
"Lucky Luke - Dakota 1880" é um retrato abrangente, duro e sem contemplações, dos tempos que o protagonista viveu.
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Novo álbum de BD retrata o protagonista antes de se transformar no herói famoso, e "mais rápido que a própria sombra", que conhecemos há décadas.
Sem humor, ou pelo menos sem o humor habitual das histórias de Lucky Luke, apenas com um arremedo de humor triste que, mais do que sorrir faz pensar, "Lucky Luke - Dakota 1880" - uma clara alusão a "Arizona 1880" a primeira história criada por Morris - é a mais recente variação de autor sobre as histórias do "cowboy que dispara mais rápido que a própria sombra", com edição portuguesa de A Seita, tal como as seis anteriores.
Neste relato, assinado por Appollo e Brüno, entre homenagem, nostalgia e reinvenção da História, Lucky Luke surge perante o leitor como guarda de uma diligência, mais espectador do que personagem interveniente e decisiva, antes de se transformar na lenda que já conhecemos - ou em que alguns o tornaram.
Ao seu lado, vamos passar pelo Canadá e por vários estados americanos, por razões que só a leitura vai esclarecer, assistindo a encontros com pessoas famosas ou referências das suas próprias histórias canónicas.
Entre elas, estão uma feiticeira de vudu, Louis Riel, um mestre-escola que afinal era um pele-vermelha, Annie Oakley, a quem o herói ensinou a disparar mais rápido do que todas as sombras, Paul V. Sullivan e John Arthur Cullingam, fundadores de uma revista literária de vanguarda, e outras personagens que colocaríamos mais facilmente noutros contextos, mas que fazem sentido nesta história de Lucky Luke e na senda da sua interação com personalidades históricas, uma das características basilares das suas narrativas desde sempre.
Aqui, são sete relatos curtos e independentes, diretos, incisivos e bastante realistas que, em conjunto, traçam um retrato abrangente, duro e sem contemplações, dos tempos que o protagonista viveu.
O traço de Brüno, caracterizado pela linha grossa e grandes planos, dá o tom adequado a histórias sempre com um fundo sombrio, sobre o âmago do ser humano, as suas ambições e desilusões e de como pequenos nadas podem tornar-se grandes problemas.
Mais do que um álbum de Lucky Luke - e ele está lá, já igual a si próprio, embora num contexto narrativo diferente, adequado ao tom que os autores escolheram - este é um álbum sobre o lendário oeste selvagem e a lenta transição para a civilização, se bem que estes conceitos variem em função de quem os profere...

