
Bardot desistiu do cinema em 1973 e dedicou-se à causa animal
Foto: Valery Hache/AFP
A lendária atriz francesa Brigitte Bardot morreu, aos 91 anos, anunciou este domingo a sua fundação. "A Fundação Brigitte Bardot anuncia com tristeza o falecimento da sua presidente, Madame Bardot, atriz e cantora mundialmente conhecida que decidiu abandonar uma carreira de prestígio para se dedicar ao bem-estar animal", avançou, em comunicado.
Em novembro, a atriz tinha sido internada, pela segunda vez, no sul de França, um mês depois de ter sido submetida a uma cirurgia. Na altura, a família e equipa pediram discrição, não revelando os motivos da nova hospitalização.
Em outubro, Brigitte Bardot foi sujeita a um procedimento cirúrgico relacionado com uma "doença grave".
Brigitte Bardot não nasceu mito. Tornou-se. E pagou caro por isso. Nasceu em Paris, em 1934, numa família burguesa, rígida, onde o corpo era educado para a contenção e não para o prazer. Antes de ser símbolo sexual, Brigitte Bardot foi bailarina clássica - disciplina, dor, espelhos. A ironia é perfeita: o mundo viria a adorá-la precisamente por aquilo que a educação tentou domar - a liberdade do corpo.

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A primeira grande imagem de Bardot não é uma fala, é uma postura. Um modo de estar. Quando surge no cinema francês dos anos 1950, algo se desloca. Não é apenas beleza. É disponibilidade - não submissão, mas presença.
Em "E Deus criou a mulher" (1956), de Roger Vadim, Bardot não interpreta Juliette: ela é Juliette. Uma jovem que dança descalça, que deseja sem culpa, que não entende por que razão o desejo feminino precisa sempre de castigo. O filme escandaliza porque a personagem não morre no fim. Não enlouquece. Não aprende a lição. Apenas continua a existir. Anos mais tarde, Bardot diria em entrevistas algo que hoje soa radical pela sua simplicidade: "Não sou uma atriz intelectual. Sou uma mulher que sente."
Essa recusa da intelectualização foi muitas vezes usada contra ela. Bardot nunca quis explicar-se. Nunca quis justificar o corpo. Nunca quis traduzir o desejo em teoria. E talvez por isso tenha sido tão profundamente mal compreendida.
Nos anos 1960, ela já não era apenas atriz - era símbolo. Usava o cabelo solto quando se esperava contenção, o biquíni quando se esperava recato, o silêncio quando se exigia discurso. Em "Le Mépris" (1963), de Jean-Luc Godard, o corpo de Bardot é filmado quase como um campo de batalha. O realizador fragmenta-o, enumera-o, interroga-o. O filme pergunta: quem olha? quem possui? quem perde? E Bardot, cansada, oferece uma resposta que não é resposta nenhuma - apenas o cansaço de ser vista.
Ela própria confessaria mais tarde: "Ser desejada por todos é uma forma sofisticada de solidão."
A sua filmografia é atravessada por mulheres livres que pagam um preço invisível. Em " La Vérité" (1960), Bardot interpreta uma jovem julgada não apenas por um crime, mas pelo seu modo de viver, amar e ocupar espaço. O tribunal é masculino, moralista, e o corpo dela é a prova do delito. O filme envelheceu bem porque o mundo mudou pouco.
Fora do ecrã, a vida amorosa de Bardot foi exposta como espetáculo público. Amou intensamente, repetidamente, desastrosamente. Casou quatro vezes. Tentou suicidar-se ainda jovem. Em entrevistas posteriores, falaria desse período com uma franqueza quase brutal: "Confundiram a minha liberdade com felicidade. Eu era livre, sim. Feliz, nem sempre."
Quatro maridos
Brigitte Bardot casou quatro vezes, e cada casamento marca uma fase muito distinta da sua vida - emocional, artística e simbólica. Nenhum deles foi apenas "romântico"; todos revelam algo sobre a relação difícil que ela sempre teve com o amor, a liberdade e a exposição pública.
Com Roger Vadim esteve casada entre 1952 e 1957, conheceram-se quando ela tinha apenas 15 anos e ele 22. Vadim era assistente de realização, ambicioso, culto, sedutor. Foi ele quem percebeu, e moldou, o potencial erótico e cinematográfico de Bardot. Casaram-se muito jovens, contra a vontade da família dela. O casamento foi intenso, mas desigual: Vadim construiu a imagem pública de Bardot enquanto ela ainda tentava descobrir quem era. O sucesso trouxe infidelidades, ciúmes e uma crescente sensação de instrumentalização.

