Beijos não provocam o mesmo em mulheres e homens. Saiba as diferenças, segundo especialista

man and woman at the lake to spend time in each other's arms
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Mais do que um simples gesto, o beijo é uma espécie de cola que vincula as pessoas e que tem impactos neurológicos sérios, funcionando como uma espécie de "check-in" emocional diário. Esta ligação não se manifesta de igual forma nas mulheres e nos homens, há até diferenças relevantes.
Os beijos não são todos iguais e, em contextos semelhantes, não provocam o mesmo em mulheres e homens. Nas primeiras, o gesto favorece maior libertação de "oxitocina, a hormona associada ao vínculo emocional, à confiança e à sensação de segurança", explica Catarina Graça. A psicóloga da Clínica da Mente refere que, no sexo masculino, este propósito "tende a envolver níveis mais elevados de dopamina e testosterona, hormonas ligadas à excitação, à motivação e ao desejo, fazendo com que o beijo ative de forma mais intensa o sistema de recompensa e o impulso sexual, sobretudo nas fases iniciais da relação".
Advogando que o o beijo deva ser um gesto diário, a falta dele pode ter impactos muito mais profundos do que o que se possa imaginar na relação, mas sobretudo processo biológico e neurológico da pessoa. Em dia dos Namorados, que se assinala este sábado, 14 de fevereiro, Catarina Graça explica porque não se deve nunca deixar cair este hábito, sobretudo em contexto de casal.
Quais os impactos de um simples beijo no rosto, nos lábios ou algo mais íntimo?
Embora pareça um gesto simples, o beijo envolve processos biológicos, psicológicos e sociais complexos, e os seus impactos variam conforme o tipo de beijo e o contexto em que ocorre. Estudos mostram que um beijo no rosto tem sobretudo um papel social, associado a afeto, respeito e proximidade, ativando levemente hormonas ligadas ao vínculo, como a oxitocina, mas sem despertar excitação sexual significativa.
O beijo nos lábios já provoca respostas mais intensas no cérebro, ativando áreas relacionadas ao prazer e à recompensa. Esta reação está associada à libertação de dopamina e oxitocina o que faz aumentar a atração e ajuda, de forma inconsciente, na avaliação de compatibilidade entre as pessoas. Por isso, mesmo que este beijo seja breve, pode gerar expectativas emocionais.
Beijos ainda mais íntimos, desencadeiam uma resposta neuroquímica mais forte, com aumento de dopamina, oxitocina e adrenalina. Esses processos estão ligados tanto ao desejo sexual quanto à criação de vínculos emocionais, podendo gerar sensação de intimidade e de vínculo, mesmo quando não há intenção consciente. Quando o beijo é acompanhado de contacto físico mais íntimo, os efeitos tornam-se ainda mais intensos, envolvendo todo o sistema de recompensa do cérebro. Nesses casos, a excitação física pode ser interpretada como ligação emocional, o que explica porque é que algumas pessoas desenvolvem um vínculo rapidamente.
De forma geral, a investigação indica que o impacto do beijo depende menos do gesto em si e mais do seu significado subjetivo. O contexto, as expectativas, a relação entre as pessoas e fatores culturais determinam se o beijo será apenas um sinal de carinho, um estímulo de atração ou o início de um vínculo emocional profundo.
Psicóloga Catarina Graça (Foto: DR)
Quantos beijos as pessoas, em contexto de casal, deviam dar por dia, em média? Porquê?
Não existe um número universal de beijos "correto" para um casal, mas existem estudos sobre intimidade e satisfação relacional que indicam que os casais mais felizes tendem a trocar vários beijos ao longo do dia, frequentemente entre cinco a quinze, embora a qualidade seja mais importante do que a quantidade. Beijos com presença e intenção, e não apenas gestos automáticos ou mecanizados, ajudam a manter ativo o vínculo emocional, através da libertação de hormonas como a oxitocina e a dopamina.
O beijo funciona assim como um "check-in emocional" diário, reforçando a identidade do casal e a sensação de proximidade. A investigação sugere que a frequência de beijos está mais fortemente associada à satisfação no relacionamento do que à própria frequência sexual, uma vez que o beijo mantém o contacto físico, a intimidade e a conexão afetiva no quotidiano.
Quando os beijos se tornam raros, o afastamento tende a surgir de forma gradual e muitas vezes inconsciente, afetando primeiro a intimidade emocional e só depois a sexual. Assim sendo, mais do que contar beijos, o essencial é que exista pelo menos um beijo diário que expresse desejo, cuidado ou ligação, garantindo que nenhum dos parceiros se sinta emocionalmente negligenciado.
Em contexto de casal, muitas pessoas vão deixando se de beijar ao longo do tempo. Quais os riscos?
Num casal, a diminuição ou desaparecimento do beijo ao longo do tempo representa um risco significativo para a intimidade e para a estabilidade da relação. O beijo é um importante regulador do vínculo emocional, estando associado à libertação de hormonas que promovem proximidade, confiança e ligação afetiva. Quando este gesto deixa de fazer parte do quotidiano, o afastamento emocional tende a instalar-se de forma gradual e muitas vezes impercetível.
A ausência de beijos contribui para a perda da identidade romântica do casal, que pode passar a funcionar sobretudo em termos práticos ou funcionais. Além disso, o beijo desempenha um papel central na manutenção do desejo sexual e quando desaparece, a sexualidade tende a enfraquecer ou a tornar-se menos espontânea, sendo este na verdade o primeiro sinal de deterioração da intimidade.
Outro risco importante é o aumento de interpretações negativas, como sentimentos de rejeição ou desinteresse, que podem gerar insegurança e ressentimento entre o casal. A longo prazo, a normalização da falta de contacto físico íntimo torna a reconexão mais difícil e aumenta a vulnerabilidade do casal a um distanciamento emocional ou a uma possível rutura.
O beijo não é um gesto acessório, mas um elemento fundamental na manutenção do vínculo afetivo, da intimidade e da vitalidade da relação.
Há diferenças na forma como homens e mulheres reagem biologicamente ao beijo?
Existem algumas diferenças subjetivas na forma como os homens e as mulheres reagem biologicamente ao beijo. Ressalvo que aspetos como a personalidade, a experiência individual, o contexto emocional e a qualidade da relação têm um papel tão ou mais importante que o sexo biológico. Ainda assim, é viável afirmar que as mulheres tendem a libertar mais oxitocina durante o beijo, a hormona associada ao vínculo emocional, à confiança e à sensação de segurança. Por esse motivo, o beijo pode ter um peso maior para muitas mulheres na avaliação da ligação emocional e da intimidade com a outra pessoa. Já nos homens, a resposta biológica tende a envolver níveis mais elevados de dopamina e testosterona, hormonas ligadas à excitação, à motivação e ao desejo, fazendo com que o beijo ative de forma mais intensa o sistema de recompensa e o impulso sexual, sobretudo nas fases iniciais da relação. Já no que diz respeito ao stress, tanto homens como mulheres beneficiam da redução do cortisol durante o beijo, mas por vias ligeiramente diferentes. Nas mulheres, esse efeito calmante parece estar mais associado à ação da oxitocina, promovendo relaxamento emocional e sensação de proximidade. Nos homens, a diminuição do stress tende a relacionar-se mais com a descarga de tensão física e com a ativação do prazer.

