
Ao cabo de três anos, os festivais de verão estão de regresso, para delírio de muitos milhares
Rui Oliveira/Arquivo Global Imagens
Com lotações esgotadas em perspetiva, promotores desvalorizam a previsível sexta vaga e garantem segurança dos recintos. Especialistas em saúde acreditam que o pico já terá passado quando se realizar a maioria dos espetáculos, em julho e agosto.
Três anos depois, os festivais de verão regressam em força e nem mesmo o aumento galopante do número de casos nas últimas semanas - que leva a que muitos especialistas considerem estarmos já na antecâmara de uma sexta vaga da pandemia - é capaz de perturbar o otimismo dos promotores de eventos.
À boleia de muitos detentores de bilhetes das duas últimas edições, que não chegaram a realizar-se, mas também pela ânsia do regresso, adivinham-se lotações esgotadas na maioria dos festivais.
Do JN North Festival, que se realiza já entre os próximos dias 26 a 28, ao Kalorama, entre 1 e 3 de setembro, os indicadores são amplamente positivos.
No Nos Primavera Sound Porto, marcado para o Parque da Cidade entre os dias 9 e 11 de junho, os passes gerais já esgotaram e o mesmo deverá acontecer no próximo par de semanas nos bilhetes diários.
José Barreiro, diretor do festival, diz esperar um desanuviamento dos casos em breve, mas, mesmo que a taxa de incidência se mantenha muito elevada, "o recinto será seguro", avaliza.
custos aumentaram 25%
O promotor sustenta a opinião no investimento feito nos acessos e em percursos alternativos dentro do perímetro para que as aglomerações sejam menos frequentes. Ainda assim, acredita que "a reação das pessoas e o seu comportamento no recinto será um reflexo da própria sociedade. Haverá quem tenha uma atitude mais livre ou relaxada, mas também quem vá procurar resguardar-se um pouco", adianta José Barreiro, para quem é fundamental "a noção de que vamos ter que´saber viver com a covid-19 ao longo dos próximos anos e, quem sabe, até décadas".
Mas nem tudo são boas notícias para os festivais. As consequências da inflação mais alta das três últimas décadas já se fazem sentir nos preparativos. Os custos de montagem e instalação das infraestruturas de suporte no recinto, como os palcos, zona de alimentação ou casas de banho, aumentaram 25% nos últimos meses, sem que esse valor se reflita no valor dos ingressos, que já começaram a ser vendidos muito antes dessa escalada.
proteger pais e avós
Com o número de casos de covid-19 a atingir repetidamente novos máximos em cada semana, é expectável que se assista a um abrandamento da positividade no pico dos festivais, ou seja julho e agosto.
Até finais de junho, a incidência deverá continuar em índices altos, para o que contribuem as festas populares que costumam marcar esse período e as grandes aglomerações de pessoas.
As previsões são de Óscar Felgueiras, matemático especialista em epidemiologia da Universidade do Porto, que considera que "a atual vaga deverá ser mais curta do que as anteriores". Por uma razão simples: "Como há menos restrições, o vírus circula mais rapidamente".
Mesmo que a severidade da atual situação esteja distante da verificada num passado recente, Óscar Felgueiras relembra que "ainda existem muitos óbitos". Por isso, recomenda algumas precauções a quem planear ir a um evento musical nos próximos meses. Apesar de os frequentadores habituais serem, na sua maioria, espectadores jovens, podem depois contagiar pais e sobretudo avós, "esses sim, pertencentes às faixas etárias vulneráveis".
A solução deverá passar, segundo o especialista, por uma "inibição de contacto" com estes parentes na semana seguinte à ida aos festivais ou, em alternativa, "pelo uso de máscara e distanciamento social".
Jovens regressaram em força aos eventos. Medo afasta os outros
Na reabertura do setor após o fim das restrições, faixas etárias tiveram comportamentos opostos.
A par do turismo, a Cultura terá sido o setor mais atingido pela pandemia, como apontaram sucessivos estudos sobre o impacto da covid-19 na sociedade. Um problema agravado pela precariedade crónica de uma parte significativa dos seus trabalhadores, em regime parcial, sazonal ou de falsos recibos verdes, à qual os apoios oficiais responderam de forma francamente ineficiente.
Durante os últimos dois anos, entre confinamentos totais e restrições parciais, a normalidade foi mesmo a exceção. Agora que o levantamento de quase todas as regras sanitárias até aqui vigentes é uma realidade - apesar do aumento abrupto do número de casos nas últimas semanas -, a questão impõe-se: o que mudou no nosso relacionamento com a Cultura?
Professor na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, com vasta obra publicada no âmbito da Sociologia da Cultura, João Teixeira Lopes defende ser "ainda cedo" para avaliar com a profundidade devida as alterações ocorridas ou em curso. Todavia, os primeiros dados parecem apontar para "um maior fosso geracional". "Mal as regras abrandaram, e as regras sanitárias se tornaram mais lassas, os jovens demonstraram uma grande vontade de regressar em força às iniciativas culturais, sobretudo ao ar livre. Ao invés, os mais velhos revelam também receios maiores", sustenta o sociólogo natural do Porto.
"Nada substitui o ao vivo"
Do que Teixeira Lopes tem mais dúvidas é sobre a suposta transferência definitiva para o digital de boa parte dos eventos culturais, que muitos davam como certa no auge da pandemia. Excetuando "o caso particular do cinema", o especialista acredita que o caráter presencial vai continuar a ditar leis no consumo cultural.
Essa visão é partilhada por José Barreiro, diretor do Primavera Sound Porto, que descarta o digital como alternativa aos concertos. "A pandemia ensinou-nos que não é solução. Nada substitui a energia de um espetáculo ao vivo", reforça.

