
Protestos em Minneapolis após morte de mulher por agentes federais
Foto: Olga Fedorova/EPA
Pais e educadores têm reportado que as operações de imigração em várias cidades norte-americanas provocaram quebras na assiduidade escolar, sobretudo entre famílias imigrantes que se sentem vulneráveis. Proposta de Minneapolis acontece após Donald Trump ter destacado cerca de 2.000 agentes de imigração para a região e na sequência do homicídio de uma cidadã norte-americana por um agente federal, na quarta-feira, 8 de janeiro.
O sistema escolar de Minneapolis vai permitir às famílias optar por ensino remoto durante um mês, na sequência do reforço da fiscalização federal de imigração na cidade, anunciou hoje o distrito escolar.
Segundo um plano temporário divulgado numa mensagem interna enviada aos professores, os docentes irão lecionar em simultâneo a partir das salas de aula para alunos presentes fisicamente e para estudantes a acompanhar as aulas a partir de casa.
A decisão surge num contexto de forte tensão local, após o Governo do Presidente Donald Trump ter destacado cerca de 2.000 agentes de imigração para a região e na sequência do homicídio de uma mulher por um agente federal, na quarta-feira.
Pais e educadores têm reportado que as operações de imigração em várias cidades norte-americanas provocaram quebras na assiduidade escolar, sobretudo entre famílias imigrantes que se sentem vulneráveis.Embora defensores da educação noutras cidades tenham pedido alternativas à frequência presencial, Minneapolis é um dos poucos distritos a reintroduzir o ensino virtual em moldes semelhantes aos adotados durante a pandemia de covid-19.
"Esta medida responde a uma necessidade muito importante para os nossos alunos que não podem vir à escola neste momento", escreveu um administrador escolar de Minneapolis, acrescentando que a opção de ensino remoto estará disponível até 12 de fevereiro.
As escolas públicas da região permaneceram encerradas na quinta e sexta-feira devido a distúrbios, tendo o distrito solicitado aos professores que comparecessem nos estabelecimentos para receberem orientações adicionais.
Esta noite, ativistas e organizações de defesa dos direitos dos imigrantes protestaram contra as operações do ICE em Minneapolis, dirigindo também críticas à secretária da Segurança Interna, Kristi Noem.
Segundo meios de comunicação locais, os manifestantes exibiram cartazes com mensagens como "ICE: Assassinos" e "Nova Iorque apoia Minneapolis".
Alguns participantes transportavam ainda fotografias para exigir justiça para Renee Nicole Good, a mulher morta a tiro durante uma operação do ICE naquela cidade do Minnesota.
A morte ocorreu no âmbito de uma intervenção federal em Minneapolis, onde o Departamento de Segurança Interna reportou a detenção acumulada de mais de mil imigrantes, incluindo cidadãos do Equador, México e El Salvador.
Na segunda-feira, foram detidas mais de 150 pessoas, na maior operação realizada este ano, segundo dados oficiais.
Kristi Noem afirmou que as políticas das cidades-santuário "protegem criminosos e membros de gangues" e colocam em risco a segurança dos residentes, garantindo que o Governo federal usará "todas as ferramentas" para proteger os americanos.Em resposta, a Coligação de Imigração de Nova Iorque acusou a secretária de mentir sobre essas políticas para "incitar o medo" entre a população. O defensor público da cidade, Jumaane Williams, afirmou por sua vez que a administração do Presidente Donald Trump está a "fazer o trabalho do diabo".
Morte de mulher por agentes federais
em Minneapolis é "injustificável"
A Human Rights Watch (HRW) considera "injustificável" a morte de Renee Good, em Minneapolis, na quarta-feira, por um agente federal de imigração dos EUA, afirmando que vídeos do incidente "contradizem claramente" as alegações das autoridades.
"Três vídeos do incidente partilhados nas redes sociais, verificados pela Human Rights Watch e por meios de comunicação social, contradizem claramente as alegações das autoridades federais de que a mulher "usou o seu veículo como arma" ou tentou matar os agentes antes de um agente abrir fogo", sustenta a Organização Não-Governamental (ONG) em comunicado.
Renee Good [Foto: Monstagem/Instagram]
Citada no comunicado da ONG, a diretora de crises, conflitos e armas da associação refere que, "ao longo do último ano, o ICE e outros agentes federais têm abusado impunemente das comunidades de imigrantes em todos os Estados Unidos".
"Este incidente horrível é o mais recente sinal de que as suas táticas abusivas colocam vidas em risco, incluindo pessoas que não estão sujeitas à aplicação da lei de imigração", sustenta Ida Sawyer.
Afirmando que a análise dos vídeos partilhados nas redes sociais revela que, quando os tiros foram disparados, os agentes não poderiam "ter temido razoavelmente a morte ou ferimentos físicos graves", a HRW acusa-os ainda de, após o incidente, terem ficado "em volta do veículo sem fazer qualquer esforço aparente para prestar assistência médica imediata".
"O governo da cidade de Minneapolis informou que os agentes da polícia que responderam ao incidente encontraram Good com "ferimentos de bala com risco de vida" e que os bombeiros de Minneapolis prestaram assistência médica até a chegada dos paramédicos. Duas testemunhas disseram aos 'media' que os veículos do ICE estacionados na rua impediram a passagem da ambulância, forçando os paramédicos a chegar até Good a pé, vindo do final do quarteirão", relata.
Good acabaria por morrer mais tarde no hospital, tendo o Departamento de Segurança Interna (DHS) emitido uma declaração indicando que tentou matar os agentes do ICE com o seu veículo num "ato de terrorismo doméstico".
Para a HRW, é esta versão é "totalmente inconsistente com qualquer análise razoável das imagens de vídeo", encaixando-se a morte de Good "num padrão mais amplo de incidentes envolvendo o uso de armas de fogo em circunstâncias questionáveis durante operações de fiscalização de imigração".
Defendendo que "as autoridades locais e federais devem apoiar os esforços umas das outras para investigar de forma completa e imparcial o assassínio", a ONG enfatiza que, "na ausência de mecanismos internos fortes de supervisão do DHS - que diz terem vindo a ser desmantelados pela administração Trump - as comissões do Congresso responsáveis pelo DHS devem realizar audiências de supervisão".
"A morte de Good é um exemplo horrível dos perigos representados pelas agências de aplicação da lei que têm poderes para agir de forma imprudente e envia uma mensagem ameaçadora e potencialmente assustadora a imigrantes, manifestantes e transeuntes", diz Sawyer, reiterando que "as autoridades devem investigar o homicídio de forma pública e exaustiva e garantir que seja feita justiça".
