
"Agustina Bessa-Luís será sempre única e inimitável", reforça Isabel Rio Novo
Artur Machado/Global Imagens
A autora da biografia de Agustina Bessa-Luís sublinha o caráter "atemporal" da sua obra, mas também a forte surpresa que a habita. "Encontramos sempre uma frase que nos interpela, nos perturba ou nos alivia", diz Isabel Rio Novo.
"Agustina não nasceu nem escreveu para estar guardada ou confinada ou servida a conta-gotas", defende a autora da biografia "O poço e a estrada", para quem a obra agustiniana não precisa de pretextos para que possa ser lida e recuperada.
Por que continua a ser fundamental ler Agustina Bessa-Luís?
Primeiro, porque é uma das enormes vozes da nossa literatura. Consideraram-na genial ou ilegível, mas sempre única e inimitável. Depois, porque o seu universo é universal e atemporal: será tão atual no próximo centenário da autora como hoje é. Por último, porque, como uma das suas grandes leitoras e amigas disse, abrimos ao acaso um qualquer livro de Agustina e encontramos sempre uma frase que nos interpela, nos perturba ou nos alivia.
Como grande leitora, que textos de Agustina ainda te continuam a apaixonar de cada vez que os lê?
Não sendo especialista no estudo da obra de Agustina, o certo é que durante a escrita de «O Poço e a Estrada» a reli por inteiro, sabendo o quanto continha de referências autobiográficas e memórias familiares, que a própria escritora assumiu e cuja interpretação autorizou e sublinhou. Nesse sentido, a biógrafa é devedora de quase todos os textos da autora. Enquanto leitora apaixonada de Agustina, que também sou, ou que principalmente sou, continua a ser difícil para mim escolher apenas um ou outro título. Mas há dois romances a que regresso mais do que aos outros, talvez. Um deles é "Fanny Owen". O outro é "A Ronda da Noite".
O que espera que as comemorações tragam e quais deveriam ser os seus eixos principais?
Espero que tragam mais leitores da obra de Agustina. Lermos um escritor é a única forma de o mantermos vivo, e essa será a única vantagem das efemérides: servirem de pretexto para aquilo que, no caso de Agustina, não careceria de pretexto nenhum. E espero que essas leituras sejam múltiplas, livres e desimpedidas. Agustina - acho que todos os que a conheceram concordarão nisto - não nasceu nem escreveu para estar guardada ou confinada ou servida a conta-gotas.
