
João Canijo venceu Urso de Prata no Festival de Berlim, em 2023
Foto: Martin Kraft/wikimedia.org
O realizador português de 68 anos morreu na quinta-feira vítima de um ataque cardíaco fulminante. Autor de uma obra central do cinema nacional das últimas décadas, João Canijo foi distinguido com o Urso de Prata no Festival de Berlim, em 2023, pelo filme "Mal Viver".
João Canijo morreu durante a noite de quarta-feira, na sua residência em Vila Viçosa. O corpo do realizador foi encontrado a meio da tarde de quinta-feira pela empregada de limpeza, segundo informação confirmada por produtoras com quem trabalhou ao longo da carreira.
A Midas Filmes, produtora habitual do cineasta, confirmou o óbito. Também a Medeia Filmes assinalou a morte de João Canijo numa publicação nas redes sociais, onde evocou uma frase da sua autoria: "A verdade é a interpretação que cada um faz da realidade. E é uma escolha que cada um faz da realidade".
Natural do Porto, João Canijo iniciou o percurso profissional no cinema na década de 1980, sobretudo como assistente de realização, colaborando com realizadores como Manoel de Oliveira, Paulo Rocha e Wim Wenders. Estreou-se na realização em 1990 com a longa-metragem "Filha da Mãe" e assinou igualmente a série televisiva "Alentejo Sem Lei".
Ao longo de mais de três décadas, construiu uma filmografia marcada por um olhar rigoroso sobre a sociedade portuguesa, observada a partir do interior das famílias. Os seus filmes exploram conflitos latentes, tensões emocionais e relações de poder, quase sempre ancorados em personagens femininas de forte densidade dramática.
Um cinema de famílias e feridas abertas
Filmes como "Sapatos Pretos" (1997) e "Sangue do Meu Sangue" (2011) afirmaram João Canijo como uma das vozes mais singulares do cinema português contemporâneo. Em 2023, alcançou um dos maiores reconhecimentos internacionais da sua carreira com "Mal Viver", distinguido com o Urso de Prata no Festival de Berlim.
O filme retrata uma família de mulheres de diferentes gerações que gere um hotel, presa a um quotidiano marcado por ressentimento e rancor, abalado pela chegada inesperada de uma neta. A narrativa articula-se com "Viver Mal", longa-metragem que decorre em paralelo e acompanha as histórias dos hóspedes que passam pelo hotel.
Os dois filmes foram escolhidos como candidatos de Portugal a uma nomeação para os Oscars e deram origem, em 2024, à série "Hotel do Rio", exibida na RTP, apresentada como a "visão total" do enredo cinematográfico. As três obras contam com interpretações de Anabela Moreira, Rita Blanco, Madalena Almeida, Cleia Almeida, Vera Barreto, Nuno Lopes, Filipa Areosa, Leonor Silveira, Rafael Morais, Lia Carvalho, Beatriz Batarda, Carolina Amaral e Leonor Vasconcelos.
Numa entrevista concedida ao JN, em maio de 2023, João Canijo assumia uma visão fatalista das relações familiares. "As relações familiares são, por definição, muito violentas", afirmava, sublinhando que não acreditava em verdades absolutas: "Não há verdade, só há realidade. A verdade é uma interpretação da realidade, que cada um faz".
O cineasta deixa dois filmes concluídos e em fase de pós-produção, "Encenação" e "As Ucranianas". A sua morte representa uma perda profunda para o cinema português e para uma obra que nunca deixou de confrontar, com rigor e frontalidade, os territórios mais íntimos da experiência humana.

