
Companhia Portuguesa é dirigida por Susana Lima, ex- "prima ballerina"
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Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo estreia peça histórica.
26 anos depois de morrer, a voz de Amália ergue-se, paira sobre a plateia e cai como um trovão, ou como veludo cintilante, no Círculo das Bellas Artes de Madrid. Ovação de pé, sala cheia, cheia de respeito emocional. "AmarAmália", a evocação "de profundis" do coreógrafo Vasco Wellenkamp, estreou anteontem no teatro referencial da capital espanhola, aos pés da Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo, no convite da Embaixada Portuguesa que encerrou as celebrações do programa "Portugal-Espanha: 50 anos de cultura e democracia". José Augusto Duarte, o embaixador nacional em Madrid, falará da "emoção dos irmãos peninsulares".
Ouça aqui a reportagem áudio do JN:
É uma singularidade histórica, "AmarAmália" tem a unanimidade dos mitos. Foi criada em 1990, evoluiu em corpos sequentes, vai na sua sétima versão, percorreu Portugal, o mundo e o mar, de Lisboa a Macau, Roma, Remscheid, Genebra, São Paulo, Zagrebe, Nova Iorque. É um assombro a bailar.
Escreveu Anna Kisselgoff no "The New York Times" em 2004, a decretar píncaros para o ensemble nacional que arrebatava o Joyce Theater: "É apaixonante e entorpecedora. Os bailarinos da Companhia Portuguesa, em estado de melancolia perpétua, estão entre os melhores do ano. O coreógrafo captura na perfeição o anseio desimpedido do fado, a canção nacional de Portugal, e canaliza-o para o vigor explosivo dos bailarinos, que levantaram o público na estreia nos EUA".
Susana Lima, que há 35 anos era "prima ballerina", e hoje dirige a companhia, está no backstage das Bellas Artes, está nervosa. "Sim, mas é um orgulho enorme, fico sempre nervosa, mesmo agora do lado de cá. Esta peça é enorme, tem um caudal histórico enorme, a voz imortal da Amália, a criação intemporal do Vasco, a interpretação deles, é tudo tão bom que é um prazer imenso vê-la cá. Esta peça é a alma portuguesa perfeita".
O coração espatifado
"AmarAmália" espatifa o coração: a alma está ali transfixada em dez fados, mais dez arroubamentos avant-garde de Carlos Zíngaro, e percorre sentimentos terríveis: o desejo interrompido nas grandes paixões humanas, tristeza, estranhamento, separação e a fuga de uma ferida viva coberta de sal, arrebatada, a gritar.
O cenário de luz esfumada e nua, onde só vemos uns bancos de correr, é mínimo e sepulcral - tanto pode ser uma igreja abandonada, uma caverna, uma antiga paisagem lunar ou um abismo disfarçado de oferenda de amor -, onde cinco homens e cinco mulheres - são elas que comandam todo o mar emocional - sulcam o seu desgosto. Com a voz de Amália sempre a pairar na sua respiração de animal divinal, os bailarinos volteiam em sucessivas danças curtas e não narrativas entre os bancos de madeira móveis e fazem deles o seu revés: são tábuas de uma cruz, de um naufrágio, são tábuas de um caixão.
Projeção do amor como alucinação geral, "AmarAmália", que o público interrompia com erupções espontâneas de palmas, é um conto de fadas de terror - mas tem tanta doçura que é como a luz do sol na boca da manhã. É a peça que baila na voz perpétua de Amália, a mais bela, maior do que a montanha, maior do que a sorte, maior do que a morte.
"Queremos dar a Espanha o melhor de Portugal"
Foi escolha de José Augusto Duarte, e da sua conselheira cultural, Helena Teixeira da Silva, trazer a Madrid "AmarAmália". A estreia arrebatou o embaixador: "A sala das Belas Artes intimida e emocionei-me. A peça é belíssima, é clássica, é contemporânea, tem a voz imortal de Amália. É isto que queremos, dar a Espanha o melhor de Portugal". O diplomata sobreleva: "Cultura e democracia são indissociáveis do crescimento mútuo. A nossa relação é muito diferente hoje do cinismo e da desconfiança de há anos" e fala de "amigos peninsulares e irmãos".
