Jonathan Millet realiza “Os Fantasmas” thriller político sobre casos verídicos.
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Uma das primeiras obras mais admiradas do cinema francês da última temporada, com estreia mundial em Cannes, “Os Fantasmas”, primeira incursão na longa-metragem de ficção de Jonathan Millet, tem como personagem central um homem que pertence a um grupo que busca criminosos da guerra da Síria. Numa missão que o leva a França, vê-se confrontado com o carrasco que o torturou. Estivemos a conversar com o realizador.
O filme baseia-se em factos verídicos. Porque se decidiu pelo thriller?
Tinha imenso material sobre o caso verídico, tinha de encontrar o meu caminho, para poder envolver o espetador, para que ele sentisse a história. A minha ideia foi que de princípio ao fim do filme estivéssemos no interior da mente da personagem. Com as suas dúvidas, com as opções que tem de tomar, com a perceção que tem do mundo. Esteve muito tempo preso, tem a sua própria maneira de ver, de cheirar. Os seus sentimentos estão sempre muito apurados e queria que isso passasse na narrativa.
Que tipo de pesquisa fez?
Eu queria fazer um documentário sobre refugiados de guerra. Falei com muitos sírios, que me contaram coisas sobre as prisões, as vidas destroçadas, todos os horrores que o país passou, em 2015 e 2016. Aos poucos comecei a ouvir histórias sobre caçadores de provas, uma rede de pessoas em busca de justiça. Histórias incríveis, que andei a pesquisar durante ano e meio. Fiquei com a certeza que este era o filme que queria fazer. Foi o material recolhido para o documentário que me levou a esta intriga.
Até que ponto se manteve próximo da história real?
Estrasburgo é um espaço ficcional. A história passou-se na Alemanha, porque os refugiados sírios estão todos na Alemanha. Como Estrasburgo está mesmo na fronteira com a Alemanha, foi o meu espaço de liberdade.
E as personagens principais, baseiam-se em alguém em especial?
Ambas são inspiradas em duas pessoas diferentes. Se não fosse assim, teria ficado demasiado pegado à realidade e os atores iriam querer falar com as pessoas em que me inspirei. Precisava de liberdade com o ator para ir à procura de coisas que pudessem definir a personalidade da personagem. Não queria uma cópia.
Já fez vários documentários antes desta primeira longa de ficção.
Também fiz uma pequena. Mas gosto de misturar ficção nos meus documentários e as minhas ficções são muito baseadas na realidade. As fronteiras entre ficção e documentário não são muito grandes. Quando recolhi todos os testemunhos, todos os documentos, sabia que tinha de utilizar todas as ferramentas da ficção para que o filme fosse tão forte como as histórias que tinha ouvido.
Até que ponto a sua experiência como documentarista, mas também como fotógrafo, influenciou este filme?
Passei um ano na Síria, antes da guerra, isso deu-me um laço muito forte com o país, tenho vários amigos lá, vi vários vídeos feitos durante a guerra. Todo esse tempo foi a minha escola de cinema. Ensinou-me como filmar alguém, como ganhar a confiança das pessoas, como conseguir o que se quer, como capturar uma atmosfera.
Algum exemplo concreto dessa vantagem que teve em conhecer bem o local?
Por exemplo, neste filme filmámos muito nos locais onde a ação se desenrolara, como um centro de refugiados na Síria. Os produtores disseram-me que os iam recriar noutro sítio, mas pedi-lhes tempo e consegui filmar em todos os locais que queríamos. Foi isto que trouxe da minha experiência.
Precisamente, como é que conseguiu convencer os produtores que havia um filme a fazer sobre isto, sobretudo um primeiro filme?
A primeira vez que falei do filme à minha produtora disse-lhe que era um filme sobre duas pessoas numa biblioteca, que não se mexiam, mas era muito intenso. Nessa altura não parecia óbvio, mas eu sabia que ia ser bom. Ia ser um desafio, porque temos três países, várias línguas faladas, atores de vários pontos do mundo. Mas isso também nos ajudou a encontrar financiamento. E o filme não se parecia com nenhum outro primeiro filme francês. Mas nunca pensei que fosse tão difícil fazer o filme.
Percebo o que quer dizer com não se parecer muito com um primeiro filme francês. Mas estar na Semana da Crítica de Cannes é excelente para o filme.
O filme pode ser visto em qualquer lugar do mundo. Os cinco atores principais vêm de países diferentes e nenhum é de França, o que gosto realmente. Estou muito excitado, Cannes é o melhor lugar para estar. E estou muito contente porque vamos estrear também no Médio Oriente, o que era muito importante para nós.
Como é que usou os códigos do filme de espionagem? “Os Fantasmas” também é um filme de espionagem.
É e gosto que seja. Quando ouvi as histórias daqueles refugiados pensei logo num filme de aventuras e de espionagem. O que estavam a viver, nas vidas reais, era incrível. Pensei logo num filme de espionagem quando um dos exilados me disse que não podia revelar o seu próprio nome.
Dentro do género de filme de espionagem, tem alguma referência?
Não tenho grandes referências, queria fazê-lo à minha maneira. E com uma dimensão humana. Vemos tudo através dos olhos de Hamid. Não há cenas muito espetaculares, como em outros filmes, mas queria que fosse sempre intenso. Para mim o grande clímax, a grande batalha entre os dois heróis, é quando se encontram face a face a falar da vida.
Mas com o som, com a montagem, com os utensílios da narrativa, queria que o espetador sentisse que era a maior batalha que alguma vez viram.
O primeiro plano do filme dá logo daquilo a que vamos assistir…
Esse plano era importante, porque nos dá logo o programa do filme. Diz-nos que não vamos ver logo tudo, que o espetador deve ir passo a passo e usando a sua imaginação. Estamos num local verídico, muitas das pessoas que vemos são verdadeiros refugiados sírios. Queria mostrar os rostos e os corpos deles. Mas os sons são ficcionais. Há logo uma mistura de real e ficção.
O Adam Bessa está presente em todo o filme. Como o escolheu?
Foi um longo processo, precisava do ator certo. Quando conheci o Adam, senti que tinha a intensidade e a interioridade que andava à procura. Queria alguém que bastava que se sentasse, tranquilamente, para que sentíssemos a perturbação na sua mente e todas as partes do seu corpo a tremer. Tínhamos de acreditar que tinha passado pela pior guerra de sempre. Precisava que o espetador tivesse uma conexão imediata com ele.
Como trabalhou com ele a personagem?
Passámos muito tempo a trabalhar sobre os gestos. Qual a postura de alguém que passou dois anos na prisão. Como é que o espetador percebe que há algo de quebrado no seu interior. Em pequenas coisas, como é que ele se senta, como é que se mexe, como é que fala.
Uma das curiosidades do filme é a utilização de imagens de jogos de vídeo.
O único local seguro na internet para falar de bombas, terrorismo ou matar outras pessoas são os jogos de vídeo de guerra. Achei que era uma ideia incrível. Não pude usar jogos que já existissem, por causa do orçamento, mas criámos jogos que realmente se podem jogar. E para ser mais realista, criámos paisagens que se parecessem com as do Médio Oriente.
