Gonçalo M. Tavares lembra Lobo Antunes e a "obsessão boa por escrever até ao fim"

Foto: José Manuel Ribeiro/AFP
O escritor Gonçalo M. Tavares recordou António Lobo Antunes, que morreu, esta quinta-feira, aos 83 anos, como alguém que "marca completamente a literatura portuguesa" e em quem admira, entre outros, a "obsessão boa por escrever até ao fim".
"É um dia muito triste, no geral, para a Cultura e para a Literatura", começou por dizer Gonçalo M. Tavares, em declarações à Lusa, falando de António Lobo Antunes como "um escritor absolutamente importante, absolutamente central, que desde os primeiros livros até aos últimos teve sempre na linguagem - numa espécie de vertigem da linguagem -, o seu centro".
Para Gonçalo M. Tavares, António Lobo Antunes é "um caso extraordinário de alguém que criou uma forma de a língua se exprimir". "Através de repetições, apanhando muito a fala popular, o 'deslarga-me', a conversa de café, apanhando muito as repetições, apanhando tiques de linguagem e retransformando-os num conjunto de vozes infinitas de grande literatura", justificou.
Além disso, considera que Lobo Antunes "deve ser um dos autores que mais influenciou outros autores". "Ele falava de se ler um livro quase como se apanhasse uma gripe, uma doença. Eu acho que muitos escritores, muitos leitores, apanharam o vírus, o seu vírus benigno, o seu vírus bom, da linguagem", disse, defendendo haver "inúmeros escritores, de diferentes gerações, que se vê que leram António Lobo Antunes".
Gonçalo M. Tavares recorda-se bem de, em jovem, ter lido livros como "Memória de Elefante" e "Os Cus de Judas" e do impacto que tiveram em si.
O escritor identifica na escrita de Lobo Antunes várias fases, mas "há duas muito essenciais": a das primeiras obras, que o impactaram "muitíssimo, até porque foram os primeiros", e a das últimas. "Estes últimos livros são livros em que ele assume que a linguagem é mesmo o centro daquilo a que podemos chamar romance. E já não está interessado na história, está interessado numa espécie de encantamento da linguagem. E tem livros nesta fase final que acho extraordinários a esse nível", referiu.
Gonçalo M. Tavares admira também em Lobo Antunes uma obsessão, "que os grandes escritores têm", com a escrita, "que é uma brincadeira uma pessoa escrever um livro, uma espécie de passatempo". "Uma pessoa começa a escrever aos 20, aos 30 e depois continua aos 40, aos 50 e até aos 80. Certamente ele teve uma quantidade de convites extraordinários para ir para administrações, para cargos de super poder, e o que disse na sua prática foi 'eu quero escrever, preciso de escrever'. E eu admiro muito isso, essa obsessão boa. Obsessão por escrever até ao fim", explicou.
Gonçalo M. Tavares salienta ainda a importância das crónicas, "que António Lobo Antunes algumas vezes desvalorizava publicamente". "Há crónicas absolutamente incríveis. Há crónicas que estão nas melhores crónicas escritas em língua portuguesa, e há crónicas que têm uma densidade e uma intensidade absolutamente afetiva que é definitiva", considerou.
Além de ter recordado "um dos grandes, nomes da literatura", Gonçalo M. Tavares lembrou também "uma pessoa que foi, em diferentes momentos, muito generosa". "Tenho essa experiência prática da generosidade dele e é bom lembrar isso, porque às vezes há uma imagem do Antóbio Lobo Antunes mais pública que não corresponde a pequenos gestos que ele tinha, mais longe dos holofotes", disse. "Em termos literários e humanos é uma perda grande", reforçou.
O escritor António Lobo Antunes, um dos maiores nomes da literatura portuguesa desde a segunda metade do século XX, nasceu em Lisboa, em 1 de setembro de 1942. Licenciado em Medicina, pela Universidade de Lisboa em 1969, especializou-se em Psiquiatria, que mais tarde exerceu no Hospital Miguel Bombarda, também em Lisboa. Optou pela escrita a tempo inteiro em 1985, para combater a depressão que dizia ser comum a todas as pessoas. A República Portuguesa condecorou o autor com o Grande Colar da Ordem de Sant'Iago da Espada, em 2004 e, em 2019, com a Ordem da Liberdade. França deu-lhe o grau de "Commandeur" da Ordem das Artes e das Letras, em 2008. Foi Prémio Camões em 2007.
