Documentário revela táticas judiciais para silenciar mulheres que denunciam abusos

A ativista e advogada Jennifer Robinson, a documentarista Selina Miles e duas das mulheres que contrariaram o silêncio: Catalina Ruiz-Navarro e Brittany Higgins
Foto: Arturo Holmes/Getty Images/AFP
Atriz Amber Heard foi um dos rostos que esteve presente no lançamento do documentário "Silenced" e que traz à luz as histórias de mulheres caladas pela justiça depois de terem feito acusações de agressão, violência e assédio sexual contra homens, que responderam com processos de difamação milionários. Depois da batalha contra o ex-companheiro, o ator Johnny Depp, Amber Heard revela que não quer mais usar a sua voz para esta luta. E agora explica porquê.
"Não se trata de mim. Perdi a capacidade de falar. Não estou aqui para contar a minha história. Não quero contar a minha história. Aliás, não quero mais usar a minha voz. Esse é que é o problema". As frases são da atriz Amber Heard, proferidas este sábado, 24 de janeiro, no festival de cinema Sundance 2026, nos Estados Unidos da América, e a propósito do lançamento do documentário Silenced (Silenciadas, em tradução literal), de Selina Miles.
Este trabalho, que corre na categoria de documentário mundial, vem revelar a batalha de várias mulheres que viram as suas denúncias de abusos e violência contra homens que as agrediram transformadas em armas judiciais contra elas: alvos de processo de difamação milionários que as empurraram, depois, para o silêncio e quase para a falência.
No caso de Heard, o jornal The Sun difundiu uma peça a criticar a escolha de Depp para os filmes Animais Fantásticos da Warner Bros., tendo em conta as acusações de violência doméstica feitas por Heard durante o tempo em que estiveram casados, entre 2015 e 2017. Antes tinha sido publicado, recorde-se, um editorial no jornal The Washington Post com denúncias de agressão, mas sem nunca referir o nome do agressor. Contudo, o ator processou os media e e ex-mulher por difamação e Heard foi chamada a defender-se a par da publicação. Julgamentos que cruzaram o Atlântico, com sessões à porta aberta e condenações de milhões sobre Heard.
Amber Heard (foto: Instagram)
No documentário Silenced, a autora Selina Miles traz os testemunhos da advogada internacional de direitos humanos Jennifer Robinson, e que chegou a colaborar com Amber Heard no caso contra Depp. O documentário foca-se também no livro escrito pela ativista em 2023, com o titulo Mulheres Silenciadas, e mostra como as leis por difamação estão artilhadas contra as mulheres que falam das suas experiências sobre violação, assédio e violência de género. O site Hollywood Reporter põe em destaque os mecanismos legais em todo o mundo que têm vindo a ser empregues para "punir" as mulheres anónimas e famosoas que denunciam, garantindo que não voltam a falar das suas experiências em público.
O filme também acompanha várias mulheres que foram "caladas" após processos de difamação, com condenações de milhões de dólares. Além da conversa com Amber Heard, são também escutadas - segundo a revista norte-americana Variety - Brittany Higgins, uma funcionária política que apresentou uma alegação de violação contra um superior no parlamento australiano, Catalina Ruiz-Navarro, editora da revista latino-americana Volcánica, que foi processada pelo diretor Ciro Guerra após publicar acusações de má conduta contra ele e Sibongile Ndashe, advogada de direitos humanos.
"No mundo pós-#MeToo, vimos mulheres a quebrarem o silêncio, falando publicamente sobre a violência de género. E o que vimos, depois, foi o alegado perpetrador apresentar uma queixa de difamação a dizer: 'Isto não é verdade, é difamatório, e vou processá-la por muito dinheiro", relatou a ativista Jennifer Robison este fim de semana, sublinhando que avisou muitas clientes que, mediante denúncia, "fazer prova poderia sair muito caro" e "levar a maioria das mulheres à falência". "A pergunta que faço neste filme é: 'O que significa liberdade de expressão se não nos podemosd ar ao luxo de a defender?'", afirmou a advogada, citada pelos media, na apresentação de Silenced.
Heard revela que, no seu caso pessoal, se sentiu sem saída: "O resultado do julgamento dependia da minha participação e eu dependia do resultado desse julgamento (..) O que aconteceu comigo é uma versão ampliada do que muitas mulheres vivem", analisou a atriz durante a apresentação deste trabalho de Miles.
Quatro anos depois do fim de um dos mais mediáticos processos por violência doméstica e contra-ataque por difamação, Heard mudou de vida, trocou os Estados Unidos da América por Espanha. Atualmente, a atriz, mãe de três filhos, diz sentir "força quando vê outras pessoas a assumirem a luta". "Mulheres corajosas o suficiente para lidarem com o desequilíbrio de poder. Olhando para o rosto da minha filha enquanto ela cresce e lentamente começa a entrar neste mundo... acredito que pode ser melhor", acrescentou a atriz, citada pelos órgãos de comunicação social.
Recorde-se que, em 2022, Amber Heard foi considerada culpada de três acusações de difamação perante acusação de violência doméstica e condenada ao pagamento ao ator e então ex-marido de um valor de 15 milhões de dólares (equivalente a 14,1 milhões de euros) - 10 milhões em indemnização por danos e cinco milhões de multa, valor depois reduzido para 10,35 milhões de dólares (8,7 milhões de euros). Depp exigia, inicialmente, 50 milhões de dólares.
Relativamente ao contra-processo por difamação apresentado por Amber Heard contra Adam Waldman, advogado do ator, o júri determinou que a atriz apenas teria direito a receber dois milhões (dos 100 milhões de dólares que exigiu) de indemnização por danos compensatórios.
Ainda houve recurso da decisão, mas a atriz acabaria por aceitar um acordo de pagamento de um milhão de dólares ao ex-marido para pôr fim ao processo, alegando que o fazia por ter "perdido a a fé no sistema legal americano" e por impossibilidade de viver novo processo judicial quer "a nível financeiro, mas também psicológico, físico e emocional", afirmou Amber Heard à data.
O ator anunciou que iria doar o valor da indemnização e reparti-lo por cinco instituições: Duas de apoio a crianças com doenças graves, duas para proteger comunidades indígenas na América e Amazónia e uma quinta para conservar a herança cultural da ilha de Tetiaroa, perto de Tahiti.

