Catarina Martins assume derrota e promete "continuar a lutar para quebrar tabus em Portugal"

A candidata presidencial Catarina Martins
Foto: Maria João Gala
Era a única mulher na corrida à presidência em Belém e assumiu este domingo, 18 de janeiro, que os resultados ficaram "muito abaixo" do que esperava. Catarina Martins, apoiada pelo Bloco de Esquerda, obteve cerca de 2.06% dos boletins, ficando em sexto lugar e endossou votos a António José Seguro numa segunda volta que será travada contra André Ventura, a 8 de fevereiro.
A candidata presidencial Catarina Martins reconheceu este domingo, 18 de janeiro, que o resultado obtido nas eleições ficou "muito abaixo do que esperava" e anunciou que vai apoiar e votar em António José Seguro na segunda volta contra André Ventura.
"Tive um resultado muito abaixo do que esperava e daquele para que lutei, mas quero agradecer a toda a gente que comigo fez campanha, a toda a gente que votou na minha candidatura", afirmou a candidata apoiada pelo BE.
Dirigindo-se aos seus potenciais eleitores que, respondendo aos apelos do voto útil de Seguro, votaram no candidato apoiado pelo PS, Catarina Martins assegurou que continuarão a encontrar-se "nas tantas lutas que a esquerda tem pela frente".
"Já felicitei António José Seguro pelo seu resultado e disse-lhe que contará com o meu voto na segunda volta contra André Ventura", revelou Catarina Martins.
Numa leitura dos resultados eleitorais, que colocam Seguro e Ventura na segunda volta, seguidos de João Cotrim Figueiredo, Henrique Gouveia e Melo e Luís Marques Mendes, Catarina Martins considerou ainda que os resultados são negativos para a esquerda no seu todo.
Quanto a si, acrescentou que, apesar da deceção face ao resultado, voltaria a candidatar-se e a realizar a campanha da mesma forma se o soubesse à partida.
"Vim a esta campanha para quebrar tabus (...), não alcancei o resultado que queria, mas quero dizer-vos que continuarei a lutar para quebrar cada um destes tabus em Portugal", sublinhou, acrescentando que "é essa a tarefa da esquerda".
"Estamos a assistir a uma viragem à direita em Portugal que nos deve preocupar a todos e a esquerda tem de dizer presente. Seguramente poderia ter feito muitas coisas melhor, todos nós podíamos, todos nós devíamos, mas digo-vos muito modestamente que fiz o melhor que pude e o melhor que soube", concluiu.
Apontando o resultado "muito expressivo para a extrema-direita e a direita radicalizada", a candidata manifestou-se preocupada e apontou a reconfiguração e "trumpização" da direita em Portugal.
"A resposta adequada neste momento é votar na segunda volta em António José Seguro, com os olhos bem abertos, para todas as lutas que vão seguir", insistiu.
Referindo-se a um candidato em particular, Catarina Martins comentou apenas a votação em Luís Marques Mendes, afirmando que "a hecatombe do resultado de Marques Mendes é a hecatombe do Governo e de Luís Montenegro, que são grandes derrotados desta noite".
Quinta mulher na corrida a Belém
Em 50 anos de eleições presidenciais desde o 25 de Abril, as candidaturas protagonizadas por homens foram a grande maioria, houve aproximadamente cinco dezenas de candidatos até agora, sem qualquer concorrente mulher em 1976, 1980, 1991, 1996, 2001, 2006 e 2011.
A primeira candidatura presidencial feminina foi protagonizada pela antiga primeira-ministra Maria de Lourdes Pintasilgo, há 40 anos, nas eleições presidenciais de 1986, em que ficou em quarto e último lugar, com perto de 419 mil votos, 7,38% dos votos validamente expressos.
Nessas eleições, em que a UDP lhe declarou apoio, Pintasilgo enfrentou Freitas do Amaral, apoiado por PSD e CDS, e Mário Soares, apoiado pelo PS - os dois que passariam à segunda volta, em que Soares foi eleito Presidente - e ainda Salgado Zenha, candidato vindo do PS, que teve apoios do PRD e do então Presidente Ramalho Eanes, e também do PCP.
Só passados 30 anos houve outras mulheres candidatas a Presidente da República: Marisa Matias, na altura eurodeputada do BE, que nessas eleições presidenciais de 2016 conseguiu aproximadamente 470 mil votos, 10,12%, o segundo melhor resultado feminino até agora, e Maria de Belém, do PS, que concorreu sem apoio do seu partido, e teve perto de 197 mil votos, 4,24%.
Marisa Matias ficou em terceiro lugar, atrás do atual Presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, vencedor à primeira volta, com apoios de PSD e CDS-PP, e de Sampaio da Nóvoa, candidato independente que recebeu apoios de figuras do PS, enquanto a antiga ministra da Saúde Maria de Belém ficou em quarto, numas eleições com um total de dez candidatos.
Cinco anos depois, na recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa, em 2021, Ana Gomes, diplomata, militante do PS, que foi a votos sem apoio do seu partido, alcançou o melhor resultado de uma candidata presidencial até agora: mais de 540 mil votos, 12,96% dos votos expressos.
Nessas presidenciais, Ana Gomes ficou à frente do presidente do Chega, André Ventura, e de João Ferreira, candidato apoiado pelo PCP, e de Marisa Matias, novamente candidata apoiada pelo BE, que na sua segunda candidatura ficou em quinto lugar, com cerca de 165 mil votos, 3,96% do total.
