Doclisboa com obras sobre Jeff Buckley, David Lynch, Madonna e homenagem a Gaza

"It"s never over, Jeff Buckley", filme de Amy Berg, é um dos destaques do Doclisboa
Foto: DR
O cartaz completo do Doclisboa 2025 foi apresentado, esta quinta-feira, e inclui diversas estreias, entre mais de 200 filmes de 54 países. Festival acontece de 16 a 26 de outubro, em várias salas de Lisboa.
Corpo do artigo
"It"s never over, Jeff Buckley", filme de Amy Berg sobre a vida e obra do aclamado autor de "Grace"; obras dedicadas a Madonna, Andy Kaufman, John Lennon e Yoko Ono, de e para David Lynch; um documentário sobre "Megalopolis" de Francis Ford Coppola; e um filme que é "uma homenagem" a Gaza, na abertura, são apenas algumas das relíquias do Doclisboa 2025. Na 23.ª edição, o festival apresenta 211 produções, oriundas de 54 países, que prometem não fugir "do conflito ou da memória", encontrando no cinema "uma forma de percorrer história, cultura e ideias".
Tudo acontece de 16 a 26 de outubro, em várias salas da capital -Culturgest, Cinema São Jorge, Cinemateca e Cinema Ideal. No programa deste ano, contam-se 39 estreias mundiais e 31 obras portuguesas, num cartaz que procura espelhar a atualidade e o ser humano, nas suas muitas realidades e desafios. Até porque, para o novo diretor do evento, Hélder Beja, o cinema pode não ser a "solução" para os problemas atuais, mas será sempre "um lugar para pensar o Mundo e pensar sobre o Mundo".
Na noite de abertura, o foco incide sobre Gaza, com "With Hasan in Gaza", de Kamal Aljafari. A obra, filmada em 2001, acompanha as buscas do realizador palestiniano por um antigo companheiro de prisão com um guia local, Hasan, e é, nas palavras do cineasta, uma homenagem "às pessoas, a tudo o que foi apagado e que recordei neste momento urgente da existência - ou não existência - palestiniana. É um filme sobre a catástrofe e a poesia que resiste", frisa. Passa no dia 16, no Cinema São Jorge, pelas 21.30 horas.
A Competição Internacional reúne 12 filmes, as mesmas da Portuguesa, que estreia títulos como "A baía dos tigres", de Carlos Conceição e "Andar com fé", de Duarte Coimbra. Depois, entre as várias secções - Da Terra à Lua, Heart Beat, Verdes Anos e Riscos - traçam-se pontes entre as primeiras experiências cinematográficas e as práticas mais contemporâneas, revisita-se a história, redescobrem-se ídolos, exercita-se a memória.
David Lynch a dobrar
No grupo do programa "Riscos", a egípcia Hala Elkoussy é realizadora convidada, uma artista visual tornada cineasta cuja obra combina uma abordagem inventiva, política e poética. Outro destaque é Minh Quý Trương, cuja obra multifacetada reflete uma profunda ligação ao Vietname e ao seu povo.
O cartaz desta secção que pretende colocar a natureza contemporânea do cinema no centro, juntando filmes produzidos na enorme janela temporária de entre 1896 e 2025, inclui também "Shadowboxing", concebido num diálogo entre a programadora associada do Doclisboa Cíntia Gil e o crítico francês Jean-Pierre Rehm. Inspirado na técnica de treino de boxe inventada por George Dixon, propõe "um combate imaginário sem contrapartida, tomando a Palestina como horizonte e presença espiritual, moral e estética".
Noutra secção, "Heart Beat", as diversas expressões das artes e os seus protagonistas alimentam o conjunto escolhido, com três homenagens a merecer destaque: a Robert Wilson, a David Lynch e a Luciano Berio, mestres já desaparecidos, "mas que continuam bem vivos". O encenador norte-americano Robert Wilson, que pôs em cena "Einstein on the Beach", de Philip Glass, faleceu em julho deste ano, enquanto o compositor italiano Luciano Berio, nascido em outubro de 1925, vê o centenário do seu nascimento celebrado no festival, com um programa especial. São apresentados quatro filmes raros e essenciais que exploram a relação entre música, imagem, memória e experimentação.
A secção inclui ainda "Welcome to Lynchland", de Stéphane Ghez, obra dedicada ao realizador David Lynch, numa viagem pelo seu mundo, através da voz de atores e convidados ilustres, como Kyle Maclachlan e Isabella Rossellini.
Passa também "Duran Duran: Unstaged", aqui David Lynch mas na realização, em 2012: um mergulho cinematográfico à apresentação histórica dos Duran Duran no Mayan Theater, em Los Angeles, pela lente do histórico cineasta.