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Mais tarde, Bardot diria: "Roger fez de mim uma estrela, mas eu deixei de saber quem era a mulher." Divorciaram-se quando a fama dela ultrapassou completamente a dele.
Jacques Charrier o segundo marido (1959-1962) era ator. Bardot casou-se com ele numa tentativa quase desesperada de normalidade. Deste casamento nasceu o seu único filho, Nicolas-Jacques Charrier, em 1960. A maternidade foi vivida por Bardot com enorme sofrimento psicológico. Ela nunca escondeu que não desejava ser mãe e que a gravidez lhe trouxe angústia profunda - algo chocante para a época, mas dito por ela com brutal honestidade. O casamento foi marcado por conflitos, violência emocional e um sentimento de aprisionamento. Bardot sentir-se-ia julgada, controlada e usada novamente.
Anos depois, confessaria: "Nunca fui feita para a vida doméstica. Aquilo destruiu-me." Este foi, provavelmente, o casamento que mais a marcou negativamente. O casamento com Jacques Charrier coincide com o período mais sombrio e psicologicamente intenso da sua filmografia. Bardot deixa de ser apenas símbolo sexual e passa a encarnar mulheres acusadas, condenadas, interrogadas. Aqui fez "A verdade" .
O terceiro marido (1966-1969) Gunter Sachs era um milionário alemão, fotógrafo e playboy internacional. O início da relação foi cinematográfico: ele mandou lançar milhares de rosas de um helicóptero sobre a casa de Bardot em Saint-Tropez. Casaram-se rapidamente. O casamento foi rodeado de luxo, viagens, festas e uma certa distância emocional. Sachs adorava Bardot, mas vivia num mundo próprio, hedonista e superficial. Este foi talvez o casamento mais "leve" - sem grandes escândalos, mas também sem profundidade suficiente para durar.
Durante este casamento fez filmes muito mais solares como "O desprezo" e "Viva Maria" .
Bardot resumiria mais tarde: "Era bonito, mas não era real." Divorciaram-se amigavelmente.
Aos 39 anos, no auge da fama, Bardot abandona o cinema. O gesto é quase inconcebível hoje. Não há escândalo, não há despedida triunfal. Há exaustão. Há um corpo que já não quer ser imagem. Retira-se para Saint-Tropez e transforma a energia do desejo público em outra coisa: ativismo.

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Amada por homens e por mulheres, que tentavam imitá-la, participou em cerca de 50 filmes, antes de abandonar a indústria cinematográfica, em 1973. Durante as gravações do seu último trabalho, "A Edificante e Alegre História de Colinot", nesse mesmo ano, a atriz deparou-se com uma cabra no set de filmagens e decidiu ficar com ela, de forma a salvá-la do abate. Desde então, dedicou-se por completo à causa animal. A defesa dos animais torna-se a sua nova luta, o seu novo amor absoluto. Aqui, Bardot volta a ser controversa - radical, intransigente, por vezes desconfortável. Recusa a diplomacia. Recusa agradar. Como sempre.
Diz, numa entrevista tardia: "Prefiro ser odiada por aquilo que sou do que amada por aquilo que inventaram sobre mim."
Nesta fase já mais tardia e pós-cinema, casa já em 1992 com Bernard d"Ormale é um político de extrema direita e empresário francês. Quando Bardot se casa com ele, já está afastada do cinema há quase 20 anos e totalmente dedicada à causa animal. Este casamento é o mais discreto, estável e duradouro. Bardot já não procura paixão avassaladora, nem admiração pública. Procura silêncio, lealdade e proteção. Apesar das polémicas políticas associadas a d"Ormale, Bardot sempre afirmou que encontrou finalmente uma forma de amor compatível com a sua necessidade de isolamento.
Ela própria disse:"O amor tranquilo só chega quando já não esperamos nada dele."
Hoje, Brigitte Bardot é uma figura impossível de simplificar. Feminista sem o dizer. Ícone sexual que rejeitou o sexo como espetáculo. Mulher livre que sofreu profundamente com a liberdade. Amada, odiada, usada, imitada. Talvez o seu maior legado não seja um filme, uma fotografia ou um penteado. Talvez seja esta pergunta que ainda hoje ecoa: O que acontece a uma mulher quando o mundo inteiro a deseja, mas ninguém a escuta?
Brigitte Bardot nunca respondeu. E talvez essa seja a sua forma mais honesta de resistência.

