
"Sou exatamente o mesmo que em 1978", diz o artista de 81 anos
Maria João Gala / Global Imagens
"10 000 anos depois entre Vénus e Marte", álbum mítico de rock progressivo de 1978, será interpretado, este sábado, pela Orquestra do Norte na Casa da Música.
"Estávamos no limiar de uma guerra, com dois blocos a procurarem a hegemonia militar. E o Mundo estava cheio de poluição e miséria"...
Aceitam-se apostas sobre qual a época aqui descrita por José Cid. Será 1978, ano do lançamento de "10 000 anos depois entre Vénus e Marte"? Ou será 2023, ano em que o músico interpreta o mítico álbum de rock progressivo, na Casa da Música, no Porto, acompanhado pela Orquestra do Norte? Está aqui em pauta a Guerra Fria ou a Guerra da Ucrânia? Para qualquer cenário serve o álbum conceptual de Cid. O que é uma infelicidade para o Mundo. Não necessariamente uma infelicidade para a música.
Até porque é uma "solução" aquilo que ela procura: "É um álbum de esperança acima de tudo", diz o cantor ao JN. A humanidade tanto se empenha que consegue arrasar de vez com o planeta. E 10 mil anos depois da destruição, um homem e uma mulher regressam com o objetivo de repovoar a Terra.
É esta a sinopse do disco de sete faixas que juntou José Cid, Ramon Galarza, Zé Nabo e Mike Sargeant. "Foi uma coisa completamente naif. Há um apocalipse e depois vem a catarse: a civilização será reconstruída, o Planeta voltará a ser verde", explica Cid no inconfundível tom da criança que nunca abandonou o corpo do músico que tem hoje 81 anos. E porque é que a história se repete? "Os que preencheram os lugares do poder, na minha geração, não foram os sonhadores".
Para o espetáculo de hoje na Casa da Música, haverá dose reforçada de esperança. Antes da execução de "10 000 anos...", ouvir-se-ão seis temas de "Vozes do além", álbum de 2021 que trabalha sobre 15 poemas de diferentes autores - de Sophia de Mello Breyner, cujos versos de "Um dia" estão na base de todo o projeto, a Natália Correia, Fernanda de Castro, Lorca ou Manuel Lamas - focados no tema da "vida depois da morte".
"O álbum é uma panaceia para vida das pessoas", garante José Cid. "Isto tudo é apenas uma passagem. O corpo talvez ressuscite, mas a reencarnação da alma é inevitável, nem que seja noutro hemisfério".
Sala Suggia esgotada
Apesar de "Vozes do além" ser um regresso ao rock sinfónico e progressivo, o cantor rejeita uma ligação temática com o seu opus de 1978.
"O "10 000 anos" contava uma história do princípio ao fim. No "Vozes do além" estão as visões diferentes de 15 poetas". O que há em comum é José Cid - "sou exatamente o mesmo que em 1978", diz o artista - e a sonoridade, dominada por sintetizadores e pelo teclado do Mellotron. O músico não poupa nas taxonomias: "São ambos sinfónicos e progressivos, com "power ballads" e música de fusão".
No concerto de hoje, a dividir os dois blocos - o primeiro com Cid e o seu octeto; o segundo com a soma da Orquestra do Norte dirigida pelo maestro Rui Pinheiro -, haverá ainda a atuação de Jessica Carrascalão Heard, enteada de Cid e "a melhor soprano da Austrália", que irá interpretar um tema da ópera "La bohème".
Mas a atração que já esgotou a Sala Suggia é mesmo "10 000 anos...", esse álbum tido como essencial pelos principais sites e publicações especializados em rock progressivo, como o Prog Archives ou a Sputnikmusic, mas que em Portugal, à data do lançamento, passou quase despercebido.
À frente do seu tempo
"Foi um objeto estranho no seu tempo", reconhece o músico. "Foi apreciado por um nicho muito pequeno, mas passou ao lado do grande público. Até chegaram a usar algumas músicas como separadores de publicidade. [risos]".
Quem logo percebeu o potencial do álbum foi Arnaldo Trindade, fundador da Orfeu, que seria o selo de "10 000 anos". Mas só em 1994, com a reedição da Art Sublime, de Los Angeles, é que o álbum conquistou o seu prestigiado lugar no universo do rock progressivo. "Hoje é um objeto de culto", exclama Cid. "Há sites japoneses a venderem originais de 1978 a cinco mil dólares".
