
Seinfeld reuniu em livro os melhores momentos da carreira
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Manual de escrita humorística, "best of" num só volume ou improvável biografia artística? "Isto tem piada?", primeiro livro de Jerry Seinfeld em 25 anos, é tudo isto junto, tão abundante e rico é o material que contém, confirmando aos distraídos a impressionante carreira do comediante norte-americano.
De meados da década de 1970 até à atualidade, são mais de quatro décadas de um percurso largamente construído nos clubes de comédia, mas que ganhou uma visibilidade exponencial quando protagonizou, nos idos de 1990, a série que ainda hoje é considerada uma das melhores "sitcoms" de sempre.
Essa associação à sua figura histriónica e faladora é ainda hoje tão forte que, ao ler alguns dos "sketches" incluídos no livro, o leitor fica com a estranha sensação de ter a seu lado o próprio humorista a contar-lhe o desenvolvimento da história...
Agrupadas por décadas, as piadas revelam a coerência de Seinfeld através dos anos. Em textos por vezes separados por décadas, encontramos as mesmas obsessões com as ditas trivialidades da vida, a atenção aos detalhes e a irresistível atração de encontrar o absurdo no quotidiano.
As principais diferenças talvez residam na forma como, nos "gags" mais recentes, demonstra que tecnologia tem vindo a ditar-nos cada vez mais ordens. A "ditadura dos aparelhos" de que fala dá origem a alguns dos mais hilariantes textos desta recolha: "Andamos tão hipnotelefonizados. Não sabemos qual é a nossa taxa de colesterol. Não sabemos qual é a nossa tensão arterial. Mas sabemos que percentagem de bateria temos no telemóvel".
Outra das "nuances" curiosas é a lenta transformação de solteiro incorrigível nas décadas em pai de família assoberbado de compromissos. Um papel que serve para refletir sobre a hiperproteção que rodeia os miúdos de hoje face ao "salve-se quem puder" dos tempos em que era uma criança.
A dimensão mais biográfica de "Isto tem piada?" aparece-nos logo nas páginas iniciais. No seu tom franco e desarmante, Jerry Seinfeld evoca o papel decisivo que figuras como Lenny Bruce ou Andy Kaufman tiveram na decisão de querer ser comediante. E, pese embora o prazer de "ser bem sucedido" e "ter feito dinheiro com o humorismo", garante que "o que me moveu foram os risos, desde o primeiro dia até hoje".
