Novo filme de Raoul Peck olha para a atualidade através da lente de George Orwell

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O novo filme do realizador Raoul Peck, com estreia em Portugal na quinta-feira, olha para a atualidade pela lente do escritor britânico George Orwell, mostrando que cada vez mais pessoas acreditam que dois mais dois não são quatro.
A Lusa foi à projeção para a imprensa de "Orwell 2+2=5", organizada pela produtora e distribuidora portuguesa Midas Filmes e, no final, conversou com dois dos jornalistas presentes na mesma sessão.
"É inquietante e assustador ir percebendo, ao longo das duas horas do filme, que as frases (citadas textualmente) de Orwell, falam de forma tão direta e óbvia para estes nossos dias", aponta Pedro Dias Almeida.
Com o elucidativo título "Orwell 2+2=5", o filme percorre, em jeito de colagem ao longo da História, o fascismo e o autoritarismo, a manipulação e a desinformação, a vigilância social, o desinteresse pela verdade e pelos factos.
"Muitas [pessoas], muitas mesmo, já acreditam firmemente que dois mais dois é igual a cinco", negando "todas as evidências", lamenta Pedro Dias Almeida, dando como exemplo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que consegue "defender um agente que dispara três tiros na cara de uma mulher desarmada sentada no seu carro".
"Não estamos diante de uma distopia, estamos diante de qualquer coisa que é um retrato da realidade", acompanha Isabel Lucas, assumindo que filme lhe causou "angústia, perplexidade, sufoco, uma sensação de falha".
Essa falha é do jornalismo mas também da sociedade. "O que é que foi falhando para chegarmos aqui, a este momento em que parece que a mentira faz parte da identidade deste tempo?", questiona.
Este contexto em que a mentira se instalou cria dificuldades ao jornalismo. "O que é que pode o jornalismo quando o compromisso do jornalismo é com a verdade, quando a verdade parece que deixou de ser um valor valorizado pela sociedade?", prossegue.
"Resistir, cumprir o seu papel, [...] mesmo sabendo que por cada excelente e bem sustentada investigação e denúncia se vão erguer milhares e milhares de vozes, de gente que provavelmente nem leu, nem viu, nem analisou esses trabalhos jornalísticos [a dizer]: "Jornalixo!"", propõe Pedro Dias Almeida.
A "defesa da verdade" convoca o jornalismo, mas este vive uma situação de "grande fragilidade", em que os líderes populistas o atacam "opondo-o à liberdade do povo nas redes sociais, como se fosse essa plataforma global o habitat natural da verdade e da denúncia contra as supostas elites", retrata.
"1984", uma das mais destacadas obras de George Orwell, pseudónimo de Eric Arthur Blair, nascido em 1903, é o fio condutor do filme. "Ignorância é Força", "Guerra é Paz" e "Liberdade é Escravidão" são três chavões proclamados pelo omnisciente "Big Brother", a personagem central do romance com o qual Orwell projetou o mundo para 1984, apesar de ter morrido 34 anos antes.
"As redes sociais, na sua lógica de funcionamento, são o sonho de qualquer aspirante a líder autoritário e controlador. Podiam ter sido inventadas num romance de George Orwell", nota Pedro Dias Almeida.
Por isso, "Orwell 2+2=5" até pode ser visto por milhões de pessoas, mas "muitas vão denunciá-lo como um filme manipulador e propagandista que tenta ridicularizar aqueles que estão a tentar salvar o mundo".
O que o jornalismo e os jornalistas fizerem "vai sempre ser lido com os olhos deste momento de polarização", acompanha Isabel Lucas. "Vamos sempre ser escrutinados, ou julgados, ou lidos, a partir de uma dessas posições", teme.
"Vivemos tempos negros", constata Pedro Dias Almeida, acreditando que "tudo ainda vai piorar, até que um dia, talvez, uma verdadeira ordem democrática e mais justa possa florescer".
O momento "tanto pede ação imediata como uma paragem para tentar perceber pelo menos e não ficar paralisado diante do que está a acontecer", mas, ao contrário, diz-se que a democracia está em risco "quase como se fosse uma ladainha que vai perdendo sentido", nota Isabel Lucas, reconhecendo: "É difícil não baixar os braços, não dizer que vamos ser derrotados."
Considerando que "Orwell 2+2=5" é "uma excelente e sólida obra de denúncia dos tempos que vivemos, com o autoritarismo a espreitar e a afirmar-se já de forma despudorada em democracias que considerávamos minimamente sólidas", Pedro Dias Almeida recomenda: "devia ser visto por todos". Isabel Lucas junta-se à recomendação, partilhando "uma vontade enorme" de mostrar o filme às pessoas com quem trabalha, nomeadamente estudantes. Seguindo a sugestão, a Midas Filmes está a planear sessões dirigidas a estudantes.
"Orwell 2+2=5", que teve antestreia no festival de Cannes, foi considerado pela revista "Time" como "o filme mais corajoso que alguém podia fazer agora", porque, "no momento da morte, é preciso insistir que a resposta [a 2+2] é quatro".
