
Na rodagem de "Encenação", o filme que ainda vai estrear: Miguel Guilherme, Anabela Moreira, Beatriz Batarda, Rita Blanco - todos olham por João Canijo.
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Perdemos "o melhor cineasta que filmava o lado B de Portugal", disse o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. João Canijo morreu, João Canijo é imortal: o que é que o seu cinema diz de nós?
João Canijo (1957-2025): "Fazer filmes é tentar não morrer sozinho".
Para falarmos de João Canijo - o cineasta foi encontrado morto na tarde de 29 de janeiro de 2026, na sua casa em Vila Viçosa; tinha 68 anos e sofreu um ataque cardíaco súbito - é preciso aceitar que o seu cinema não é entretenimento, mas um confronto físico com a verdade. Canijo, que dedicou a carreira a impedir-nos de desviar o olhar de nós próprios, deixa-nos completamente expostos ao espelho que nos espeta à frente da cara em todos os seus filmes.
O seu estilo é o de uma clínica do desespero. É o que vemos na cena central na cozinha de "Sangue do meu sangue" (2011). Não é apenas uma cena de família; é um ecossistema de microagressões.
A câmara está ali, imperturbável, enquanto as personagens de Rita Blanco e Anabela Moreira se movem num espaço que é simultaneamente um útero e uma prisão. O som é cacofónico - Canijo não limpava o áudio; queria que o espectador sentisse a irritação do óleo a fritar e da televisão a debitar inutilidades enquanto o destino trágico se selava. "O que me interessa é o que os corpos dizem quando as bocas mentem", dizia deste seu método de exaustão.
Canijo foi o autor que nos disse: "Os meus filmes são sobre a impossibilidade de amar sem destruir". No entanto, ao filmar essa destruição com tanta brutalidade - com tanta verdade -, estava a exercer o ato de amor mais radical que é possível: a atenção absoluta.
Sobre a circunstância final, Canijo era de uma sobriedade quase mística. Não a via a morte como um tabu, mas como a moldura necessária. Numa das suas reflexões mais citadas, agora com o peso da irreversibilidade, afirmou: "A morte é a única coisa que dá sentido à vida, porque lhe impõe um limite".
Nos seus filmes, a morte nunca é um disparo ou uma explosão; é uma erosão. É o hotel do seu díptico visceral "Mal viver/Viver mal"(2023), que o premiou com o Urso de Prata em Berlim, onde o tempo parece ter coagulado na dor. A análise daquelas cenas revela uma simetria de planos que expõem a sua claustrofobia, tanto técnica quanto existencial: enquadramentos que cortam o ar às personagens, deixando-as presas entre a herança do ódio e a impossibilidade de redenção.
O filme duplo oferece-nos duas perspetivas do mesmo espaço e tempo: em "Mal viver" focamo-nos na dinastia de cinco mulheres da família que gerem um hotel e que se odeiam com uma exatidão cirúrgica; em "Viver mal" a câmara vira-se para os hóspedes, cujas vidas são igualmente fragmentadas e miseráveis.
No primeiro, a dor é interna, tem uma precisão patológica; no segundo, a dor é performativa, quase teatral, projetada pelos hóspedes que trazem os seus traumas na bagagem.
No fundo, os dois filmes são um estudo sobre como a proximidade física é o melhor combustível para a distância emocional.
Um observador de feridas
A reação à sua morte súbita, visível no pesar coletivo das palavras do Presidente da República - "a morte precoce priva-nos de uma voz forte e singular no momento da sua maior afirmação, incluindo a projeção internacional", disse Marcelo Rebelo de Sousa, que o sublinha como "o cineasta que filmava o lado B de Portugal, a miséria, a emigração, a violência e o mau-gosto, num registo entre o melodrama, o documentário e o teatral" - revela um país que sabe que perdeu o seu melhor "observador de feridas".
Geométrico e maníaco, o seu cinema é um artefacto de uma intensidade quase insuportável, onde o real, mais do que retratado, parece ser torturado - até lhe ser extraída a confissão. Há nele uma obsessão minuciosa com o método, uma imersão que dissolve a fronteira entre ator e personagem, que refluem em obras de coração negro como "Noite escura" (2004) ou o telúrico "É o amor" (2013). O seu cinema é uma antropologia da tragédia doméstica, onde a câmara espreita o abismo em "Ganhar a vida" (2001) com uma crueza que é, simultaneamente, um ato de amor e um cerco psicológico às margens da nossa existência - da nossa má consciência.
A realidade que sangra ficção
O método de Canijo é - e não há forma suave de o dizer - uma espécie de cerco psicológico em que não há ação, há sedimentação. É uma espécie de ditadura criativa: cria o caos para depois o domesticar com uma pinça cirúrgica.
Canijo não entrega guiões; entregava condenações - sentenças que os atores enfiavam no coração.
O elenco fechava-se em cenários reais durante meses. Não é ensaio; é convivência forçada até que a linha entre a pessoa e a personagem se torne tão ténue que desaparece por completo, em que o criador despeja o conceito e as atrizes escrevem o seu destino. Os diálogos não são memorizados; são exsudados através de improvisações exaustivas que depois o cineasta esculpia na sala de montagem, a ilha onde exercia o seu controlo autocrático. É um processo de subtração brutal para chegar ao osso da emoção.
Super-realista, no cinema de Canijo a câmara não observa nem relata; a câmara é um voyeur, espreita. O objetivo é atingir aquele nível de verdade desconfortável - aquela angústia portuguesa - onde o espectador sente que está a invadir a privacidade de alguém que está prestes a ter um colapso nervoso.
No fundo, é cinema de atrito: mói a realidade até que a realidade sangre ficção.
Dois filmes novos já estão rodados
O realizador deixa dois filmes já rodados e agora em fase de pós-produção. Ambos refletem o seu método imersivo e colaborativo. "Encenação", rodado durante o verão de 2025, em Lisboa, tem Miguel Guilherme como protagonista - e alter-ego. O ator interpreta um encenador de teatro confrontado com a idade e as relações com as suas atrizes, Rita Blanco, Anabela Moreira e Beatriz Batarda.
"As Ucranianas" é uma obra autónoma que saiu de dentro de "Encenação" e funciona como o espetáculo de teatro filmado da peça fictícia. É expectável que ambos os filmes estreiem num grande festival de cinema internacional ainda este ano ou em 2027.
"Cada plano que acaba é uma pequena morte", dizia João Canijo, e o que importa é o que fizemos com o tempo que tivemos. O cineasta usou o seu tempo em busca da "verdade absoluta", onde provou que "fazer filmes é tentar não morrer sozinho".
João Canijo morreu, mas o seu cinema garante que nenhum de nós terá de enfrentar o medo do escuro sem um guia que nos diga exatamente onde dói - e ainda que essa dor seja a dor da carne viva, ele está a levar-nos pela mão.
