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Novas propostas abordam temáticas atuais e controversas para chegar a novos leitores.
As últimas décadas mudaram a banda desenhada. Durante muito tempo desdenhada como "coisa para crianças" ou entretenimento ligeiro, propõe hoje temáticas adultas que entram pela vida dentro, desafiam e fazem pensar. Na origem distante desta mudança estiveram as graphic novel de Will Eisner, narrativas profundas e bem desenvolvidas, os autores alternativos americanos, a revista "(A Suivre)" que a partir de 1978, que nos legou obras extensas como "A balada do mar salgado" (edição recente da Arte de Autor) ou "Silêncio" (Devir) e, mais tarde, a editora L"Association.
Luís Saraiva, editor da ASA, afirma que "a BD está mais adulta e a prova disso é o crescimento do segmento, da sua diversidade e sobretudo na qualidade da oferta" em que se destaca "uma dimensão profunda e ajustada aos nossos tempos dos seus argumentos". Ana Lopes, da Devir, complementa que a BD, "como meio privilegiado de conciliar narrativa textual e visual, propõe facilidade de apreensão de conteúdos, mas também a capacidade de refletir sobre assuntos mais complexos".
Uma das suas temáticas recorrentes, muitas vezes em formato livro, é o registo autobiográfico. É o caso, por exemplo, de "Corpo de Cristo" (Iguana), em que Béa Lema reconta a complicada relação com a sua mãe, a quem foi diagnosticado um distúrbio mental, ou de "Impenetrável" (ASA), em que Alex Garin expõe o vaginismo que a afetou durante anos e o longo processo de resolução que viveu. Entre o tom didático, a partilha e a exposição contida, são livros que têm tudo para chegar a pessoas que vivem situações similares e que habitualmente não consomem o género.

Novos leitores
Aliás, uma das características desta "nova" banda desenhada, assevera Ana Lopes é a "procura de todo o tipo de leitores", fora do nicho habitual, pelas temáticas abordadas.Tendo "os jovens adultos como principal alvo", este segmento, segundo Luís Saraiva tem mesmo levado "muitos leitores dito tradicionais a ajustar as suas compras".
A outro nível, esta tendência revela-se também nas novas biografias. Se há poucas décadas revíamos a vida dos heróis ou dos líderes de bom exemplo, hoje são personalidades contestadas e polémicas que nos entram em casa através da BD. "Celeste e Proust" (Iguana) revisita a vida do escritor através da presença tutelar da sua governanta. "Anaïs Nin, no mar das mentiras" (Devir), narra a vida da escritora de literatura erótica e a sua intensa pulsão sexual. Em "O meu amigo Kim Jong-Un" (Iguana), a coreana Keum Suk Gendry-Kim encadeia a vida do biografado com a sua própria existência, tornando-o uma figura mais próxima e humana.

Nas adaptações de romances, deparamo-nos com obras controversas como "Um homem em declínio" (Iguana), uma versão em manga de um conto de Osamu Dazai, que narra o quotidiano de um jovem incapaz de gerir a felicidade da sua vida, ou "O Profeta" (Levoir), um clássico da literatura espiritual e filosófica moderna do libanês Khalil Gibran, agora em quadradinhos.
"O homem de negro" (ASA) é outra proposta incómoda, pois, apesar do tom púdico e sensível, aborda o abuso infantil. Em "Dormindo entre cadáveres" (Livros Zigurate), o médico português Luís Moreira Gonçalves conta a experiência na Amazónia durante a pandemia da covid-19, enquanto "O meu irmão" (Ala dos Livros) aborda de forma pungente o luto pela perda de um irmão, sendo a dor pela morte também o tema de "A Floresta" (Levoir). De comum a todas estas obras, fica uma relação próxima com a realidade e a atualidade, que impede que quem as lê fique indiferente após virar a última página.


