Cinema

Pamela B. Green: "Houve quem me desencorajasse de fazer este filme"

Pamela B. Green: "Houve quem me desencorajasse de fazer este filme"

Autora americana dirigiu documentário sobre Alice Guy-Blaché, a primeira mulher realizadora do cinema.

Estreou esta semana nas salas "Be Natural - A história nunca contada de Alice Guy-Blaché", sobre a primeira mulher realizadora do cinema. Nascida em França em 1873, realizou o primeiro filme em 1896, dirigiu os estúdios da Gaumont, foi também a primeira mulher a fundar um estúdio nos Estados Unidos e dirigiu e produziu mais de um milhar de filmes até aos anos de 1920. Questões pessoais e profundas alterações na indústria do cinema levam Guy-Blaché a abandonar o cinema e quando faleceu, aos 94 anos, o seu nome tinha caído no esquecimento. Até agora. A realizadora Pamela B. Green explica as razões que a levaram a fazer este filme.

Quando é que ouviu falar pela primeira vez de Alice Guy-Blaché?

Foi ao assistir a um espetáculo chamado "Reel models", sobre mulheres pioneiras no cinema. Não frequentei nenhuma escola de cinema, mas trabalho na indústria do entretenimento e fiquei surpreendida por nunca ter ouvido falar dela. Perguntei a outras pessoas do meio e percebi que ninguém tinha também ouvido falar de Alice Guy-Blaché.

O que a fez realizar este filme?

Não quis acreditar que uma figura tão importante do nascimento do cinema fosse desconhecida para toda a gente, ao contrário de Méliès ou dos Lumière. Ficou claro para mim que tinha de contar esta história.

Sentiu alguma espécie de resistência de algumas pessoas em falar sobre o legado de Alice Guy-Blaché?

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Em primeiro lugar, alguns académicos desencorajaram-me de fazer o documentário, negando que Alice fosse desconhecida, porque no círculo deles conheciam-na, embora escrevessem sobre ela sem nunca ter visto a maior parte dos seus filmes. Mas eu queria que fossem os espectadores no geral a conhecer o nome da Alice e a serem inspirados por ela.

E houve quem negasse a sua importância?

Alguns académicos tentaram minimizar a sua importância na história do cinema, pondo em causa a cronologia da sua contribuição. Por isso, tive de encontrar material novo para justificar todas as suas afirmações. Foi o que fiz.

No seu filme falou com muitas realizadoras. Foi também a forma que encontrou de dar crédito à presença das mulheres na indústria do cinema?

Ao crescer não tinha a noção de que existissem muitas realizadoras. Pensei que essa fosse a norma. Por isso, mostrar tantas cineastas talentosas era muito importante para mim.

O seu filme tem a estrutura de uma investigação, quase no sentido policial. Quanto tempo é que demorou a montar todo o material que tinha e a encontrar a forma que o filme tem?

Demorei mais de oito anos em pesquisa, entrevistas, encontrar novos filmes dela e a montar todo o material. Percebi, a certa altura, que era uma mistura de história de detetives com filme biográfico. Eu não queria aparecer no filme, mas percebi que era importante mostrar todo o meu percurso e os obstáculos que encontrei para pôr em pé a história de Alice. Ao mesmo tempo, as entrevistas áudio e televisivas de Alice que aparecem ao longo do filme ajudam-na a contar a sua própria história.

Como é que conseguiu envolver no projeto gente tão diferente como Robert Redford, Jodie Foster e Hugh Hefner?

Eu tinha trabalhado com o Robert Redford fazendo genéricos para filmes dele. Perguntei-lhe se conhecia a Alice e fiquei surpreendida por ele não a conhecer. A mesma coisa com a Jodie Foster. E a maior parte das pessoas não sabe que Hugh Hefner apoiou estudos sobre cinema, preservação de filmes e mulheres realizadoras, a quem financiou imensos documentários ao longo dos tempos. Há mesmo um arquivo fantástico em nome dele na USC [Universidade da Califórnia do Sul].

Espera que a estreia de "Be natural" possa levar mais gente a conhecer a obra de Alice Guy-Blaché e que mais alguns dos seus filmes possam ser descobertos?

Sim, já há várias plataformas que passam a obra dela, que pode assim ser vista mais facilmente. O nome de Alice é mencionado na imprensa diariamente, o que é incrível.

Depois de falar com várias pessoas que a conheceram e de ver tanto material de arquivo, que mulher diria que a Alice Guy-Blaché era?

Era uma mulher incrivelmente divertida. E muito esperta. Ignorou os obstáculos e viu todo o potencial que o cinema tinha.

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