
Michelle Yeoh em "Tudo em todo lado ao mesmo tempo": 11 nomeações
D.R.
"Tudo em todo lado ao mesmo tempo" é favorito sobre "A Oeste nada de novo". Mas "Os espíritos de Inisherin" também pode ganhar.
E se, pela primeira vez em 95 anos de Oscars - é esta madrugada, à 1 hora, direto na RTP -, ganhasse um filme de super-heróis? E se, por absurdo que parecesse ao Ocidente estrelar de Hollywood, esse filme tivesse um elenco quase todo chinês e os seus atores, que fariam discursos choramingados e emocionantes, também ganhassem? E se, além do mais, esse filme fosse uma comédia de ficção científica e ação hipercinética de indagação por mundos paralelos, com um delirante universo em que há uns humanos com dedos de salsicha, outros que são pedras com olhos atónitos e outros ainda que têm lutas épicas de kung fu mas com vibradores?
É isto "Tudo em todo o lado ao mesmo tempo", o filme de Daniel Kwan e Daniel Scheinert que, com 11 nomeações, é o perplexo favorito a ganhar o Oscar de melhor filme e arrasar Hollywood como a conhecemos. O casal protagonista é Michelle Yeoh e Ke Huy Quan, ambos nomeados (ele é o miúdo chinês dos "Goonies" e o Shorty de "Indiana Jones e o templo perdido", foi estrela aos 12 anos, depois desapareceu, reemerge agora, aos 51 anos, a sorrir), são donos entediados de uma lavandaria nos EUA e acedem a diferentes versões de si mesmos no multiverso e têm de salvar o mundo.
Queremos o real ou queremos é escapismo?
Alguns gostam de originalidade selvagem de "Tudo em todo o lado...", do seu original visual animé e do humor absurdista. Outros acham-no confuso e sem graça, repetitivo, chato, longo demais, presunçoso. Mas o filme e a sua metáfora sobre a vida dos imigrantes nos EUA também é liderado por mulheres, é visivelmente inclusivo - Yeoh seria a primeira asiática a ganhar o Oscar de melhor atriz - e, depois da vitória ressonante de "Parasitas" em 2020 (seis Oscars, incluindo filme, argumento e realizador para o sul-coreano Bong Joon Ho), o chavão é uma chapada de realidade: hoje tudo pode acontecer.
O filme que deveria ganhar é "A Oeste nada de novo", da Netflix e do alemão Edward Berger (nove nomeações). É, dos 10 candidatos, o que melhor traduz as trevas do mundo vigente em que a Rússia se abate, cínica, ursina, assassina, sobre o coração da democracia e da Ucrânia. Com 2.30 horas encharcadas de pavor, "A Oeste..." dá-nos o realismo agoniante do campo de batalha da I Guerra Mundial numa perspetiva desconhecida: a dos infelizes e ingénuos soldados alemães aliciados pela extrema-direita para a aventura da guerra. Com a sua patine de estranheza e súplica humana, este filme de guerra do nosso tempo, visceral e aterrorizante, é um filme sublime.
A vitória caía tão bem aos "Espíritos de Inisherin"
Mas o Oscar também ficaria bem na lapela de "Os espíritos de Inisherin" (nove nomeações), de Martin McDonagh, que o escreveu, produziu e dirigiu e conseguiu nomear quatro atores. Centrado numa ilha irlandesa pastoral e fictícia de 1920, com a guerra civil ao fundo, é um desconcertante drama burlesco, ou uma farsante comédia negra, que se dispõe a autopsiar a diáfana amizade masculina: dois amigos de longa data chegam a um impasse quando um termina abruptamente a amizade ("já não gosto de ti, é só isso", diz o personagem de Brendan Gleeson para o pascácio Colin Farrell), com consequências alarmantes para ambos. É um filme bucólico, habilidosamente simples, muito requintado e com um minimal, mas muito pasmoso, ingrediente de horror gore.
E os outros e ainda Brendan Fraser
O resto: "Avatar" não tem a mínima hipótese, "A voz das mulheres" muito menos (o confronto de realidade e fé das mulheres duma comunidade religiosa sob assalto da masculinidade tóxica é palavroso e hirto), "Tár" é maiormente Cate Blanchett (uma fascinante supernova feminina de Furtwängler, com emoções problemáticas e poder predatório; só ela faz frente a Michelle Yeoh), "Os Fabelmans", biografia do amor de Spielberg ao cinema é demasiado académico para os dias disruptivos de hoje, o barroco "Elvis" é só e exclusivamente o seu belo ator Austin Butler, e a vitória de "Top Gun: Maverick" (curioso: a ode ao imperialismo bélico americano é a absoluta antítese de "A Oeste nada de novo", o belo líbelo anti-guerra) é irrealista.
Linha final para Brendan Fraser: o bonitão sumido dos anos 90 reaparece como "A baleia" e é comovente no gordo mórbido que tenta ganhar o amor da filha adolescente. Mas o filme de Darren Aronofsky, que fez o excelente "O wrestler", escorre, é uma pena, pela pia abaixo com tanta adiposidade lamecha.
