José Pacheco Pereira partilha o seu infindável arquivo pessoal num estimulante volume.
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A desvalorização progressiva do saber nas sociedades contemporâneas só vem tornar ainda mais premente a ação dos que ainda vão tentando travar este processo, provavelmente irreversível. Se nos cingirmos à sociedade portuguesa, não encontraremos seguramente muitos exemplos com a consistência e profundidade de José Pacheco Pereira.
Basta para tal invocar o seu impressionante arquivo "Ephemera" - parcialmente disponibilizado online -, um autêntico projeto de vida cuja validade se estende muito para lá de qualquer existência terrena. Os mais de 100 mil documentos que integram o acervo são uma ferramenta preciosa para uma compreensão alargada das mudanças sociais, políticas ou culturais operadas em Portugal através dos tempos.
Embora não verse especificamente sobre este arquivo, "Personalia" ajuda-nos não só a balizar o seu grau de compromisso perante esta autêntica missão, mas sobretudo entender um pouco melhor o homem para lá da imagem pública, tantas vezes turvada com base em simplificações ou leituras demasiado apressadas.
Ser "especialista do efémero", como o próprio Pacheco Pereira se autodefine no final da nota introdutória deste volume, é um cartão de visita válido para quem sempre foi um devoto estudioso das publicações periódicas.
Mas acaba por ser também um rótulo algo empobrecedor, porque transmite uma imagem de fugacidade que talvez não se aplique em pleno a documentos cujo caráter de permanência é mais elevado do que poderíamos julgar.
Na primeira parte de "Personalia", o antigo embaixador português na UNESCO recupera textos que escreveu no seu blogue Abrupto. São textos que valem sobretudo pela capacidade de estabelecerem ligações entre o passado e o presente a partir de acontecimentos soltos, aparentemente insignificantes, na vida de figuras notórias do seu tempo.
É, todavia, na segunda parte do livro que a dimensão pessoal se encontra mais vincada. Nesses textos, Pacheco Pereira rememora episódios idos mas marcantes, como a proximidade com Eugénio de Andrade, uma acidentada viagem a Moscovo na companhia de Mário Soares ou as suas deambulações pelo Portugal profundo quando era professor de História. Mais do que o passado a espreitar, é o reflexo da vida que assoma nessas páginas.
Personalia
José Pacheco Pereira
Tinta da China