Situado na mesma era, em "Boy George & Culture Club", de Alison Ellwood, o cantor e os seus colegas de banda partilham pela primeira vez a sua história, num retrato descontraído e íntimo do grupo; já "Becoming Madonna", de Michael Ogden, parte de imagens e registos inéditos, num filme que acompanha a transformação da jovem na estrela pop mais poderosa do mundo.
Outra obra a chamar muita atenção é "It"s never over, Jeff Buckley", de Amy Berg - passa duas vezes, no São Jorge a 19 de outubro e na Culturgest, a 26. O filme retrata Buckley, cuja voz única e carreira promissora terminaram com a sua morte em 1997. Com imagens e testemunhos privados, a cineasta Amy Berg revela o legado e o mistério de uma das figuras mais marcantes da década, tendo o consentimento e testemunhos da mãe do cantor, Mary Guibert.
Já "One to one: John & Yoko", de Kevin Macdonald e Sam Rice-Edwards, mergulha no universo musical, artístico e político de John Lennon e Yoko Ono, tendo como pano de fundo uma época turbulenta da história americana. No centro está o concerto solidário One to One para crianças com necessidades especiais, o único concerto completo de Lennon após os Beatles. O filme apresenta arquivos raros e inéditos, de chamadas telefónicas pessoais a filmes caseiros, bem como imagens remasterizadas do concerto.
Ainda a não perder, "Strange journey: the story of Rocky Horror", de Linus O'Brien (2025) mostra-nos a história do maior filme de culto de sempre, das origens humildes como peça de teatro marginal em Londres à ascensão meteórica. Com acesso aos seus criadores, Richard O'Brien e Lou Adler, bem como ao elenco original do filme, incluindo TimCurry, Susan Sarandon e Patricia Quinn, e fãs famosos como Jack Black, o documentário analisa o que torna a peça e o filme únicos.
Será também apresentado "Memórias do Teatro da Cornucópia", filme de Solveig Nordlund construído com recurso a imagens de arquivo de vários espetáculos da companhia fundada por Luís Miguel Cintra e Jorge Silva Melo, desde a sua origem, em 1973, até ao seu encerramento, em 2016; e ainda "Cast of shadows", de Sami van Ingen, sobre Robert Joseph Flaherty; "Andy Kaufman is me", de Clay Tweel; "Barking in the dark", de Marie Losier; "Bobò", de Pippo Delbono; "Paul", de Denis Cotê; "Toni, Mio Padre", de Anna Negri; e "Megadoc", de Mike Figgis, sobre o épico "Megalopolis" de Francis Ford Coppola.
"Da Terra à Lua"
Na secção da "Terra à Lua", foram hoje conhecidos novos destaques - "Pescadores de Bubaque", de Pedro Florêncio; "Contemplação impasse tentativa", de Welket Bungué; "Aurora", de João Vieira Torres; "Tales of the wounded land", de Abbas Fahdel; "Angela's diaries. Two filmmakers: chapter three", de Yervant Gianikian, Angela Ricci Lucchi e "Tôsô" de Masao Adach.
Era já sabida a presença de "Landmarks", da argentina Lucrecia Martel, história de uma luta por justiça na comunidade indígena de Chuschagasta; e o regresso ao festival de Werner Herzog com "Ghosts ellephants", uma missão de busca pelos raros elefantes-fantasma de Angola, refletindo sobre questões existenciais e de conservação ambiental e cultural. Destaque ainda para "Cover-up", dirigido pela oscarizada Laura Poitras em colaboração com Mark Obenhaus, vindo diretamente do Festival de Veneza e sobre a carreira do jornalista Seymour Hersh, jornalista premiado com o Pulitzer, que revelou os escândalos de tortura do exército dos EUA nas guerras do Vietname e Iraque.
O programa não-competitivo inclui ainda "O Riso e a faca - integral", de Pedro Pinho, versão longa e em estreia mundial do filme premiado em Cannes.
Finalmente, procurando revelar novos talentos e nomes emergentes, a secção competitiva "Verdes Anos" volta a ocupar um lugar especial no Doclisboa; enquanto o festival e a Cinemateca Portuguesa se juntam a apresentar uma retrospetiva dedicada a William Greaves (1926-2014), pioneiro do cinema documental e experimental afro-americano.
Da programação, o festival destaca ainda a exibição de "As Brigadas Revolucionárias na Luta Contra a Ditadura (1970-1974)", de Luiz Gobern Lopes; e adianta que, entre os convidados deste ano, se contam o canadiano Denis Côte, que apresentará "Paul"; e o realizador Eugène Green, que encerra o festival no dia 26 de outubro com "A Árvore do conhecimento", uma fábula sobre um adolescente, um ogre e um pacto obscuro, numa crítica ao modo como as cidades se renderam ao turismo.
A programação completa pode ser consultada em doclisboa.org e os bilhetes já estão à venda.
