O nariz fraturado, o buraco na chuteira para suportar as dores e o pescoço partido: histórias de sacrifício em campo

Martim Fernandes jogou o clássico quase todo de nariz partido
Foto: F. C. Porto
Martim Fernandes jogou com o nariz partido até ser substituído por Alberto Costa, já na reta final da vitória frente ao Benfica (1-0) na Taça de Portugal. O técnico dos dragões, Francesco Farioli, comentou que não é a primeira vez que um jogador portista faz um sacrifício destes, relembrando o inigualável João Pinto.
Depois de um choque com o benfiquista Sidny Cabral, Martim Fernandes teve de trocar de camisola quatro vezes devido à fratura exposta na zona do nariz, mas este tipo de sacrifício tem uma longa história no futebol.
Em Portugal, João Pinto, o lendário capitão do F. C. Porto nas décadas de 1980 e 1990, protagonizou um dos episódios mais icónicos: com um dedo do pé partido, fez um buraco nas chuteiras para suportar a dor, pintou de preto a meia por cima para disfarçar o truque, e foi a jogo.
O ex-lateral dos dragões era exemplo de superação, tendo sido operado à cara e, mesmo assim, decidido continuar a treinar e a jogar. "Perguntei ao doutor quando é que íamos ao médico e íamos no dia a seguir. Fomos e eu perguntei o que aconteceria dali a um mês se levasse cotovelada. Ele disse que ia ter de ser operado outra vez. Então eu disse que se fosse para a semana ou dali a um mês era igual", recordou.
Mais recentemente, na meia-final da Taça da Liga contra o Braga em 2024, o treinador Rúben Amorim admitiu que o avançado Pedro Gonçalves jogou lesionado. Amorim explicou que o jogador "teve um corte no pé e levou pontos" mas, mesmo assim, permaneceu em campo como titular. Já no Benfica, no campeonato 2004/05, o extremo Simão Sabrosa revelou que sofreu uma hérnia inguinal em janeiro e passou os meses finais da época praticamente "só com a perna direita".
Um dos casos mais extremos aconteceu em 1956, quando o guarda-redes alemão Bert Trautmann, do Manchester City, entrou para a história ao vencer a Taça de Inglaterra com o pescoço partido. Na final contra o Birmingham City, Trautmann chocou violentamente com um adversário, mas como não eram permitidas substituições naquela época recusou sair de campo e continuou a jogar, mesmo zonzo e com dores. Fez defesas cruciais e ajudou a segurar a vitória, sendo que somente dias depois, exames revelaram a gravidade: cinco vértebras deslocadas no pescoço, uma delas partida em duas, que quase o deixou paralítico.
Nas competições europeias de clubes também não faltam exemplos de sacrifício. Um caso marcante ocorreu em 2010, quando o espanhol Cesc Fàbregas, então capitão do Arsenal, jogou com a perna fraturada contra o Barcelona pelos quartos de final da Liga dos Campeões. No jogo da primeira mão, em Londres, Fàbregas foi ao chão depois de sofrer um pênalti cometido por Carles Puyol já perto do fim. Sem saber da gravidade da lesão, insistiu em cobrar o penálti ele próprio e marcou o golo, vendo depois que tinha a perna partida.
Nenhuma lista de guerreiros em campo estaria completa sem Cristiano Ronaldo, conhecido pela dedicação física fora do comum. Em 2014, às vésperas do Mundial do Brasil, o capitão português foi diagnosticado com tendinite rotuliana crónica no joelho esquerdo e uma lesão muscular na coxa. Os médicos advertiram que forçar poderia comprometer o futuro da sua carreira. Ainda assim, CR7 decidiu jogar o Mundial, para ajudar a seleção.
No futebol, a dor é muitas vezes invisível. Mas em jogos decisivos ou pela mística da camisola, há quem troque o conforto pela glória, provando que, para muitos, sair de campo não é sequer opção.
