pelas páginas do "Jornal da BD" e das "Selecções BD". Foi publicado em álbum pela Meribérica, primeiro, e, depois, pela ASA, tendo esta última feito uma edição integral dos 23 tomos da série, em volumes duplos, em 2017, ainda disponível no mercado.

Com os problemas de saúde do autor a afectarem cada vez mais a sua produção, "L'Art de Jean-Claude Mezières", colectânea das suas colaborações na imprensa, na publicidade e no cinema, para além de "Valérian", editado pela Dargaud em Dezembro último, fica como testemunho póstumo da obra de um dos nomes grandes da banda desenhada do último meio século.

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