Fetiches, confiança, golpes de quadril, o amor e as suas fãs no Indie Music Fest

Concerto dos Ganso no Indie Music Fest
Carlos Carneiro
Indie Music Fest recebeu ao terceiro dia as groupies de Ganso, em Baltar, Paredes.
Depois da procissão de exaltação a Gaia do mordomo David Bruno, na madrugada anterior, e debaixo de um céu carregado, que prometia muita chuva, mas só despejou aquela tensão húmida de festival, abriu o último dia do Indie Music Fest, em Baltar, Paredes. O Palco Antena 3 viu nascer uma pequena revolução de quadris e passos improvisados: Manga Limão, com o seu groove cítrico, transformou a relva molhada em pista de dança. Havia quem dançasse de olhos fechados, braços no ar, como um ritual coreográfico da chuva.
Acima, o Palco Super Bock abriu com J Mistery. Primeira banda a pisar este chão da Floresta Mágica, que chegou acompanhado de um pequeno exército de groupies com lenços bordados com o nome da banda - em devoção quase religiosa. A potente voz de J. Mistery hipnotizou o público com "Safe place", que transformou a plateia num coro uníssono, como se todos se reconhecessem nesse refúgio. Em "Protection", a energia adensou-se - uma ode ao amor como território sagrado, confiança que se dá como quem se despe. Mas logo, com "Breakdown", mostrou o lado cru da rendição: aceitar o colapso, com as teclas a sublinhar a fissura emocional. No auge da intensidade, "Everlasting love" foi mais que uma canção: foi uma flecha lançada diretamente para Cecília, na primeira fila, que recebia cada verso como uma confissão.
A frescura de Ganso
A abrir a noite, Ganso subiu ao palco e mostrou que ainda havia muito para respirar. "Vice versa" soava como o hino de uma semana perfeita, todos a cantar, cúmplices do mesmo refrão. De Lisboa para o mundo, os Ganso continuam a ser uma das vozes mais frescas da cena independente, mestres em reinventar o seu próprio som sem perder a alma. "Fetiche fonético" foi dedicado às gentes do Norte, arrancando sorrisos cúmplices. E entre ironia e verdade, veio a lição: "Vou-te ensinar a não confiar". O público recebeu, com aplausos e passos desajeitados, a mensagem contraditória e sincera, como o amor - mesmo o desconfiado. O mesmo amor que as fãs têm por Gonçalo, por quem gritavam sem parar. Os Hause Plants abriram uma bonita discoteca ao ar livre, mesmo quando o tema diz "I feel so lost when I can´t be with you". A rematar trouxeram o super êxito de Springsteen "Dancing in the Dark", fazendo entoar o verso "Can´t start a fire without a spark". Faísca que eles têm de sobra.

