Começou por ser médio, tinha qualidade técnica, era resiliente e benfiquista de coração. Agora vai ao Mundial.
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Em Penalva do Castelo, um concelho de sete mil habitantes do distrito de Viseu, o nome de António Silva merece respeito e carinho. Foi aí onde o defesa central do Benfica, que foi a grande novidade na convocatória da seleção para o Mundial 2022, viveu a partir dos três meses e deu os primeiros passos no futebol, depois de ter nascido na cidade do Porto.
Ainda antes de fazer sete anos, já aparecia nos treinos do SC Penalva do Castelo, um clube que agora anda pelos distritais, com o irmão Armando. Ficava fora do campo a brincar com uma bola e já aí chamava à atenção de alguns treinadores pela qualidade técnica que evidenciava. Por isso, quando começou a treinar com a equipa de sub-10, não demorou para se perceber que era melhor que os outros. "Não falava muito, era observador e cumpria tudo o que mandávamos. Se tivesse dúvidas vinha-nos perguntar discretamente. Mas fora do campo era muito irrequieto", conta, ao JN, António Pinto, um dos primeiros treinadores de António Silva. A qualidade era tanta que começou a jogar como médio. "Já se pressentia que ia chegar aos grandes palcos, era mais evoluído que os colegas e conseguia fazer tudo em campo", explica Filipe Monteiro, outro treinador do agora jovem de 19 anos. "Se ele tem razão não se fica, já em pequeno era assim", acrescenta ainda António Pinto no mesmo campo onde o agora defesa central do Benfica despontou.
Nessa altura, já tinha um perfil resiliente, característico de quem vive na Beira Alta e tem de fazer das dificuldades todas as forças. Na Travessa da Morqueira, onde morava, passava os tempos livres a jogar futebol na rua e a andar de bicicleta. "Quando caía, era como se nada tivesse acontecido. Seguia em frente e não se queixava", sublinha João Soares, serralheiro, que chegou a fazer obras em casa dos pais. Uma vez, António Silva pediu ao árbitro para parar um jogo de futebol só para alguém lhe apertar os atacadores, um momento que proporcionou risos na bancada e também demonstra o espírito desenvencilhado de um miúdo sem vergonha de nada.
Depois do Penalva do Castelo, jogou no Repesenses, em Viseu, clube então tinha parceria com a Dragon Force, escola de futebol do F. C. Porto. Segundo Filipe Monteiro, o plano passava por levá-lo a representar os dragões, mas o pai, Carlos Silva, benfiquista de coração e que sempre incutiu essa paixão no filho, traçou-lhe outro caminho. Numas férias da Páscoa, levou-o ao Seixal para integrar um treino de captações e António Silva acabou por ficar no Benfica. Mas não foi fácil, porque chegou a regressar a Viseu por falta de adaptação. Um ano depois, mudou-se de vez para o Benfica e o resto da história toda a gente sabe: afirmou-se nas camadas jovens, passou a jogar a defesa central, estreou-se esta época, com apenas 18 anos, na equipa principal e agora vai ao Mundial. Mas tudo sem esquecer os estudos. Entrou no curso de gestão de empresas em Lisboa e tem, por agora, a matrícula congelada.
A bola era o único brinquedo do pequeno Joãozinho
Era tímido e carinhoso no infantário e irreverente a jogar futebol. Penalva do Castelo vibra quando António Silva atua pelo Benfica.
Aos olhos de quem o acompanhou de perto desde a nascença, António Silva só pensava numa coisa: futebol. A bola levava-o a ser irreverente, mas na escola o cenário era bem diferente, embora nem aí disfarçasse a paixão pelo jogo. Quando aos dois anos chegou à Creche/CATL Aprender a Brincar, em Penalva do Castelo, era uma criança introvertida. Apesar de gostar de pintar e fazer puzzles, "a paixão dele era mesmo a bola, tudo servia de bola", recorda Carla Marques, uma das primeiras educadoras de infância do agora defesa central do Benfica. "Portava-se muito bem e era muito carinhoso connosco, dava-me sempre um abraçinho quando chegava", acrescenta.
Em casa, o cenário era bem diferente. "Ele subia para cima de uma cuba de vinho e não descia enquanto não lhe dêssemos a bola", conta José Laires, que trabalhou na Quinta da Taboadela, pertencente à família de António Silva. "Só tinha um brinquedo: a bola. Jogava na rua, na parte de trás da vivenda e até dentro de casa, a mãe via-se tramada! Chegava a partir coisas em casa, era muito irreverente", completa sobre o pequeno "Joãozinho", que é a forma como a família e as pessoas mais próximas ainda hoje se referem a António João Pereira Albuquerque Tavares Silva - é assim que se chama o defesa central do Benfica.
A fama e o carinho pelo jogador é tanta que os jogos dos encarnados são uma autência festa na vila de Penalva do Castelo. "Na Casa do Benfica, quando o António toca na bola, parece que estamos no Estádio da Luz. Então quando marca... a alegria é contagiante, mesmo para quem não gosta de futebol, porque ele é de Penalva e isso é um orgulho enorme", explica José Laires.
Para Luís Filipe, presidente do SC Penalva do Castelo, "é uma alegria o sucesso do António, porque sempre que se fala dele fala-se de Penalva", a terra que idolatra o jogador do Benfica. "Se pudesse estar com ele, dizia-lhe que está convidado para a festa dos 20 anos da creche. Se a comemoração for num dia em que ele tenha um jogo da Liga dos Campeões, nós mudamos a data para o António estar connosco", diz Carla Marques a sorrir.
