
Freepik
Embora os maiores ataques alérgicos pareçam ser desencadeados na primavera, a verdade é que as alergias podem surgir noutras alturas do ano. No inverno, os fungos e os bolores arriscam ser muito mais do que apenas uma questão estética e podem causar sérios danos na saúde. Especialista explica porquê, revela casos e deixa recomendações.
Uma criança britânica de dois anos desencadeou, em dezembro 2020, um alerta inesperado: os bolores da humidade também podem matar. O caso surge agora pela voz do presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC). Pedro Carreiro Martins conta que o pequeno Awaab Ishak sucumbiu na sequência de uma doença respiratória grave e "o inquérito concluiu que a exposição prolongada a humidade e bolor na habitação teve um papel determinante nesse desfecho".
Ficou provado, como refere o especialista, que "o bolor dentro de casa não é apenas um problema estético, pode ser um risco real para a saúde".
Apesar de o tema das alergias ser recorrente sobretudo na primavera devido aos pólens que se multiplicam pelo ar, a verdade é que as reações agudas podem chegar noutras alturas do ano e pro agentes distintos.
No caso do inverno, o perigo chega, muitas vezes, em forma de mancha nas paredes e tetos das casas mal isoladas. "Os fungos (bolores) libertam esporos e partículas microscópicas que permanecem em suspensão no ar. Ao serem inalados, entram em contacto com as vias aéreas e podem desencadear reações variadas, dependentes da suscetibilidade individual, da intensidade e duração da exposição e da existência de doença respiratória prévia", explica o também professor associado com Agregação da NOVA Medical School e assistente graduado de Imunoalergologia de São José.
Pedro Carreiro Martins, médico, professor e presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (Foto: DR)
Ao detalhe, o especialista revela que,"em alguns doentes, desenvolve-se sensibilização alérgica, com rinite, sinusite, conjuntivite e asma". "Nas crianças, a combinação de vias aéreas mais vulneráveis e maior tempo em casa tende a tornar o problema mais evidente, com pieira recorrente e infeções respiratórias mais frequentes", avisa. No entanto, os bolores podem causar complicações de maior dimensão. Apesar de se tratar de casos menos comuns, Pedro Carreira Martins destaca "pneumonites de hipersensibilidade". Refere que "a infeção invasiva por fungos é rara, mas em pessoas muito imunodeprimidas pode ser grave e potencialmente fatal".
Independentemente da gravidade, o especialista indica que os sinais passam por "congestão e corrimento nasal, tosse persistente, garganta irritada, pieira e sensação de falta de ar". Sintomas que agravam em pessoas com complicações respiratórias mais profundas.
Importa deixar de tratar o "bolor como algo 'normal' e aceitar, no quotidiano, que é um fator nocivo evitável", sublinha o especialista.
De entre as formas de evitar este tipo de contamminação, por via da prevenção, o presidente da SPAIC recomenda o controlo da humidade no interior da habitação. Para tal, recomenda "arejar diariamente, usar exaustor na cozinha e na casa de banho, reduzir a condensação (sobretudo no inverno), não encostar mobiliário a paredes frias e evitar secar roupa no interior sem renovação de ar". "Se existirem infiltrações ou fugas de canalização, nenhuma solução 'cosmética' é suficiente, é indispensável corrigir a origem", acrescenta.

